Assessor de Yeda é citado em grampo e deverá ser convocado pela CPI do Detran
GRACILIANO ROCHA
da Agência Folha, em Porto Alegre
Citado em interceptações telefônicas realizadas com autorização judicial, um dos principais assessores da governadora Yeda Crusius (PSDB), o secretário-geral de Governo Delson Martini, deverá ser convocado pela CPI da Assembléia Legislativa que investiga o desvio de R$ 44 milhões do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) do Rio Grande do Sul.
Hoje, após uma sessão em que foram apresentados os áudios dos grampos da Polícia Federal, nove dos 12 deputados da CPI assinaram requerimento para convocar Martini. A convocação, que tinha sido vetada duas vezes pela maioria governista na comissão, teve apoio até de deputados do PSDB.
Das 34 gravações apresentadas pela CPI, o secretário é mencionado em quatro como um suposto interlocutor do governo para dirimir o impasse criado, segundo a PF, pela saída das empresas dos familiares do empresário tucano Lair Ferst do esquema.
Em um telefonema dado em agosto de 2007, o ex-tesoureiro do PP Antônio Dorneu Maciel sugere que o então presidente do Detran, Flávio Vaz Netto, trate da "questão do Detran" com a governadora e pergunte se "é para seguir a orientação do Delson". Na conversa, Maciel diz que Martini está "junto na desgraça e na bonança".
Maciel e Vaz Netto foram presos três meses depois, em novembro, quando a PF deflagrou a Operação Rodin. Hoje, são réus na ação penal aberta pela Justiça Federal.
O empresário Lair Ferst, apontado pela Procuradoria como um dos líderes do esquema, também aparece nos grampos. Em um deles, também de agosto, Ferst é informado por um homem não identificado pela PF que foi feito um pagamento de R$ 498 mil. Entre 2003 e 2007, duas empresas controladas por irmãs e cunhado de Ferst receberam cerca de R$ 21 milhões de uma fundação contratada pelo Detran.
No final da tarde de hoje, o secretário Delson Martini negou que soubesse do esquema de fraude no Detran ou que tivesse arbitrado algum tipo de disputa entre grupos de interesse dentro do órgão. Ele mencionou que as citações a seu nome seriam referentes a "um pedido de audiência".
"Não fui chamado a depor na Polícia Federal nem como testemunha nem como acusado", disse Martini. Em 2007, ele presidiu a CEEE (estatal de energia elétrica do RS). Ele também negou ter conversado sobre o Detran com Dorneu Maciel, que era diretor administrativo da CEEE em 2007.
O porta-voz do governo, Paulo Fona, disse que a eventual convocação de Martini "não cria constrangimentos ao governo" e criticou o suposto uso político do caso pela oposição, "que tem que esperar até 2010".
O advogado de Flávio Vaz Netto não quis comentar o conteúdo do grampo. Flávio Luz, que defende Antônio Dorneu Maciel, disse que seu cliente "ouvia os problemas de Flávio [Vaz Netto], como amigo de 30 anos, mas não intercedia". Nem Lair Ferst nem seu advogado foram localizados.
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