Lula diz que não pode fazer "milagre" e critica Serra
KAMILA FERNANDESda Agência Folha, em Fortaleza
O candidato do PT a presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, em um comício hoje à tarde em Fortaleza, relembrou sua origem de metalúrgico e afirmou que ''sabe que não pode falhar'', mas que não pode fazer "milagre".
"Quando eu cheguei, várias mulheres e vários homens vieram me cumprimentar chorando e dizendo que eu sou a última esperança deles. Sei que eu não posso falhar, sei que eu não posso trair o sonho de milhões e milhões de brasileiros que estão juntos comigo. Qualquer outro presidente da República pode ser eleito e não fazer nada, que o povo já está acostumado, mas nós não temos esse direito, porque tem gente que carrega a nossa bandeira há 10, 20, 30 anos", disse.
A única categoria cuja demanda reprimida vai pressionar Lula citada pelo petista foi a do funcionalismo público _''há oito anos sem reajuste''. Mas não falou em percentuais: "Não vamos fazer milagre".
"Agora, eu sei que não vai ser tudo num dia ou num ano, o país está metido numa dívida sem precedentes, está há oito anos sem ver sua economia crescer", afirmou Lula. "Não sei se vou poder fazer tudo que eu tenho na cabeça, mas podem estar certos de que vou começar fazendo o necessário, depois vamos fazer o possível, e depois até chegar no impossível."
Lula faria uma caminhada pelo centro de Fortaleza, mas não conseguiu por causa da multidão que lotava as ruas e teve de ir de carro até o palanque da campanha, montado na praça do Ferreira. Cerca de 70 mil pessoas participaram do comício, segundo os organizadores, debaixo de um forte sol _a PM não fez estimativas.
O discurso ganhou tom mais emocional quando ele falou dos preconceitos que teve de vencer ao entrar na política por ser metalúrgico e pobre. "Diziam 'o Lula não pode ser candidato, ele não fala inglês, ele não fala francês, ele não tem diploma universitário, ele ainda tem a marca na mão de quando foi operário, quem já foi operário nunca vai deixar de ser operário'. Eu quero dizer, com orgulho, que eu não quero esquecer as minhas origens. Quero provar que metalúrgico é capaz de governar este país melhor do que a elite brasileira conseguiu nestes últimos cento e tantos anos de República", disse.
O palanque teve de ser parcialmente esvaziado porque as tábuas começaram a ceder. Além de políticos dos partidos de esquerda, estavam no palanque lideranças do PMDB e do PFL que apóiam o candidato ao governo do Ceará, José Airton Cirilo (PT).
Lula foi irônico ao criticar José Serra (PSDB). "Meu adversário ficou 15 dias na televisão utilizando 10 minutos do programa dele para falar de mim. Falou mais no meu nome do que no nome dele. Eu chego a desconfiar que, se ele continuar nesse ritmo, dia 27 ele vai votar em mim para presidente da República", disse.
O candidato do PT disse ainda que Serra "não tem o que fazer" porque até mesmo os candidatos a governador do PSDB "estão fazendo cédula comigo em tudo quanto é lugar". "Até em São Paulo tem outdoor dizendo 'Alckmin cá e Lula lá'."
O petista criticou o governo Fernando Henrique Cardoso, que, segundo ele, "só pensa em pagar juros e mais juros", disse que vai promover um grande estudo sobre a transposição do São Francisco e que, a primeira medida depois de montar o ministério será levar os novos ministros para conhecer a fome no semi-árido nordestino. "A seca é um fenômeno da natureza; a fome causada pela seca é falta de vergonha de quem governa este país há muito tempo."
Leia mais no especial Eleições 2002

