Brasil
03/07/2008 - 17h29

Índios brasileiros pedem ajuda a Portugal para manter demarcação em reserva

Publicidade

SIMON KAMM
da Agência Lusa, em Lisboa

Líderes indígenas da reserva Raposa/Serra do Sol, em Roraima, afirmaram nesta quinta-feira, em Lisboa, que Portugal pode ser determinante na luta dos índios brasileiros pela demarcação da área. Eles apelaram ao governo português para que ratifique a Convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sob direitos dos povos nativos.

"Temos a convicção de que Portugal nos pode apoiar bastante porque conhece muito bem a nossa realidade. Esperamos a solidariedade da população, das instituições e do governo português para a nossa causa", afirmou hoje numa entrevista à Agência Lusa a representante indígena Pierlangela Cunha, da tribo Wapixana, pouco depois de ter chegado a Portugal.

"É por isso que instamos Portugal a que ratifique a Convenção 169 da OIT sob povos indígenas e tribais em países independentes [que trata sobre a relação entre os povos indígenas e a sua terra, recursos naturais e oportunidades de desenvolvimento] para que outros povos nativos possam solicitar apoio", afirmou.

Pierlangela Cunha e Jacir José de Souza, da tribo Makuxi, chegaram hoje a Lisboa para divulgar a campanha de defesa da sua terra "Anna Pata, Anna Yan" (Nossa Terra, Nossa Mãe) e denunciar as violações e crimes que dizem ser alvo os povos indígenas na reserva Raposa/Serra do Sol.

A reserva --uma área de 1,67 milhões de hectares onde vivem 19.000 indígenas das tribos Macule, Wapixana, Taurepang, Patamona e Ingarikó-- tem sido alvo de disputa entre os índios e seis grandes fazendeiros, que são apoiados pelo governo estadual e se recusam a deixar o território.

"A nossa terra está em perigo. O governo estadual de Roraima quer diminuir a nossa terra para uso dos empresários [agrícolas] na zona", explicou Pierlangela Cunha, lembrando que os seis grandes fazendeiros já ocupam cerca de 6.000 hectares do território, que foi homologado e demarcado como reserva indígena pelo governo brasileiro em 2005.

"Aquele território é nosso há muitos anos. A vivência dos nossos antepassados e avós está gravado nas pedras, no chão, em todos os lados", afirmou.

"O que é que nós vamos poder passar aos nossos filhos? Como é que vamos conseguir viver em paz na reserva quando somos forçados a conviver com pessoas que invadiram o nosso território, que estão a destruir o ambiente, que afetam a nossa cultura e nos ameaçam constantemente através de atos de violência", disse Pierlangela Cunha.

Convencidos de que os índios "apenas atrapalham o progresso", os agricultores interpuseram uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal brasileiro) para contestar o decreto de homologação, e exigem que a demarcação do território seja feita em área descontínua para que possam ficar com as suas terras e propriedades.

A anulação do decreto de homologação abriria "um precedente jurídico a todos as outras terras indígenas no Brasil", afirmou Pierlangela Cunha, lembrando que "todos os povos indígenas no Brasil vão depender da decisão que for tomada".

Essa decisão pode pôr em causa outras terras indígenas, já demarcadas, homologadas e registradas.

A responsável indígena lamentou que apesar de os direitos indígenas, como o direito à terra, estarem estipulados na Constituição brasileira e em convenções internacionais assinadas pelo Brasil, os interesses econômicos se sobreponham a esses direitos.

"No Brasil existem 220 povos, 170 línguas. Também estamos aqui para demonstrar essa grande diversidade e sublinhar que nós existimos. Não somos do passado, somos do presente e seremos do futuro", afirmou.

"Vamos resistir até ao último índio. Vamos resistir a todas essas pressões econômicas dentro dos nossos territórios", disse.

"O presidente Lula da Silva tem-se batido pela questão das terras indígenas no país. No caso da Raposa Serra do Sol afirmou que não iria abrir a mão. O que nós pedimos aos países como Portugal é que mandem uma carta a pedir-lhe isso", afirmou Jacir José de Souza.

Os indígenas --que foram nomeados pelo Conselho Indígena de Roraima como representantes dos seus povos e desde 16 de junho viajam pela Europa para sensibilizar os governos e organizações para a sua causa-- exigem que o STF ratifique e faça cumprir o decreto de homologação e finalmente determine a retirada dos agricultores.

No decorrer da sua viagem, eles foram recebidos pelo papa Bento 16 e outras instituições políticas de países da União Européia.

Comentários dos leitores
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h50
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h50
Índios vivem no Brasil em locais onde o sol é intenso e precisam se banhar várias vezes nos rios para se refrescar. Se eles desempenhassem trabalho em indústrias que o governo levasse para suas aldeias, eles receberiam em contra-partida um salário e poderiam ter casas de alvenaria com ar condicionado e ventilador. Com o tempo iriam diminuindo a prática de ir tantas vezes se banhar nos rios. Dizer que índios não gostam de trabalhar e que nunca irão gostar de trabalhar é enganação, porque existem profissionais competentes que poderiam fazê-los acostumar com as tarefas de trabalhos diversos. O governo deveria ser bom de verdade para os índios e ajudá-los de verdade, para que eles se desenvolvam com dignidade que todos seres humanos merecem e por serem brasileiros igual eu sou, eu penso que merecem mesmo a conquista da dignidade de viverem com mais conforto. Más, não é desapropriando terras produtivas para doar muita terra para eles que eles irão ter dignidade de viverem com mais conforto algum dia. Muito menos será isolando eles nas florestas e deixando-os ignorantes para viverem como selvagens. sem opinião
avalie fechar
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h31
HILTON FIGUEIREDO COSTA (4) 04/11/2009 23h31
O governo deveria pensar que, em breve os índios que talvez sejam hoje uns 400 mil, serão milhões, e que causarão um enorme impacto ambiental, principalmente afetando muito a fauna porque eles irão caçar mais. Também o fato de representarem uma enorme massa populacional de "desocupados", porque não são a maioria que exerce atividade de plantação de lavouras de subsistência, ou que praticam algum trabalho além de caçar ou pescar. Já aconteceram muitos conflitos em contatos com índios de tribos isoladas e que nunca tiveram contato antes com a civilização, em construções de estradas no interior, em construção de estrada de ferro na região norte, em vilarejos que foram atacados por índios de tribos que não tinham feito contato antes e o governo deveria imaginar que com o aumento das populações indígenas, muitos índios irão sair de suas aldeias e se instalarem em locais onde nascerão outras gerações que viverão isoladas e sujeitos a primeiros contatos com consequências trágicas, e que poderiam ser evitados. Índios precisam receber educação, o governo deve levar para os índios em suas aldeias, indústrias ou fábricas, atividade de criação de animais e de produção de alimentos diversos. Dizem que índios não gostam de trabalhar, más, profissionais competentes existem nesse país e poderiam prestar serviços de assistência aos índios se trabalharem na FUNAI ou para o governo, educanto e treinando os índios para desempenharem tarefas em indústrias e na produção de alimentos. sem opinião
avalie fechar
Leonardo Afonso (2) 04/11/2009 18h44
Leonardo Afonso (2) 04/11/2009 18h44
Há mais que a questão dos índios do Xingu, Belo Monte alagaria uma formação geológica única no mundo; e não há demanda humana na área, a energia seria destinada a empresas estrangeiras de alumínio (como a Alcoa), no Maranhão. Tal indústria é intensiva em energia; e é estratégica de fato, mas não está acima de todos outros vetores socio-econômico-ambientais! Mas com Minc e Dilma, colega... sem opinião
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (1253)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca