Dantas nega envolvimento em ações de grampos telefônicos
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
Em depoimento à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara, o banqueiro Daniel Dantas negou nesta quarta-feira que tenha contratado a empresa Kroll para realizar escutas telefônicas clandestinas com o objetivo de investigar a empresa Telecom Itália --que disputou com o banco Opportunity o controle da Brasil Telecom.
Dantas disse que, ao contrário do que a imprensa "insiste em divulgar", não está envolvido em ações de grampos telefônicos.
"Na verdade, eu não contratei a Kroll. A Brasil Telecom contratou a Kroll, que investigou a Telecom Itália. Nesse processo não tem nenhum grampo telefônico. A Brasil Telecom contratou a Kroll pela sua competência internacional. A Kroll foi a mesma empresa que o Congresso contratou para investigar desvios na gestão Collor pelo PC Farias", afirmou.
Dantas disse que a Brasil Telecom, ao contratar a Kroll, tinha como objetivo descobrir o destino de recursos "desviados" da empresa. "Saíram US$ 800 milhões dos cofres da Brasil Telecom, foram para os cofres da Telefonica da Espanha. O objetivo era investigar se esses recursos teriam parado em destinos ilícitos. Até as investigações serem suspendidas, a Kroll não tinha provas de quem teria recebido [os recursos]", afirmou.
O banqueiro insinuou que a Telecom Itália foi responsável por grampos telefônicos ilegais no país no processo de venda da Brasil Telecom. "Quem fez grampo ilegal, ao que tudo indica, foi a Telecom Itália, que usou infra-estrutura no Brasil. Isso é alvo de investigação na Itália. Vários agentes da Telecom Italia confessaram que pagaram agentes para produzir escutas telefônicas e invasão de correspondências nossa e a pessoas a nós ligadas", disse o banqueiro.
Dantas afirmou que as denúncias sobre a suposta contratação da Kroll surgiram diante da disposição da Telecom Itália em impedir que o Opportunity adquirisse a Brasil Telecom. "Em 1999, o controle da Telecom Itália foi adquirido por um empresário que queria o controle da Brasil Telecom e iria usar de todos os meios para conseguir. A partir daí, começam as disputas societárias que acabaram envolvendo o governo, o Estado e a imprensa. Uma série de notícias e fatos foram criados para tentar criar dificuldades ao nosso lado, entre eles a acusação de que eu teria contratado a Kroll para investigar a Telecom Itália."
Dantas disse que o Citibank recomendou a contratação da Kroll, uma vez que o banco era um dos grandes clientes da empresa. O banqueiro afirmou ainda que todas as acusações de seu envolvimento em ações de grampos telefônicos são falsas. "Acho que essas informações tinham o propósito de produzir efeitos contrários ao nosso grupo numa disputa societária que se estendeu por vários anos sob o controle da Brasil Telecom", afirmou.
Escutas
Dantas e a ex-presidente da Brasil Telecom Carla Cico foram acusados da contratação dos serviços da Kroll Associates para investigar a Telecom Italia, empresa que disputa com o Opportunity o controle da Brasil Telecom.
Devido às denúncias de espionagem, a Polícia Federal começou a investigar a responsabilidade da Kroll e dos executivos da Brasil Telecom em possíveis ações ilegais.
A investigação da Kroll teria atingido funcionários do primeiro escalão do governo, como o ex-ministro Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) e o ex-presidente do Banco do Brasil Cássio Casseb. A Kroll teve acesso a e-mails do ministro antes de ele assumir a pasta. Já Casseb foi monitorado antes e depois de assumir o cargo.
Outro lado
A Kroll divulgou nota refutando "as declarações e acusações divulgadas durante a CPI de que a empresa realizava 'escutas telefônicas clandestinas' em 2004". "Sobre tais afirmações descabidas a empresa reitera que nunca participou de atividades de espionagem, incluindo escutas telefônicas e "invasão de e-mails"", diz a nota.
Na nota, a empresa diz que a própria PF "emitiu um laudo confirmando que o equipamentos de propriedade da empresa encontrados em 2004 servem para eliminar escutas telefônicas, e com relação aos e-mails, a Kroll nunca foi acusada de invadir e-mails e nunca praticou tal atividade". "A Kroll está à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos."
Em nota, a Telecom Itália nega as acusações de Dantas. "A atual diretoria da Telecom Itália está tomando as medidas necessárias para pleno esclarecimento dos fatos à sociedade. A administração da Telecom Itália, que assumiu em dezembro de 2007, está tomando ciência da questão e se coloca à disposição para colaborar com as autoridades e chegar à verdade dos fatos."
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