Testemunhas complicam defesa de Dantas em processo sobre espionagem
RUBENS VALENTE
da Folha de S.Paulo
Testemunhas ouvidas pela Justiça Federal de São Paulo complicaram a defesa do banqueiro Daniel Dantas num processo que o investiga por supostamente promover espionagem sobre desafetos.
Em 2005, Dantas foi alvo de inquérito da Polícia Federal derivado da Operação Chacal, desencadeada naquele ano pela PF. A investigação se transformou em processo que tramita no TRF (Tribunal Regional Federal) da 3ª Região, em São Paulo. A operação inicial foi realizada um ano depois que a Folha revelou que o banqueiro, por meio da companhia telefônica que ele controlava à época, a Brasil Telecom, contratara a agência Kroll para investigar integrantes do governo Lula.
Esse segundo inquérito centralizou as investigações sobre o empresário israelense Avner Shemesh. Segundo relatórios da Chacal, depois dos problemas com a Kroll Dantas teria recorrido a Shemesh para investigar o empresário Luís Roberto Demarco, entre outros desafetos de Dantas. Uma busca e apreensão feita pela PF no escritório de Shemesh localizou aparelhos de gravação telefônica, "dossiês" sobre Demarco, uma empresa sua e sócios, incluindo detalhes de sua rotina e extratos telefônicos.
Outra suposta evidência apontada pela PF foi uma gravação em vídeo, feita com câmera escondida num carro estacionado na rua, da chegada de um homem à empresa de Shemesh, em abril de 2005. Segundo a PF, tratava-se de Carlos Rodenburg, braço direito e ex-cunhado de Dantas.
Desde então, a defesa do banqueiro tem procurado desvincular Rodenburg de Shemesh. Para a defesa, é ponto importante provar que o ex-cunhado não era o homem gravado pela PF. No decorrer do processo, a defesa de Rodenburg pediu e obteve um habeas corpus no TRF, com base em três declarações assinadas por funcionários de uma empresa de vans, a Brasil Shuttle. No papel, o diretor da empresa, Paulo Rogério Nocker, afirmou que "após análise da foto retirada no portão da entrada da empresa [de Shemesh] On Line Security reconheci as duas pessoas que estão nesta imagem, sendo que a pessoa de costas com camisa branca [identificada pela PF como Rodenburg] é na verdade um dos motoristas das vans, cujo nome é Fernando Magnenti Lima". Em sua declaração, Lima também afirmou ser ele o homem no portão, após uma "análise da foto".
Contradições das testemunhas, contudo, quando foram ouvidas na Justiça, acabaram por colocar em xeque a versão da defesa do banqueiro. Em depoimento prestado em fevereiro passado na 5ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Nocker disse algo diferente e entrou em contradição. Primeiro disse que havia escrito a declaração de próprio punho, depois que o papel lhe foi apresentado pela secretária da empresa de Shemesh, Vanessa Cruz. Negou, ao contrário do que está na sua declaração por escrito, que tivesse analisado as fotografias da PF. "Vanessa não me exibiu nenhuma fotografia. Não analisei nenhum fotografia previamente à assinatura de fls. 72 [sua declaração por escrito]. Não reconheço o veículo das fotografias de fls. 21 [fotogramas da gravação da PF]", afirmou Nocker.
Na audiência, foram então apresentadas a Nocker as fotografias citadas na sua declaração. "A foto não está nítida o suficiente para que eu identifique a pessoa", disse Nocker.
Em seu depoimento, Lima afirmou que "pelo que se lembrava, a declaração lhe foi entregue pelo coordenador de segurança Marco Antônio Carrara Júnior" (fato que Carrara depois confirmou), na época funcionário de Shemesh. Lima acrescentou: "A declaração me foi apresentada pronta". Antes havia dito que preenchera de próprio punho a declaração, depois disse que se enganou.
A versão de Lima sobre a conversa com Carrara Júnior é tortuosa. "Pelo que me lembro fui procurado pela testemunha Marco, para dizer que não era eu que figurava em uma fotografia e não era eu mesmo que estava na fotografia que me foi mostrada", disse Lima.
Os depoimentos estão sendo analisados pelo Ministério Público Federal.
Outro lado
No depoimento que prestou ontem à CPI dos Grampos, o banqueiro Daniel Dantas negou conhecer o israelense Avner Shemesh: "Não conheço, nunca tive nenhum contato com ele nem nunca com ninguém que tenha dito que teve contato com ele".
Em nota, o Banco Opportunity informou que "o banco, Daniel Dantas e Carlos Rodenburg não contrataram quem quer que seja para fazer escutas telefônicas. Informamos ainda que o processo foi trancado em relação a Carlos Rodenburg e está suspenso no caso de Daniel Dantas por liminar concedida pelo tribunal".
Em e-mail, o advogado de Shemesh, Alex Leon Ades, afirmou: "Avner não conhece Daniel Dantas e nenhum funcionário do grupo Opportunity; nunca trabalhou para Daniel Dantas ou qualquer pessoa ligada a ele ou ao grupo Opportunity; a empresa da qual Avner é diretor não oferece, e nunca ofereceu serviços de espionagem e grampos telefônicos". A Kroll, em comunicados emitidos desde 2004, sempre negou ter feito investigações ilegais sobre integrantes do governo Lula.
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