Comitê de vereadora distribui cesta básica em SP
CLAUDIO DANTAS SEQUEIRA
da Folha de S.Paulo
Ao longo da semana, a Folha registrou cenas da guerra particular travada pelos candidatos a uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo. Longe da fiscalização, vereadores aliciam cabos eleitorais de concorrentes e trocam cestas básicas por promessas de votos.
Às 16h10 da última quinta-feira, Robson Nogueira e Elaine Cristina foram ao escritório político da vereadora Myryam Athie (PDT), no Tatuapé, zona leste. O local, transformado em comitê de campanha da candidata à reeleição, abriga cerca de 20 funcionários.
Nogueira e Cristina se apresentaram a uma mulher chamada Sandra Almeida, contaram que vinham da periferia e ouviram que a vereadora poderia ajudá-los com uma cesta básica. Saíram dali com duas cestas básicas, mas só depois de preencherem um formulário e receberem orientação para levar ao comitê mais 50 pessoas.
Sandra, segundo a dupla, também lhes prometeu emprego e forneceu o e-mail para que enviassem currículos. "Ela falou para ele voltar na semana que vem para buscar outra [cesta] e eu terei direito a outra no final do mês, caso a gente queira trabalhar como voluntário", explicou Cristina, mostrando o material de propaganda entregue pela mulher no local: cerca de 2.000 santinhos, 50 adesivos de carro e informativos sobre as realizações de Athie em seus três mandatos.
Cristina contou ainda que, para conseguir a cesta básica, não precisou apresentar nenhum documento ou dar mais explicações. Recebeu ainda o cartão de visitas de Myryam Athie com o brasão da Câmara Municipal. Sandra não foi encontrada pela reportagem. A assessoria de imprensa da vereadora disse desconhecer a distribuição de cestas básicas.
Denúncia
Cristina e Nogueira são nomes fictícios. Trata-se de dois jovens a serviço do ex-vereador Vicente Viscome, condenado em 1999 à prisão por envolvimento na máfia dos fiscais. Viscome cumpriu quatro anos e meio da pena de 16 anos, extinta no ano passado. Agora quer voltar à Câmara Municipal.
"Queríamos mostrar que essa vereadora troca cestas básicas por votos", explica Viscome. Segundo ele, a distribuição é feita de maneira discreta para burlar a fiscalização.
A cesta distribuída pelo comitê de Athie é da empresa Agro Comercial da Vargem Ltda. e tinha 5kg de arroz, 2kg de feijão, 800g de leite em pó, 1kg de açúcar, 900ml de óleo de soja, 500g de polpa de tomate, 500g de macarrão, 1kg de sal, duas latas de sardinha e 500g de farinha de mandioca.
No dia seguinte ao flagrante, a reportagem voltou ao comitê de Athie e questionou os funcionários. Sandra não estava. Quem atendeu foi Celso Lopes, que se identificou como assessor parlamentar de Athie. "Essas cestas são um benefício para os 12 motoristas que trabalham aqui", justificou.
Em seguida, mostrou um quarto nos fundos do imóvel onde estavam armazenadas mais oito cestas básicas.
"São poucas, o que prova que são para nossos motoristas", concluiu Lopes. Segundo Vicente Viscome, centenas de cestas são armazenadas em uma casa perto do comitê.
A Folha encontrou o imóvel fechado, mas vizinhos confirmaram a movimentação diária de funcionários da campanha de Athie. Uma moradora apontou a casa da mãe de Athie, do outro lado da rua. A assessoria de imprensa da vereadora desautorizou as declarações de Lopes e disse que o comitê tem apenas três motoristas contratados e mais três cedidos por empresários amigos.
Outro lado
A vereadora Myryam Athie, por meio de sua assessora de imprensa, disse à Folha que "desconhece a distribuição de cestas básicas em seu comitê eleitoral" e que as caixas com gêneros alimentícios encontradas no local são "benefícios para os motoristas da campanha".
"O comitê não é regional do Fome Zero do presidente Lula para distribuir cestas básicas", disse a assessora de Athie, identificada como Alba. Ela ligou apenas 10 minutos depois de a reportagem deixar o comitê eleitoral. Aos gritos, desautorizou as informações prestadas pelo funcionário Celso Lopes. "Ele não sabe de nada. Vive explicando o que não sabe", afirmou ela.
Segundo Alba, não são 12 motoristas que trabalham na campanha, mas 6: 3 funcionários contratados e 3 cedidos "por amigos da vereadora".
"Se você quiser informação tem que perguntar para mim, e não para outros funcionários. Esse golpe, a gente sabe. Eu fui jornalista, sei o que eu fazia quando queria uma informação", afirmou.
Alba se surpreendeu ao ser informada de que havia fotos de pessoas, que não funcionários de Athie, saindo do comitê com cestas básicas. "A gente obedece à lei eleitoral. Funcionário tem benefício e um dos benefícios é cesta básica", disse.
A reportagem pediu cópias dos contratos dos motoristas que comprovassem a informação, mas a assessora se negou a fornecê-las. "Isso vai estar na prestação de contas no final da campanha. Vocês são o Poder Judiciário, o Ministério Público? Eu não vou sair daqui de onde estou agora para ir aí mostrar a você", afirmou.
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