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Brasil
04/10/2008 - 10h24

Gilmar Mendes diz que texto da Constituição é muito analítico e repetitivo

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WANDERLEY PREITE SOBRINHO
colaboração para a Folha Online, em Brasília

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Gilmar Mendes, acredita que a Constituição Federal --que completa 20 anos neste domingo-- envelheceu muito rápido. Ele diz que isso ocorreu porque a Assembléia Constituinte foi imediatista. "Assuntos que eram típicos daquele período histórico acabaram tratados como se nunca fossem mudar", disse Mendes em entrevista concedida em abril deste ano.

Ele critica o texto muito repetitivo da Carta e sua permissão para a edição excessiva de MPs (medidas provisórias). Mesmo assim, ele não apóia a convocação de uma nova Assembléia Constituinte. "As emendas [constitucionais] deveriam transferir parte das atribuições da Constituição para a legislação comum e substituir os textos longos por outros mais objetivos."

Ele também acha que as MP's precisam ser limitadas. "Se houver um número estipulado por ano, o Executivo só utilizará a MP em uma situação realmente indispensável."

Leia abaixo entrevista com o presidente do STF:

Folha Online - O que foi mais importante na Constituinte de 1988?

Gilmar Mendes - Ela foi um marco na vida institucional brasileira e deveria ser objeto de estudos. Nenhuma outra Constituição conseguiu produzir um período tão longo de normalidade democrática. Nos últimos anos, passamos por quadros muito difíceis como a hiperinflação até o Plano Real, processo de impeachment, crises econômicas e escândalos de corrupção tanto neste como nos governos anteriores. Mas tudo tem sido tratado sem comprometer os Poderes e a democracia.

Folha Online - E em que medida a Constituição contribuiu para isso?

Mendes - Além das garantias individuais, a Constituição concedeu autonomia financeira e administrativa ao Judiciário, que precisa de independência para trabalhar com imparcialidade. A Carta também definiu as regras do federalismo. Esse mecanismo é o que permite que tenhamos partidos antagônicos no governo de São Paulo, o mais rico do país, e na Presidência da República. Tudo isso em conjunto fortalece a democracia.

Folha Online - Apesar dessas vantagens, a Carta sofreu muitas alterações nesses 20 anos. Isso não significa que ela está ultrapassada?

Mendes - É que houve certo defensivismo por parte dos parlamentares. Eles pensavam que era preciso assegurar todos os direitos na Constituição e não em qualquer lei. Então, assuntos que eram típicos daquele período histórico acabaram sendo tratados como se nunca fossem mudar. Eles definiram como seria o cálculo da Previdência Social, por exemplo. O problema é que em 1988 a inflação era alta e financiava o sistema previdenciário. Como utilizar esse cálculo depois que o plano Real domou a inflação? Há outros exemplos como esse por toda a Constituição, que acaba envelhecendo precocemente.

Márcia Zoet/Folha Imagem
José Richa, José Serra e Mário Covas, entre outros constituintes, durante sessão da Assembléia Constituinte, em agosto de 1988
José Richa, José Serra e Mário Covas, entre outros constituintes, durante sessão da Assembléia Constituinte, em agosto de 1988

Folha Online - Muitos juristas dizem que ela também é muito detalhista.

Mendes - Isso ocorre porque faltou um anteprojeto que servisse de roteiro à Assembléia Constituinte. Ela acabou sendo feita aos pedaços nas comissões temáticas. Isso gerou alguns problemas, como o texto, que é extremamente analítico e repetitivo.

Folha Online - Então não seria hora de uma nova Constituição?

Mendes - Não acho que seja o caso. O que as emendas deveriam fazer é transferir parte das atribuições da Constituição para a legislação comum e que elas substituíssem os textos longos por outros mais objetivos. Mas o que acontece é que a maioria das emendas é mais complexa do que a versão original. É fundamental que as reformas sejam minimalistas.

Folha Online - Outro dispositivo muito criticado na Constituição é a medida provisória.

Mendes - Quando a Assembléia Constituinte incluiu a medida provisória, ela estava tentando copiar o modelo italiano. A idéia era não resgatar o decreto-lei, que existia na ditadura militar. Mas, no nosso caso, acabamos legitimando não só a MP, mas sua reedição. A MP que criava o Plano Real, por exemplo, só foi aprovada depois de muitas reedições, já que ela precisava ter sido votada em 30 dias e isso só aconteceu meses depois. O Congresso reagiu com a emenda 32, que alargava esse período para 60 dias prorrogáveis por mais 60.

Folha Online - Mas o uso das MPs não desequilibra os Poderes na medida em que o Executivo passa a legislar?

Mendes - Em algumas ocasiões, a edição de uma MP é a única opção do governo quando o Congresso não vota um projeto importante em tempo hábil. Em situações de crise, só resta a MP. Mas o Executivo também pode trancar propositalmente as pautas no Congresso ao editar medidas provisórias. O fato é que o Congresso não funciona enquanto elas não são votadas.

Folha Online - E essas MPs estão cada vez mais freqüentes.

Mendes - A edição de um número elevado de medidas provisórias é como uma roleta russa com todas as balas no revolver: sempre haverá uma pauta para trancar. Hoje se edita uma MP para revogar outra MP. Em seguida, outra medida é editada com o mesmo teor da que tinha sido revogada dias antes. Para que o Congresso volte a trabalhar, ele terá de encontrar uma forma de votar em tempo adequado todas as MPs.

Folha Online - E como ele fará isso?

Mendes - Na verdade, eu acredito que a solução esteja em limitar o número de medidas provisórias emitidas pelo governo por meio de uma emenda constitucional. Se houver um número estipulado por ano, o Executivo só utilizará a MP em uma situação realmente indispensável. O dispositivo será bem utilizado pelo presidente e o Congresso poderá legislar.

Comentários dos leitores
Marcio Fontes (19) 06/10/2009 00h17
Marcio Fontes (19) 06/10/2009 00h17
Se o Sarney quer a mudança da Constituição no aspecto político/administrativo, certamente é para ele se aproveitar ainda mais das benécies burocráticas, ajudando seus aliados e seus familiares, a despeito do seu Estado e do povo brasileiro. Temos que ficar com uma pulga atrás da orelha, quando esse "senhor" fala. sem opinião
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Alziro Ribeiro da Silva (7) 05/10/2009 20h55
Alziro Ribeiro da Silva (7) 05/10/2009 20h55
Lendo declaração de certos politicos a gente fica com pena deles, dizer que a constituição delegou direitos a saude e não indicou fontes de recursos e zombar do povão, pagamos 40% em impostos. sem opinião
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Rui Ruz Caputi Caputi (1636) 05/10/2009 19h53
Rui Ruz Caputi Caputi (1636) 05/10/2009 19h53
Nossos políticos são habeis na arte da disuassão, em distrair o povo dos reais e inadiáveis problemas brasileiros.
O erro não está na constituição, ou não totalmente. Talvez venha a responder por 10 % da encrenca que aí está.
Por que esperou-se 21 anos da promulgação da carta para vir essa avalanche de impropérios contra nossa carta magna?
Querem tramar algo?
O povo já não é mais tão bobinho. Quando os politicos falam um pingo, o povo já tem uma frase completa.
Não, definitivamente o defeito não é da constituição,. mas sim dos que foram constituidos de poder emanado do povo.
A questão se dá com a apatia do cidadão, esse tanto faz, qualquer um, é isso o que nos penar enquanto cidadãos.
A reforma que precisa ser feita é de carater, honra e patriotismo. Gostei quando o Pelé falou em Copenhagem que dá a vida ao nosso país.
É isso que faltam mais Pelés, mais bom exemplo de honestidade, virtude e cidadania.
sem opinião
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