Agente da Abin diz que Paulo Lacerda teve acesso a grampos da Satiagraha
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
Em depoimento à CPI das Escutas Clandestinas da Câmara, o agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Marcio Seltz, disse nesta quarta-feira que Paulo Lacerda, diretor-geral afastado da agência, teve acesso ao conteúdo de parte dos grampos telefônicos realizados na Operação Satiagraha, da Polícia Federal. O agente afirmou que entregou a Lacerda, durante reunião na sede da agência, áudios captados por escutas telefônicas de parte dos investigados pela PF.
"[Os áudios] falavam a respeito da imprensa. Entreguei cópia do arquivo [a Lacerda]", confirmou Seltz à CPI.
Lacerda negou à comissão, durante depoimento prestado em agosto deste ano, ter conhecimento de que a PF realizou grampos telefônicos durante a Satiagraha. A Abin foi acusada de ser responsável pelos grampos, mas a agência nega ter realizado escutas durante a operação por não ser sua prerrogativa legal.
Pela legislação brasileira, a agência é proibida de grampear telefones ou ter acesso a informações obtidas por meio de escutas, o que teria configurado ilegalidades na Satiagraha.
Seltz disse que recebeu do delegado Protógenes Queiroz, que comandou a Satiagraha, um pen-drive com os áudios de investigados --nos quais comentavam a respeito de matérias publicadas pela imprensa sobre a Brasil Telecom no que diz respeito ao banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, investigado na operação.
O agente disse que, além de receber os dados do delegado, analisou e repassou as informações a Lacerda. Seltz teria encaminhado o pen-drive ao diretor-afastado da Abin durante reunião na agência --na qual também esteve presente o diretor-adjunto afastado da Abin, José Milton Campana.
"O delegado Protógenes me repassou alguns arquivos de áudio em que os investigados faziam referência à imprensa", disse Seltz.
O presidente da CPI das Escutas, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), disse que as afirmações do agente complicam a situação de Lacerda. Itagiba defende o indiciamento do diretor-afastado da Abin por falso testemunho à comissão. "Não tenho dúvidas de que o Paulo Lacerda foi cabalmente desmentido", afirmou o deputado.
Participação
O agente disse que foi designado para "colaborar informalmente" na Operação Satiagraha a pedido de Campana. Seltz disse que, em um primeiro momento, seu trabalho na operação era fazer triagem de e-mails de investigados --para separar os de cunho pessoal daqueles que interessavam às investigações.
"Era atribuição simples: era um rol bastante grande de e-mails, minha função era identificar o que era de conteúdo pessoal, que deveria ser descartado, daquilo que seria de interesse do trabalho. Estes deveriam ser mantidos na pasta eletrônica para posterior análise", afirmou.
Posteriormente, Seltz disse que sua função era analisar matérias publicadas para a imprensa sobre a Brasil Telecom --quando teria recebido os áudios de Protógenes. "A instrução que recebi era de analisar as notícias no sentido de identificar as que fossem favoráveis, neutras e contrárias, uma espécie de interpretação de texto, um trabalho bastante simples", disse.
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