Comício pelas "Diretas-Já" reuniu cerca de 10 mil pessoas em SP; leia trecho
da Folha Online
No dia 27 de novembro de 1983, há exatos 25 anos, cerca de 10 mil pessoas se reuniram na praça Charles Miller, na zona oeste de São Paulo, para pedir o restabelecimento das eleições diretas no Brasil.
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| Livro faz um olhar retrospectivo sobre as últimas décadas do país |
Apesar das manifestações se intensificarem nos anos seguintes, a primeira eleição direta só aconteceu em 1989. Na disputa para a Presidência entre Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor, o segundo candidato se elegeu com 35 milhões de votos.
Da campanha das Diretas-Já à eleição de Lula em 2002, passando pela morte de Tancredo, o impeachment de Collor (primeiro presidente eleito no país pelo voto direto) e o plano Real, o livro "A História do Brasil do Século 20: 1980 - 2000", da Publifolha", traz um panorama geral do desenvolvimento do país nas últimas duas décadas, no tortuoso caminho em busca da democracia. Saiba mais sobre o livro.
Leia trecho extraído do livro que narra a luta pelas diretas.
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DIRETAS-JÁ
O começo foi obscuro. No início de 1983, um jovem e desconhecido deputado do PMDB de Mato Grosso, Dante de Oliveira, apresentou uma emenda constitucional propondo eleições diretas. A idéia era tão extemporânea que mal foi noticiada. Em junho, um debate em Goiânia transformou-se num ato público espontâneo, mas também passou despercebido. A iniciativa só começaria a ganhar contorno mais definido quando, logo depois, um encontro entre Montoro, Brizola e Lula emprestou-lhe cores suprapartidárias. Ainda assim, tudo era embrionário. Em novembro, a primeira tentativa de fazer o movimento decolar - a realização de um comício diante do estádio do Pacaembu, em São Paulo - não empolgou. O discurso sectário do PT e o engajamento hesitante do governador de São Paulo quase dispersaram a população.
Essa é a pré-história das diretas-já. A história mesmo começa em 25 de janeiro de 1984. Em ato público coordenado por uma frente única e com o apoio do governador Montoro, milhares de pessoas encheram a praça da Sé, onde permaneceram 12 horas, apesar da chuva. Foi a primeira das manifestações gigantes que nos três meses seguintes agitariam o país. No palanque, políticos de todos os partidos eram aplaudidos ao lado de sindicalistas, estudantes, intelectuais, artistas. O presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, um dos mais entusiasmados defensores do
movimento, saiu da praça consagrado como o "Senhor Diretas". A dinâmica era a mesma do comício de duas semanas antes em Curitiba, que serviu de ensaio para o ato de São Paulo. Hinos, discursos contra o governo e muita camiseta amarela com os dizeres "Eu Quero Votar Pra Presidente".
A imprensa teve o seu papel. A Folha de S.Paulo, por exemplo, mais do que ter noticiado, fez intensa campanha pelas diretas. A TV Globo, que deu a entender que o comício da Sé teria sido apenas um show no aniversário de São Paulo, mais tarde se renderia à força do movimento e passaria a acompanhar os comícios por várias cidades. Estima-se que, entre janeiro e abril, 5 milhões de pessoas tenham saído às ruas exigindo eleições diretas.
Os articuladores do movimento sabiam que as chances de a emenda passar eram pequenas. Na
realidade, qualquer um que fizesse as contas chegaria à mesma conclusão. A aprovação dependia do voto de dois terços de um Congresso majoritariamente situacionista. Na Câmara, o governo tinha quase metade das cadeiras; no Senado, dois terços. Assim, as diretas dependiam do voto de pedessistas dissidentes. Havia vários, mas não em número suficiente.
Em particular, essa matemática política era levada em consideração por alguns líderes do movimento popular. Nos palanques, só havia espaço para a certeza da vitória. Nos bastidores, porém, trabalhava-se na armação para viabilizar uma candidatura de oposição numa provável eleição indireta - esse era o plano B, que não podia ser admitido publicamente. Nem todos
estavam de acordo com a estratégia alternativa. Ela certamente interessava a Tancredo Neves. Com grande prestígio na oposição e bom trânsito na situação, moderado, tido como confiável pelos militares e hábil nas costuras políticas, o político mineiro tinha o perfil ideal para ser o candidato da oposição no Colégio Eleitoral. Para Ulysses, no entanto, era tudo ou nada. Na eleição indireta, com a superioridade de Tancredo, ele nem seria candidato.
No auge da campanha das diretas, desconfiava-se do compromisso dos governadores Montoro, Brizola e Tancredo. Muitos acreditavam que eles estariam manobrando para usar a mobilização popular como moeda de troca num acordo para garantir a vitória numa eleição indireta. Para Lula, Tancredo trabalhou o tempo todo contra as diretas, no que teria contado com Fernando Henrique Cardoso, então senador por São Paulo. Ronaldo Costa Couto, secretário do Planejamento de Tancredo em Minas Gerais, que registrou a versão de Lula em seu livro sobre a história da abertura, acreditava no governador: "Ele se empenhou fundo na campanha [embora fosse] cético quanto ao sucesso da emenda. Referia-se inicialmente a ela como desejável, mas lírica. Mesmo se passasse na Câmara, dificilmente prosperaria no Senado"6.
Na véspera da votação, a sociedade voltou a ser lembrada de que, apesar da festa cívica desde o início do ano, o país ainda vivia sob a ditadura militar. O governo, que não interferira na campanha, mobilizou recursos para conter a pressão popular em Brasília. O presidente João Baptista Figueiredo deu ordens para que as caravanas que se dirigiam para a capital federal
fossem mantidas fora da cidade. Houve censura, prisões e repressão às manifestações populares.
Na Câmara, a previsão mais realista se concretizou. Em 25 de abril, a emenda das diretas não passou. Recebeu 298 votos a favor (55 deles de deputados do PDS), mas faltaram 22 para os dois terços exigidos pela Constituição. Depois de tanta expectativa, o sentimento de frustração se generalizou. A derrota, porém, não seria totalmente em vão. Os políticos não podiam ignorar o claro recado da sociedade civil. O barulho das ruas cessara, mas seus ecos ainda podiam ser ouvidos nos gabinetes onde se decidia o sucessor do último presidente do ciclo militar.
6. Ronaldo Costa Couto, História Indiscreta da Ditadura e da Abertura (Rio de Janeiro: Record, 1988), pp. 330-4.
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"Folha Explica A História do Brasil no Século 20: 1980-2000"
Autor: Oscar Pilagallo
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Publifolha.



