Governador de RR diz que haverá conflitos na Raposa/Serra do Sol após julgamento
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
O governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), disse nesta segunda-feira que haverá conflitos na reserva indígena Raposa/Serra do Sol (RR) qualquer que seja a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre a demarcação das terras na região.
Anchieta Júnior afirmou que cabe ao governo federal se responsabilizar pela segurança na reserva após a decisão do STF, que deve ser tomada nesta quarta-feira, uma vez que a área é de jurisdição nacional.
"Seja qual for o resultado, deve ter conflito porque o nível de acirramento está muito grande. O governo vai cumprir o que o STF determinar. Mas o governo estadual não tem responsabilidade sobre a área, o governo é que tem que usar sua força federal para fazer valer a decisão", afirmou.
O governador disse que poderá apenas ajudar as forças federais nos conflitos provocados em conseqüência da decisão do STF, sem interferir diretamente na área. "Caso o Estado seja solicitado, estarei preparado para ajudar. A responsabilidade pela segurança da área é do governo federal", afirmou.
Anchieta Júnior disse que os conflitos serão deflagrados entre as diversas etnias indígenas da reserva, contrárias e favoráveis à demarcação contínua. O governador minimizou a pressão de arrozeiros da região para que o STF não aprove a demarcação contínua, estabelecida pelo governo federal.
"Não há unanimidade nas comunidades indígenas. Será conflito de índio contra índio. Essa questão não é uma luta de arrozeiro contra índio. São seis empresários [arrozeiros] e cinco estão tranqüilos. Tem apenas uma figura, o prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero, que tem atrapalhado o processo", afirmou.
Segundo o governador, 80% das comunidades indígenas que vivem na reserva defendem a demarcação por "ilhas" --pela qual parte das áreas da reserva seria exclusiva de indígenas, mas outra parte ficaria sob o controle do governo federal, especialmente as estradas e redes elétricas.
Contrário à demarcação contínua da reserva, como estabelecido pelo governo federal, Anchieta Júnior disse que tem o apoio da maioria dos índios da Raposa/Serra do Sol.
"Noventa por cento da população do Estado não concorda com a demarcação em terras contínuas. Dentro da reserva, 80% das comunidades indígenas não concordam com essa demarcação. Iremos ficar com 47% do território de Roraima comprometidos com reservas indígenas se o Supremo Tribunal Federal decidir pela demarcação contínua", reagiu o governador.
Interesses
Anchieta Júnior disse acreditar que há "interesses escusos internacionais" na defesa da demarcação contínua diante das riquezas naturais encontradas na Raposa/Serra do Sol. "Quando eu falo de interesses escusos, são de vários países diante da possibilidade do Brasil se movimentar com a sua imensa biodiversidade. Não adianta transformar a Amazônia em santuário ecológico intocável. Podemos desenvolver sem prejudicar o meio ambiente."
Numa crítica ao ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), o governador disse que Minc "nunca foi a Roraima nem conhece o Estado", por isso não tem autoridade para discutir a questão. "O governo não pode tratar a Amazônia como um bioma só."
O governador ainda rebateu críticas de militares favoráveis à demarcação descontínua com o argumento de que as fronteiras ficarão em risco caso as áreas não fiquem sob domínio dos índios.
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