Opinião: José Celso Martinez Corrêa comenta o AI-5
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA
especial para a Folha
Há 40 anos, o Oficina estreava "Galileu Galilei", de Brecht. Nos preparávamos para entrar em cena, quando ouvimos no rádio a proclamação do AI-5. Não foi surpresa para nós, depois que vimos o elenco de "Roda Viva" ser ferido pelo Exército. Eles acabaram entrando como coro na nossa peça, contracenando com os protagonistas do Oficina.
Só que os policiais proibiram o coro de ser coro, de tocar ou mesmo olhar para o público. Estreamos todos com figurinos na cor cinza, de prisioneiros, atrás das grades. O espaço cênico era uma prisão que se expandia pela platéia. O ato visava castrar a revolução cultural que explodia no Brasil, em 1967, no mundo, em 1968.
Durante muitos anos, esta data foi carregada pra mim. Mas nossa encenação de "Os Sertões" nos deu a dádiva de lembrar que 13 de dezembro é dia de Santa Luzia, a que joga os olhos no prato para olhar além do que esperamos no ano que se aproxima. Para Santa Luzia, fazemos pedidos e consultas para saber se teremos seca ou não no ano que vem.
Neste ano, nossa "bruxaria" é filmar com a presença do público o DVD de "Os Bandidos", peça de Schiller. Vamos, atores e público, agradecer todas as benesses que a democracía traz para o Brasil. Deitados na pista do Oficina, ao som da "Ode à Alegria", de Beethoven, vamos cantar: "Tudo que tem que sumir, pra Liberdade imperar, desapareça! Adoremos! Vamos pra alegria, soltar a cabeça pro chão. Que não sobreviva o maior vestígio herdado do AI-5, a tortura. Seja ela considerada crime inafiançável. O corpo humano é pra ser amado".
Neste ano, o Oficina Uzyna Uzona completou 50 voltas de atuação em torno do Sol, neste lugar sagrado, terreiro dos deuses do Teat(r)o. Que ainda possamos agradecer ao Governo do Estado por nos libertar do Beco sem Saída desta pista onde Lina Bo Bardi riscou uma rua de passagem dando para o Anhangabáu através da rua Japurá. Que o Patrimônio faça valer os 300 m de nosso entorno neste momento de demolições anunciando mais um $hopping que nos sufocará.
Que ainda neste ano de nossas bodas de ouro, os poderes públicos e privados levem em conta o valor da longevidade do Oficina. Muitos saudaram esta façanha, como Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc, e Milú Villela, do Itaú Cultural (Milú, aliás, quer que todos nós, que trabalhamos com a cultura no Brasil, criemos um grande movimento para que não haja cortes nas verbas de cultura sob o pretexto da crise).
Quero poder agradecer a intervenção de todos os poderes, neste instante em que todo o quarteirão que cerca o Oficina (que teve seu entorno tombado pelo Condephat, em 1983) está sendo demolido pelo grupo Silvio Santos para construção de um shopping ou um prédio de apartamento, já nem sei.
Esta possibilidade simplesmente destrói uma das obras-primas de Lina Bardi, seu canto do cisne, premiado pela Bienal de Praga, menção honrosa em Veneza. Nesta arquitetura urbana revolucionária, nunca pisaram o governador José Serra e o secretário estadual da Cultura, João Sayad, portanto não sabem o que estão destruindo, quando lavam as mãos diante das demolições no nosso entorno.
O projeto original de Lina tem o poder de revitalizar o destino histórico do Velho Bixiga como umbigo, ponto de encontro de São Paulo, hoje toda separada em guetos pobres e ricos, sem um ponto de encontro de todos, como é a Lapa, no Rio, ou o Pelourinho, na Bahia.
Em plena crise, em que o governo Lula luta para transmutar a especulação financeira em investimento na economia real, no nosso espaço sentimos esta possibilidade exemplar de transmutação, ao mesmo tempo que há a mesma ameaça do AI-5, de 1968. Em plena "perestroika" do capitalismo, a especulação imobiliária selvagem nos ameaça como um golpe militar, equipara-se à ditadura
Gostaríamos, aliás, que os militares e os policiais também frequentassem nosso teatro. É mais que tempo de a sociedade civil irmanar-se à militar, a exemplo da brilhante atuação do Exército na recente catástrofe de Santa Catarina.
Santa Luzia nos dê olhos pra encontrarmos os caminhos de saída da crise que não nos leve a uma Terceira Guerra Mundial.
Aqui nestes 400 metros quadrados de mundo, como em qualquer lugar do globo, vivemos este impasse, este ponto de mutação. A Exu pedimos que abra literalmente nossos caminhos!
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA é diretor do teatro Oficina.



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Criam fatos para tirar a atenção de outros mais importantes no momento.
Se vamos desenterrar defundos e punir os culpados, acho que deveriamos fazer na totalidade.
Quem se posicionol contra o regime militar, querendo implantar a ditadura deles (hoje conseguiram), também deveriam ser julgados e punidos.
Assassinatos em nome da causa (por isso defendem o batisti), roubos, sequestros, etc, também tem que ser punido.
Ou esquecemos tudo e vamos cuidar de punir os corruptos que pululam as pencas ou vamos julgar e punir os dois lados da refrega.
O Jair Bolsonaro é que tem razão.
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