Brasil
14/12/2008 - 14h36

Cassete com registro da reunião que editou o AI-5 está envolvida em sumiços e morte

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CHICO FELITTI
colaboração para a Folha de S.Paulo

Uma maldição acompanha a fita em que está gravado o áudio da reunião do CSN (Conselho de Segurança Nacional) da sexta-feira 13 de dezembro de 1968. Ao menos é o que acreditam algumas pessoas que tiveram nas mãos o documento --e que passaram por acontecimentos inexplicáveis.

Há muito de estranho na biografia da fita. A começar por sua existência: até a metade da década de 80, não se sabia se a gravação da reunião estava escondida ou fora destruída. A única certeza é que ela existia, já que todos os CSN eram documentados.

A resposta só veio quando o ex-secretário da Casa Civil Heitor Aquino Ferreira encontrou a fita em caixas de arquivo morto que ficavam na garagem da casa do ex-chefe da Casa Civil Golbery do Couto e Silva, em Luziânia (DF).

Mas ela não estava em seu estado original: era um cassete. Não se sabe quando o áudio, originalmente gravado numa fita de rolo, foi transferido para uma fita cassete, nem quem fez o trabalho e muito menos o que foi feito do original.

Como as caixas estavam ameaçadas por mofo, Ferreira decidiu entregar o material para alguém que zelasse por seu conteúdo e fosse preservar os documentos e fitas. Entre 1982 e 1987, entregou cerca de 50 caixas para o jornalista e colunista da Folha Elio Gaspari, que usou o material para escrever sua série de livros sobre a ditadura, composta por quatro livros que perscrutam o período.

Tumulto

Em 1988, Zuenir Ventura tinha finalizado o livro "1968 - O Ano Que Não Terminou" quando recebeu de Gaspari trechos inéditos da reunião. Completou a obra sem sofrer nada ou ficar mal na fita. Para Ventura, a urucubaca do cassete está só no seu conteúdo.

Próximo a ter contato com a fita, o jornalista Augusto Nunes ganhou uma cópia em 1997 para fazer um documentário. Após terminar o uso, Nunes a emprestou para Paulo Markun, jornalista e diretor-presidente da Fundação Padre Anchieta. Quando Nunes a recebeu de volta, dois anos depois, se deu conta de que a segunda metade da reunião tinha sido substituída por outro CSN, anterior ao de 13 de dezembro de 1968. Ninguém sabia explicar como as vozes fora de época foram parar lá. "É um tumulto mexer com esse negócio", declara.

O quarto acontecimento misterioso ocorreu em 1998, quando a revista "Época" escalou o repórter Fábio Altman para fazer uma matéria sobre os 30 anos do ato. Com sua cópia da fita na mão, Altman foi atrás de Alberto Curi, o locutor responsável por anunciar o ato à nação no programa "A Voz do Brasil". Curi voltou ao Palácio Laranjeiras, fez fotos para a matéria e retomou o assunto --de que não falava desde dezembro de 1968. Morreu de infarto dez dias depois.

Altman também foi a vítima do quinto episódio inexplicável ligado à fita: sumiu o áudio que a revista disponibilizou em seu site. O link com os trechos do encontro, que podiam ser ouvidos na rede, desapareceu e nunca mais foi encontrado.

Rompimento

Durante dez anos, a maldição ficou adormecida. Em 2007, porém, Elio Gaspari decidiu ouvir o áudio, que pensava estar em CDs, para os quais tinha transferido seu acervo de fitas da ditadura. Descobriu que justamente os dois CDs que deveriam conter o áudio do AI-5 estavam vazios.

Com medo de apagar um pedaço da história mexendo na fita original, ligou para Altman e Nunes e foi informado de que o primeiro perdera o áudio e o segundo tinha tido o seu alterado. Recorreu ao cineasta João Moreira Salles, filho de Walther Moreira Salles, fundador do IMS (Instituto Moreira Salles), que faz recuperação de áudios raros. João enviou três técnicos de restauração do IMS para se certificarem de que a gravação ainda existia. Assim que chegaram, os profissionais puseram a fita para tocar e... lá estava o áudio.

Durante a digitalização do áudio, para qual se usou um gravador de baixa rotação, o magnético da fita se rompeu duas vezes, e teve de ser reparado. Depois de passada para o computador, outro susto: os especialistas não conseguiam encontrar o arquivo dentro do laptop. Minutos depois, descobriram que procuravam pelo nome errado. "Foi tenso!", conta o historiador Marcelo Nastari, um dos técnicos e atual 'guardião' da fita.

Gaspari achou por bem deixar a fita original na posse do IMS. Atualmente, o cassete branco fica na sede da entidade, na avenida Paulista, no armário de uma sala climatizada, com temperatura constante de 21º C. Ocupa o móvel quase que sozinha, compartilhando espaço apenas com um disco raro do jazzista Duke Ellington. Um dos funcionários que trabalha no lugar, e não quis ser identificado, disse se sentir desconfortável com a energia que diz que a fita emana.

A íntegra do áudio da reunião de 13 de dezembro de 1968 está na internet, sem maldição, no site especial da Folha sobre os 40 anos do AI-5.

Comentários dos leitores
Alcides Emanuelli (1136) 11/05/2009 23h05
Alcides Emanuelli (1136) 11/05/2009 23h05
Será que tudo isso não poderia fazer parte da nossa história tão controvertida.
Os problemas agora são outros e bem piores se não houve revolução armada na época do golpe militar, em 1964, hoje existe uma revolução social no seio da sociedade brasileira que mata por ano mais de 46.000 mil pessoas de homicidios.
Se foi errado o golpe no estado pelos militares, tabme erros do outro lado do Rio algumas arruaças armadas que ceifaram vidas de inocentes, os dois lados queriam o Poder para do Poder tirarem todo o lucro possivel para seus grupos.
Os erros dos militares continua até hoje e ninguem faz nada com as aposentadoias vitalicias para as filhas de militares e de alguns malandros.
E os outros estão no Poder e no Poder cedido para eles pelos militares sempre através de conchavos com lucros astronomicos para os dois lados, eles tem o Poder e todo o lucro possivel que conseguem com o Poder.
Mas continuando ontem havia uma ditadura militar, hoje temos uma ditadura dos militares em conjunto com a turma do outro lado do Rio, dos Intelectuais, dos Artistas, dos sindicalistas do Professores que não sabem ensinar e sim inchar o sistema com seu empreguismo.
Esse é o novo modelo de Brasil Patria Amada, onde um Presidente NeoCaudilhesco se denomina Rei dos miseraveis, sendo ele um pertencente de castas nobres com muito dinheiro no bolso para gastar.
Agora saber porque sempre se busca fatos passados e através da burocracia, tirar muito dinheiro do povo, procurando e julgando o passado.
sem opinião
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João Carlos Gagliardi (1239) 11/05/2009 22h12
João Carlos Gagliardi (1239) 11/05/2009 22h12
Governo anuncia abertura de parte dos arquivos sigilosos da ditadura...
Interessante como insistem com o errôneo termo "ditadura".
O que havia no Brasil na época, era uma guerra não declarada.
Os mesmos que criaram uma "Cortina de Ferro"no leste europeu, tentavam agora com a ajuda dos guerrilheiros tupiniquins, inspirados pelo assassino da ilha do Caribe, fazer a mesma coisa no Brasil.
Se o "outro lado", tivesse ganho a luta, hoje contabilizaríamos muitos milhares de mortos, que sempre foi a marca registrada da implantação de regimes comunistas totalitários.
Aquela "ditadura" não foi nada, se comparada ao que nos reservaria a outra opção.
Se hoje reclamam do que aconteceu naqueles dias, foi graças a patriotas que deram suas vidas para garantir a democracia que persiste, a despeito de novas gerações de parasitas, que tentam recriar aquela época.
Não percam tempo em tentar aquilo de novo, seriam derrotados novamente.
Aqui não é a Venezuela...
2 opiniões
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Rui Ruz Caputi Caputi (1245) 11/05/2009 21h48
Rui Ruz Caputi Caputi (1245) 11/05/2009 21h48
Tenho 51 anos, vivi em parte o periodo do regime militar. Agora começo a ter grandes dúvidas sobre o que seria menos pior para o povo. Pergunto cá com os meus botões. Quem se lixaria menos para o povo? Os generais de outrora ou nossos atuais políticos? Lembro-me claramente do Gal. Figueiredo, desafiando os terroristas soltadores de bombas a jogarem as bombas nele e não no povo. Será que nossos politicos atuais teriam o mesmo destermor do Figueiredo?
São fatos historicos incontestáveis, todos cinquentões se recordam com certeza.
sem opinião
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