Publicidade

Publicidade
Brasil
08/07/2003 - 05h53

Vida no mundo piora na década de 90

ROBERTO DIAS
da Folha de S.Paulo, em Nova York

Os anos 90 significaram retrocesso sem precedentes no desenvolvimento humano do planeta, aponta o relatório anual da ONU sobre o assunto, divulgado hoje.

"O que mais chama a atenção é a extensão da estagnação e dos reveses, que não haviam sido vistos nas décadas anteriores", diz o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

O órgão aproveitou o relatório deste ano, que utiliza dados de 2000/2001, para avaliar o caminho transcorrido na primeira década desde 1990, ano-base para as Metas de Desenvolvimento do Milênio --conjunto de objetivos em indicadores humanos que o mundo deveria atingir em 2015 (ou 2020, a depender do caso).

Embora aponte melhoras importantes em algumas regiões, o relatório deixa claro que os retrocessos nos países em desenvolvimento foram mais significativos.

O problema aparece no próprio balanço da década do IDH --índice de desenvolvimento humano, número calculado pela ONU a partir de indicadores de educação, saúde e renda.

Nos anos 80, apenas 4 países haviam tido diminuição em seu índice. Na década seguinte, foram 21. "Isso era raro até os anos 80, porque as realidades medidas pelo IDH não são facilmente perdidas", afirma o texto.

Completa o cenário o fato de que em 54 países a renda per capita está mais baixa que em 1990, 20 deles na África subsaariana. Além disso, em 34 nações a expectativa de vida diminuiu, em 21 há mais gente passando fome, e em 14 mais crianças morrem antes dos cinco anos. "Para muitos países, os anos 90 foram uma década de desespero", diz o Pnud.

Assim, após rápida melhora nos anos 70, a evolução global do IDH se desacelerou nos anos 90. Como consequência, a ONU vê sérias dificuldades em alcançar as Metas do Milênio. "A despeito dos compromissos de reduzir a pobreza e avançar em outras áreas do desenvolvimento humano, o mundo, na prática, já está atrasado", escreve Mark Malloch Brown, administrador do Pnud.

O relatório sinaliza que a "crise de desenvolvimento", como define, foi causada pelo baixo crescimento econômico e pela epidemia de Aids, sobretudo na África. Além disso, aponta que diminuiu a ajuda enviada pelos países ricos.

"Nunca ou raramente a pobreza é reduzida numa economia estagnada, e as regiões que mais crescem são aquelas que mais reduzem a pobreza. Isso significa uma mensagem clara: crescimento econômico é essencial para reduzir a pobreza", diz o texto.

O relatório faz estimativas sobre qual seria o crescimento necessário. Usa a seguinte conta: para diminuir o número de pessoas pobres pela metade é preciso crescimento da renda per capita de 41%. Isso significa que, para atingir tal meta até 2015 (no caso de um país que tenha ficado estagnado nos anos 90 em relação à meta), é necessário aumento anual do PIB de 2,9%.

Mas, se é condição necessária, o crescimento em si não é suficiente, alerta a ONU, apontando três exemplos de países que viram a pobreza aumentar nos anos 90 ao lado do avanço do PIB: Indonésia, Polônia e Sri Lanka.

O texto ressalta ainda que os países ricos precisam aumentar sua ajuda às nações subdesenvolvidas. "A ajuda diminuiu nos anos 90 e está muito aquém da que é necessária." A média de auxílio de países desenvolvidos está em 0,22% do seu PIB, distante da meta de 0,7%. A carência imediata, diz a ONU, é de US$ 50 bilhões.

Além disso, o Pnud prega que os países subdesenvolvidos tenham mais acesso aos mercados do norte. "As políticas comerciais dos países ricos continuam a ser altamente discriminatórias em relação às exportações dos países em desenvolvimento", diz o texto.

Se é pessimista em sua conclusão, o texto traz avaliação mista para América Latina. Aponta que os índices de desenvolvimento humano da região se aproximam dos de países ricos. Mas o crescimento econômico e a redução da pobreza ocorrem em ritmo lento.
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca