Acusado de mandar matar Dorothy Stang é solto e diz que prisão foi um pesadelo
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
da Agência Folha, em Belém
O fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de mandar matar a missionária Dorothy Stang, afirmou nesta quinta-feira que sua volta à prisão, há duas semanas, foi um "pesadelo", e que continua "acreditando na Justiça do Brasil".
A declaração foi feita menos de duas horas após ser solto, devido a uma decisão liminar do STJ (Superior Tribunal de Justiça). Bida deve continuar em liberdade até que o tribunal julgue o mérito de um habeas corpus pedido por sua defesa.
No início deste mês, havia voltado à prisão, depois que o Tribunal de Justiça do Pará anulou o júri de maio do ano passado, quando foi absolvido.
"[Foi] um pesadelo. A sociedade acatou a absolvição, ninguém esperava que a gente voltasse para a prisão. Ninguém estava fazendo nada de errado", afirmou à Folha. "O importante é que estamos aí, com vida e saúde, graças a Deus. Continuo acreditando na Justiça do Brasil. E na justiça de Deus."
O fazendeiro criticou o fato de a Secretaria da Segurança Pública do Pará só tê-lo soltado após transferi-lo, hoje mesmo, de Altamira (PA), onde estava preso, para uma prisão na zona metropolitana de Belém.
"Agora, o que eu não gostei foi dessa transferência imediata, de lá para cá, sem precisão", afirmou. Para seu advogado, Eduardo Imbiriba, o que houve foi uma tentativa de "humilhar" seu cliente. Mesmo com a secretaria já sabendo da decisão do STJ, ele foi algemado e teve que ser de novo encarcerado antes de sair.
Segundo a pasta, a transferência já estava programada e foi cumprida porque o alvará de soltura, até o início do dia, não chegou à penitenciária. A Secretaria afirmou que apenas cumpriu uma ordem da Justiça e que não houve intenção de humilhá-lo.
Bida negou que, durante o tempo em que esteve livre, tenha pressionado pequenos proprietários rurais de Anapu (PA), onde Stang, norte-americana naturalizada brasileira, foi morta com seis tiros, em 2005. A suspeita foi levantada pela CPT (Comissão Pastoral da Terra) e pelo Ministério Público Federal.
"Quem não deve não teme. Se eu devesse alguma coisa, não tinha voltado para o mesmo lugar. Fui continuar minha vida de novo", disse. "A sociedade de Altamira e de Anapu me recebeu de braços abertos. Não tem ninguém contra mim lá." Imbiriba afirmou que a CPT "nunca mostra provas".
Questionado se, em seu ano de liberdade, voltou a falar com o outro acusado de ser mandante do crime --Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, que ainda não foi julgado--, Bida afirmou: "Toda vida a gente teve contato. Somos amigos".
O fazendeiro deveria retornar para Altamira às 4h de amanhã. Seu novo júri ainda não foi marcado. Na verdade, a decisão do TJ que anulou o julgamento do ano passado nem sequer foi publicada no "Diário Oficial".
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