Para jornalista, "Sarney tentava fazer o que se imaginava que Tancredo faria"; leia trecho de livro
da Folha Online
O nome do atual presidente do senado, José Sarney (PMDB-AP), volta a ficar em evidência após uma série de denúncias de irregularidades no Senado. Político desde os anos 50, Sarney foi presidente do Brasil entre 1985 e 1989, governador do Maranhão, entre 1966 e 1971, e senador pelo mesmo Estado e pelo Amapá, além de ter sido por diversas vezes deputado.
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| Livro faz um olhar retrospectivo sobre as últimas décadas do país |
Também veterano na presidência do senado federal, Sarney presidiu a casa de 1995 a 1997, de 2003 a 2005, e mantém o cargo atual desde fevereiro deste ano.
Da campanha das diretas, passando pela morte de Tancredo e pela posse de José Sarney, o livro "A História do Brasil no Século 20: 1980-2000" (Publifolha, 2006), assinado por Oscar Pilagallo, faz um apanhado dos maiores acontecimentos de duas décadas no Brasil.
A obra da série "Folha Explica" oferece um panorama geral do desenvolvimento do país nas últimas duas décadas, no tortuoso caminho em busca da democracia, passando pelas dificuldades econômicas do governo Sarney até chegar ao impeachment de Collor (primeiro presidente eleito no país pelo voto direto), o plano Real e a eleição de Lula a presidência do Brasil, em 2002.
Oscar Pilagallo é jornalista, editor da série "Cadernos EntreLivros", colaborador da Folha e "Valor Econômico", e autor de "A história do Brasil no Século 20", "O Brasil em Sobressalto" e "A Aventura do Dinheiro".
Leia um trecho do livro "A História do Brasil no Século 20: 1980-2000" sobre a trajetória política de José Sarney.
Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".
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A comoção nacional pela morte de Tancredo tornava mais difícil a tarefa de Sarney. Ele não estava preparado para ser presidente, muito menos para substituir alguém tido como insubstituível. Quem era Sarney? Político conservador do Maranhão, José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, conhecido como Zé do Sarney, o nome de seu pai, fizera carreira na antiga União Democrática Nacional (UDN).
Ingressou na Arena em 1966 e, durante todo o regime militar, foi governista. Seu papel na Aliança Democrática estava longe de ser o de protagonista. Representava a dissidência governista, minoritária. Na posição de vice, ficaria na sombra do poder. Até a doença de Tancredo, essa era sua expectativa.
Sem opção, Sarney tentava fazer o que se imaginava que Tancredo faria. Para começar, manteve o ministério do presidente eleito. Naturalmente, o perfil do governo refletia a composição da aliança, predominantemente do PMDB, um ambiente em que ele, com seu passado de colaborador do regime militar, não podia se sentir muito à vontade. Além disso, a pasta mais importante, a da Fazenda, era uma escolha pessoal de Tancredo, e Sarney confirmou o convite a Francisco Dornelles, seu sobrinho. Mas não se tratava apenas de nomes.
Sem legitimidade, Sarney se via obrigado a cumprir logo promessas de Tancredo que o próprio provavelmente teria deixado para mais tarde, como a Constituinte. De certa maneira, as circunstâncias adversas o obrigavam a ser mais tancredista do que Tancredo. Anos após o mandato, em entrevista, Sarney diria que Tancredo poderia ter deixado muita coisa para depois, pois tinha força. "Eu não tenho, tenho que cumprir os compromissos imediatamente", afirmou.
A todas essas dificuldades políticas se somava uma outra, de natureza econômica, que precisaria ser enfrentada com prioridade: a inflação herdada de Figueiredo, que projetava uma taxa anual de mais de 300%.
O CRUZADO
A primeira decisão de Sarney foi reduzir despesas. Aliás, não foi exatamente uma decisão dele. Ainda na interinidade, enquanto Tancredo estava no hospital, Sarney reuniu o ministério e leu um discurso escrito pelo presidente eleito com esta frase-chave: "É proibido gastar". Dornelles anunciou um corte de 10% nos gastos públicos, além de um pacote com outras medidas de caráter recessivo; assim, a autodenominada Nova República nascia com um traço em comum com o regime militar: a preferência pela terapia ortodoxa no combate à alta dos preços.
A terapia ortodoxa, conservadora, está baseada na premissa de que a inflação tem como causa principal o déficit público. Em outras palavras, seria provocada pelo fato de o governo gastar mais do que consegue arrecadar e, para tapar o buraco, ser obrigado a emitir mais moeda, desvalorizando-a e gerando mais inflação. Se esse é o diagnóstico, a receita só pode ser conter o investimento e restringir o endividamento e a emissão de dinheiro. No início do governo militar, em 1964, essa restrição monetária e fiscal deu certo.
A inflação caiu de 100% ao ano, na época do golpe, para cerca de 35% dois anos mais tarde. Houve um elevado custo social, medido em alta do desemprego e redução do poder aquisitivo dos salários, mas num regime autoritário a imposição de medidas impopulares é mais simples.
No início de um governo civil longamente aguardado, a opção recessiva era mais complicada. Em primeiro lugar, Sarney, presidente fraco, não tinha cacife político para pedir sacrifícios à sociedade. Em segundo, o combate gradualista à inflação gerou, durante 1985, resultados que não recomendavam insistir na política.
Sarney, portanto, estava mais do que disposto a considerar alternativas e elas não estavam em falta. Em agosto de 1984, no mesmo mês em que era selada a Aliança Democrática, um desconhecido professor de economia da PUC do Rio de Janeiro.
A História do Brasil no Século 20 (1980-2000) escreveu um artigo numa publicação especializada.Poucos notaram, mas nascia aí o embrião de uma das maiores aventuras da história recente do Brasil. O autor, Chico Lopes, defendia um choque heterodoxo para derrubar a inflação. Era uma ideia diferente à procura de um governo para encampá-la. Não demoraria para que o técnico criativo e o político ousado se encontrassem, e surgisse daí o Plano Cruzado.
A tese de Chico Lopes era que a origem da inflação seria não o déficit público, mas o fator inercial da alta dos preços. Ou seja, num quadro de inflação crônica como no Brasil dos anos 80, os preços subiriam no dia seguinte simplesmente porque tinham subido na véspera. Se essa era a causa, então o combate ao déficit público, isoladamente, seria um sacrifício em vão. Lopes propugnava, em vez de medidas recessivas, um choque que apagasse a memória da inflação passada. Como fazer isso? Simples: congelando os preços.
A memória inflacionária não existia apenas na cabeça da população. Ela tinha vida própria, alimentada pela indexação generalizada da economia. Assim, cada aumento de preço era incorporado de forma permanente e retransmitido em cadeia. Numa economia não indexada, o preço de um produto pode subir e baixar sem afetar os outros. Numa economia
indexada, porém, a alta de um preço, uma vez captada num índice, realinha todos os outros. Se chuchu em falta fica mais caro, até a geladeira em que ele estará ausente fica mais cara. A tese da inflação inercial já era aceita em círculos acadêmicos de oposição quando Chico Lopes publicou. O artigo foi publicado na revista Economia em Perspectiva Carta de Conjuntura, do Conselho Regional de Economia de São Paulo.
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"Folha Explica A História do Brasil no Século 20: 1980-2000"
Autor: Oscar Pilagallo
Editora: Publifolha
Páginas: 112
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha


