Ombudsman critica falta de continuidade na cobertura jornalística
da Folha Online
O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, criticou a falta de continuidade da cobertura de determinados assuntos. Ele colocou a falta de continuidade como um dos problemas que mais o aborrecem na cobertura jornalística.
Silva participou hoje da sabatina da Folha. Primeiro veículo de imprensa a ter um ombudsman no país, a sabatina com Silva acontece quando no mês em que a Folha celebra 20 anos da criação desse cargo no jornal.
Lins da Silva respondeu a perguntas da plateia e de quatro entrevistadores: o colunista da Folha Marcelo Coelho, as jornalistas Eleonora Gosman, correspondente do jornal argentino "Clarín", e Verónica Goyzueta, correspondente do espanhol "ABC", e Eugênio Bucci, professor da ECA-USP e colaborador de "O Estado de S. Paulo".
Na sabatina, ele falou por mais de duas horas sobre o trabalho que desenvolve há 18 meses no jornal. Ele contou como faz as críticas diárias, sua relação com os leitores e com os jornalistas, listou problemas e deu sua opinião sobre o futuro do jornal impresso.
Críticas
Ele criticou a priorização do jornalismo reativo em detrimento do preventivo. Silva disse que os erros acontecem por três fatores: pressa, preguiça e ignorância dos jornalistas.
O ombudsman também criticou a cobertura do Poder Legislativo. "O trabalho sério que afeta a vida de todos nós [...]. O leitor só sabe depois da aprovação do projeto. Isso é uma coisa que me irrita demais", disse.
Mais tarde, o ombudsman disse que é importante que o noticiário acompanhe todo o processo no Legislativo para que o leitor possa se manter informado e cobrar os parlamentares.
Silva defendeu o fato de a Folha ser apartidária e, assim, ter liberdade para fazer críticas ao governo, independentemente de quem esteja no poder. "O jornal tem que ser contra governo mesmo", afirmou.
Questionado sobre a cobertura política do jornal, o ombudsman disse que essa questão só poderia ser esclarecida por um trabalho de pesquisa. Mas disse acreditar que a cobertura do jornal no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na Folha foi tão dura quanto é na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo ele, muitos leitores acreditam que a Folha foi mais condescendente com FHC do que com Lula. Porém, como não há dados científicos, sua avaliação é apenas pela "aparência".
Questionado sobre as críticas que recebe de leitores e das fontes, Silva disse que elas não são importantes quando representam posicionamentos político-partidários. "Mas quando o jornal comete erros graves, aí sim a credibilidade se fere. O jornal tem errado muito e eu acho que alguns desses erros bate na credibilidade", afirmou.
O ombudsman também considerou um erro o fato de a Folha ter noticiado como manchete a morte do do astro pop Micheal Jackson. "A morte dele não é para manchete da Folha é manchete para [revista] Contigo."
Off
Ele defendeu o uso de informações em off (sem divulgar a fonte da informação). Segundo ele, esse tipo de informação é essencial para o jornalismo.
O ombudsman alertou que o jornalista também deve comprovar com outras fontes a informação obtida em off. Para Silva, o jornalista que se torna fiador da fonte está cometendo um grave erro e corre o risco de publicar notícias falsas.
Internet
O ombudsman criticou a forma como as notícias são publicadas na internet. Segundo ele, o problema não está no meio de comunicação mas na pressa da publicação de informações que não foram devidamente checadas.
"Não vejo problema nos meios [eletrônicos], mas na maneira como as coisas são feitas. O problema é o açodamento da publicação de informação não verificadas e na internet a dimensão é maior", disse.
Jornal impresso
O ombudsman disse que o jornal impresso "sobreviverá" à internet, apesar do crescimento do meio eletrônico como fonte de informação. "[O jornal sobreviverá.] Não tenho dúvida que sim, assim como o rádio e TV sobreviveram", afirmou.
Silva ressaltou que os meios de comunicação devem encontrar seus nichos de mercado e deu como exemplo o papel do rádio.
Segundo ele, o rádio não tem mais a audiência que tinha no passado, mas presta um importante serviço aos motoristas ao informar sobre o trânsito. "Os meios de comunicação mudam de papel e de nicho de mercado. O jornal impresso também vai encontrar o seu nicho", disse.
Ao responder perguntas da plateia, o ombudsman ficou contra a obrigatoriedade do diploma de jornalista.
Silva encerrou a sabatina citando o jornalista Alberto Dines, que defende que o ombudsman não é um juiz cobrador, mas um profissional que cobra no conhecimento que possui e passa a cobrança para dois juízes que vão decidir: o leitor e o jornal. "Ambos fazem o que querem com base nas críticas do ombudsman", afirmou.
Relação com jornal
Silva disse que sua relação com os profissionais do jornal é muito boa, principalmente porque não fica na redação. "Nos últimos meses, [a relação] não tem sido muito tensa", afirmou.
"Da parte das fontes, também recebo reclamações, mas não posso me queixar de ter sido coagido. Às vezes, devido à personalidade da pessoa, uma fonte faz uma cobrança mais ríspida. Não tenho reclamação nem da redação nem com as fontes", afirmou.
Apesar da boa relação, o ombudsman disse que o jornal, na maioria das vezes, não atende às suas sugestões. Algumas propostas são acatadas, mas disse que não sabe se foi porque sugeriu ou porque elas já estavam programadas.
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Isso ocorre por vários motivos, mas o principal está no fato de que estas empresas não são administradas por pessoas que entendem do assunto, não são nem de perto especialistas em comunicação, não entendem as particulariedades deste ramo, e para tanto a administram como uma empresa qualquer.
A imprensa escrita brasileira continua tentando concorrer com a internet, e na frase "sobreviver à internet" isso ficou bem claro.
O diploma no jornalismo se mostra necessário nesses casos, mais do que alguém que escreve a matéria para um jornal, o jornalista diplomado, é a pessoa que entende o processo, entende o sistema e como ele se comporta.
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