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18/11/2009 - 16h31

Cesare Battisti reforça em livro sua versão de que é inocente; leia trecho

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da Folha Online

Eraldo Peres/AP
Cesare Battisti vai lançar a segunda obra autobiográfica de uma trilogia
O STF autorizou a extradição do ex-ativista de extrema esquerda Cesare Battisti para a Itália

O STF (Supremo Tribunal Federal) autorizou nesta quarta-feira a extradição do ex-ativista de esquerda Cesare Battisti para a Itália, por 5 votos a 4. O ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, foi o último a votar e defendeu a entrega do ex-ativista ao governo italiano.

A maioria dos ministros da Suprema Corte entendeu que os quatro assassinatos atribuídos a Battisti pela Itália são hediondos e não políticos, o que não justificaria a concessão de refúgio.

O italiano foi julgado à revelia em 1993 na Itália e condenado à prisão perpétua como autor dos assassinatos de Antonio Santoro, Lino Sabbadin, Andrea Campagna e Pierluigi Torregiani.

"Minha Fuga sem Fim" é o primeiro livro da trilogia autobiográfica do ex-ativista, que conta parte de sua trajetória política e sua vida na clandestinidade. Ele relata o intenso período em que ocorreram alguns dos crimes de que foi acusado e reforça sua versão de que é inocente. Veja no trecho a seguir:

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Divulgação
"Minha Fuga Sem Fim" narra o que aconteceu com o ex-ativista na Itália
"Minha Fuga Sem Fim" narra o que aconteceu com o ex-ativista na Itália

O silêncio das sombras

A fuga é um excesso de liberdade que a gente não sabe como usar. É andar pé ante pé pelas ruas atulhadas ou respirar devagar em meio à natureza, de medo de acordar os insetos. A fuga é o tempo que passa sem tocar no fugitivo, que vê tudo e não põe a mão em nada. O fugitivo então fala sozinho para escutar o som da própria voz, vai fazer compras sem precisar. Só para fazer fila como todo o mundo e poder dizer à moça do caixa: bom dia, quanto é, obrigado, até logo. Não tendo nenhum santo a quem telefonar, o fugitivo cultiva sem trégua o amor pelo medo.

Assim é que, através da vidraça embaçada da minha janela, eu via passar as semanas e os meses, sem nunca conseguir apanhar nem um instante sequer, arrancá-lo ao tempo da fuga e dele me apropriar. Até a noite em que a sombra que eu era, assustada com os batimentos de um coração, desperta e descobre que tem um corpo, apalpa a sua consistência dolorosa e densa.

Densa do peso dos sentimentos que eu tinha deixado em Paris.

No dia seguinte, fui comprar um caderno e uma caneta. Escrever para não me perder na névoa dos dias intermináveis, a cabeça enfiada no travesseiro, repito para mim mesmo que não é verdade. Que não sou eu esse homem que a mídia transformou em monstro e condenou ao silêncio das sombras. Que só pode se tratar de um personagem de romance, um desses obstinados que ficam tentando se impor e destruir a história que se está escrevendo. Personagens que arrastam o autor para longe dos seus propósitos, que adquirem vida autônoma, que querem se apropriar da história. Tantas vezes corri atrás deles ao longo dos meus livros que não posso deixar de reconhecê-los. E sei que não é nada fácil alcançá-los. Refaço, então, o caminho inverso, volto para Paris, e conto a mim mesmo.

Houve e haverá outros momentos em minha fuga. Há rostos e acontecimentos que quero arrancar à inconsistência brumosa desses dias longos, e guardar para sempre dentro de mim. Por isso é que escrevo. Isso tudo parece um diário íntimo.

Sempre tive horror a diários íntimos.

Súbito, percebo que estou escrevendo em francês, pela primeira vez. Já me aconteceu redigir textos pequenos em outra língua que não o italiano, mas sempre se tratava de alguma obrigação, papeladas administrativas, ou de uma carta a um amigo. Nunca tinha me passado pela cabeça começar uma narrativa em francês. A explicação talvez venha mais tarde. Ou então não há nada a explicar, tudo tem mesmo uma primeira vez.

Se relato a minha fuga sem fim, é por pura necessidade. É o único meio que tenho para agüentar o tranco. Como fazer? Não quero pensar nisso e penso antes em Hemingway quando ele diz - cito grosseiramente -: "A prosa é arquitetura. Como é possível encontrar a geometria certa para um romance, se o melhor da escrita rejeita a construção?".

Isso não deve ser tomado como promessa. Vou parafrasear as palavras do inigualável Hemingway, substituindo "o melhor da escrita" por "o melhor dos sentimentos".

O adeus às armas

Hoje já não estou em Paris, e escrevo com essa languidez própria das boas recordações. Mas se coço um pouco a casca - ainda delicada - dos últimos meses tenho a sensação de poder voltar para lá a qualquer momento, de descer de manhã para tomar meu café expresso no bar-tabacaria em frente. Queria tanto me demorar nesta imagem, deixar de lado, por um instante, a desesperança da minha fuga sem fim e me sentar naquele bar, recuperar Paris contando-a de novo. Mas me parece indispensável dizer, primeiro, como cheguei a isso, mais uma vez refugiado e em fuga, 25 anos depois dos "anos de chumbo" italianos. Explicar o meu engajamento na luta armada dos anos 70, no grupo dos pac, os Proletários Armados para o Comunismo. Mas, também, explorar as relações políticas e os laços amistosos que mantive com um dos chefes e fundadores desse grupo, Pietro Mutti. Esse homem, que foi meu companheiro e se tornou meu carrasco, esse homem cujo falso testemunho, prestado em minha ausência, custou-me uma pena de prisão perpétua. Pietro Mutti, a personagem chave do meu drama.

Eu nunca matei.

Sou culpado, como já disse muitas vezes, de ter participado de um grupo armado com fins subversivos e de ter portado armas. Nunca atirei em ninguém.

Os meus primeiros contatos com esse grupo de luta armada se deram em 1977, um ano após sua fundação. Eu vinha da Juventude Comunista. Numa família como a minha, era inevitável. O meu avô festejara o nascimento do Partido Comunista italiano. O meu pai, que todo domingo saía com o seu cravo na lapela, nos atraía a inimizade de todos os notáveis num raio de cinqüenta quilômetros. Quanto ao meu irmão mais velho, provido de um estoque inesgotável de camisas russas, acabara sendo eleito, na lista do Partido, ao cargo, me parece, de adjunto de obras públicas. Eu não tinha ainda dez anos e já berrava, no alto-falante do carro dele: "Governo ladrão ou ratos fascistas, o lugar de vocês é no esgoto". Quando criança, gostava daquilo tudo. Mas o que eu não suportava era o retrato do "Bigodudo", Stálin, pendurado na parede da sala de jantar. Pequeno ainda, achava que se tratava da efígie de um santo, e desconfiava. Com a minha mãe, tão religiosa, essa concessão não era de se descartar. Quando cheguei à idade de comparar os comportamentos da minha família, não muito comunistas, com o tal Stálin presente em todas as refeições, resolvi despendurar a carranca e despachá-la janela afora. É de crer que esse tenha sido um gesto capital, mas, em vez de pensar em suas terríveis conseqüências, lembro-me principalmente de minha surpresa ao descobrir que, por trás de Stálin, a parede era bem branquinha, e não cinzenta como todo o resto.

Ratifiquei minha ruptura com o Partido Comunista e com a teimosia staliniana da minha família participando das manifestações do Lotta Continua. Essa organização de extrema esquerda já era tão poderosa na época, que seu jornal diário tinha tiragem de 50 mil exemplares. Era moda, entre os jovens, enfiá-lo no bolso de trás da calça tomando o cuidado de deixar o título à mostra. Eu era, então, estudante numa pequena cidade do interior distante meia hora de Roma, uma cidadezinha fundada pelo próprio Mussolini em 1934. Naquela cidade pequeno-burguesa que brotara aceleradamente no meio da Planície Pontina, a tímida oposição de esquerda não poderia deixar de seguir as diretivas do Comitê Central do pci. Os comunistas, cegos para a profunda mudança de era que o Maio de 68 italiano expressava, haviam transformado o Partido numa ilha dentro do Estado, ele próprio entregue a uma intensa corrupção. Era o pc à italiana que, ante a impossibilidade de tomar parte no governo, aceitara comprometer-se a fim de partilhar o poder. Essa escolha só fez aumentar o dilaceramento de um povo esmagado pelo jugo de poderosas organizações criminosas. Essas organizações de caráter mafioso, presentes nos próprios enclaves das instituições, não hesitaram em organizar tentativas de golpes de Estado a fim de esmagar a rebelião crescente, com a cumplicidade do antigo fascismo, jamais banido do poder. Quanto à reação dos comunistas à explosão dos anos 1970, não poderia ter sido pior. Suas intervenções agressivas assumiam proporções dramáticas e caricaturais. Conheci ex-militantes comunistas - e houve muitos outros - que, ao ouvir seu Partido se expressar daquela maneira, desenterraram as armas da Resistência para entregá-las aos grupos que vinham se equipando. Enquanto escrevo, ainda posso ouvir as exclamações desses imperecíveis stalinistas reciclados na atual centro-esquerda italiana. Foi assim que surgiram, em massa, os novos deserdados do pci, que prepararam o terreno para uma "nova via revolucionária". Juntaram-se às hordas de contestatários, jovens miseráveis do campo recém-chegados às cidades e jovens burgueses rompendo com sua própria classe. Desse tríplice encontro iria surgir a onda de violência política que submergiria a Itália, e o círculo vicioso das respostas do Estado, da cia, do Partido Comunista, da extrema esquerda, da extrema direita, das organizações mafiosas. É a anomalia italiana. Bombas lançadas sobre os manifestantes, exército nas ruas, tiros à queima-roupa, organizações secretas, golpes de Estado fracassados, atentados, execuções sumárias. Esse drama sangrento são os anos 1970, assim chamados "de chumbo". Anos que fizeram centenas de mortos, tanto de um lado como do outro da "trincheira".

Mas, antes dessa fase dramática do conflito, o ambiente era estimulante e alegre, e a escalada rumo à grande violência não era perceptível. Éramos muitos, incluindo um bom número de mulheres, e quando por acaso aparecia um dia sem nenhuma manifestação, imediatamente inventávamos um motivo para improvisar algum. Revoltado não armado, eu ainda me divertia. Aprendia mais em um dia na rua do que em dez anos de escola. Além disso, nossos professores não estavam do nosso lado? Situação curiosa, aquela, que nos levava a brigar com o serviço de ordem da Juventude Comunista. Certa vez, me vi frente a frente com um ex-companheiro, de quem tinha sido muito próximo. Nos encaramos por um instante, prestes a nos lançar um em cima do outro. Então, ele jogou para o lado o seu cabo de enxada e nos abraçamos como dois velhos irmãos. Depois da rua, foi a vez dos squats. Desde que tinha jogado às favas o retrato do Bigodudo, voltar para casa já não era conveniente. Lá nos encontrávamos todos, ainda não havia muitas diferenças políticas no seio da revolta. Pelo menos durante o dia. A minha primeira namorada, meu primeiro petardo, meu primeiro panfleto, minha primeira casa, o squat era tudo isso. Mas, quando as discussões intermináveis perdiam o fôlego, quando cessava o barulho das rotativas e os flertes iam se concluir debaixo dos pórticos das ruas vizinhas, a noite escura e silenciosa virava o domínio dos militantes da "Autonomia Operária". Uma sigla que percorria o país de ponta a ponta, e que pouquíssima gente sabia no que consistia. Só uma coisa nos parecia clara sobre eles: em vez de agir e se calar, como era o costume, reivindicavam alto e bom som o direito à ilegalidade. Já que, nessas organizações sem recursos, eram obrigados a conseguir dinheiro para a máquina de escrever, o papel, o telefone, a alimentação. A minha namorada era um deles. Descobri então que os Autônomos não eram exatamente iguais aos outros. Eram cabeças delinqüentes - como a minha, aliás - mas com um discurso coerente, argumentações inteligentes. Eram jovens e velhos, ricos e pobres, héteros e homos, pés-rapados e intelectuais. Para eles, esquerda e direita pertenciam ao passado, pareciam ser os protótipos de um mundo que açabava de nascer. Loucos, um assunto novo, terrível e fascinante. Gostava deles. Com eles, participei das "reapropriações proletárias": uma definição que nos permitia enfeitar com uma conotação política os roubos e pequenos assaltos, esse autofinanciamento não reivindicado, mas maciçamente praticado pelos milhares de jovens insurretos, autônomos ou não, que se espalhavam então pelas ruas da Itália. Esses roubos me levaram à prisão. Lá, encontrei outros militantes que já tinham feito, havia tempos, a opção pelas armas.

O objetivo deste relato não é desfiar o curriculum vitae de um militante. Só me pareceu importante falar sobre os meus sentimentos no momento em que conheci os Autônomos. Momento que marcou minha vida para sempre, e que explica, por si só, meu engajamento subseqüente nos pac2.

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"Minha Fuga Sem Fim"
Autor: Cesare Battisti
Editora: Martins Martins Fontes
Páginas: 288
Quanto: R$ 48
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

 

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