Publicidade

 

Publicidade

 

PUBLICIDADE

 
  Acompanhe a Folha.com no Twitter
10/12/2009 - 19h05

Comentário: Presidente faz uso de disfemismo

Publicidade

 

THAÍS NICOLETI DE CAMARGO
Consultora de língua portuguesa

Não é segredo para ninguém que o presidente Lula tem uma linguagem colorida, popular, o que, por alguns, é visto como um dos segredos do seu carisma, mas, por outros, é tido como algo inapropriado a um presidente da República.

Lula fala palavrão em cerimônia no Maranhão; clique para ver

Hoje, num discurso inflamado, muito à vontade com a plateia, o presidente afirmou que iria "tirar o povo da merda". Diga-se de passagem, recebeu muitos aplausos, sinal inequívoco de que a mensagem foi transmitida.

O problema está no fato de "merda" ser um palavrão ou uma palavra de baixo calão, vulgar, como outras de que o leitor se lembrará facilmente e que, com certeza, não usa em situações de algum grau de formalidade. E não usa por quê?

O uso da linguagem, em certo sentido, aproxima-se das regras de etiqueta. Assim como não se fala com a boca cheia, não se dizem certas palavras, sobretudo em situação de formalidade. São considerados palavrões certos termos e expressões ligados geralmente ao metabolismo e às funções sexuais. Daí o surgimento de eufemismos para substituí-los.

Por exemplo, por decoro, ninguém diz o que vai fazer no banheiro; basta pedir licença para ir ao "toalete" (o francesismo parece ainda mais elegante). A própria expressão "vaso sanitário" é um eufemismo. Quando o assunto é sexo, são várias as expressões de caráter eufemístico, como "fazer amor" ou mesmo "fazer sexo".

O fato é que as palavras em si apenas designam as coisas ou as ações. "Merda", por exemplo, vem direto do latim, língua na qual era o termo usado para designar a matéria fecal, os excrementos, as fezes. Com o tempo, o termo não só teve seu sentido ampliado, passando a sinônimo de miséria ou situação ruim, como se tornou um tabuísmo, um termo vulgar.

Curiosamente, como interjeição, se para muita gente seu significado é negativo (de raiva, desprezo, indignação, decepção), para o meio artístico, é sinônimo de bom augúrio. Lenda ou não, consta que esse uso surgiu na França, quando um ator enfrentou grandes dificuldades para chegar ao teatro onde faria uma apresentação importantíssima a uma plateia de ilustres e, quando finalmente conseguiu chegar, pisou num "cocô". A expressão que logo lhe veio à mente, em bom francês, foi "Merde!". Como a apresentação foi um sucesso estrondoso, surgiu esse uso algo supersticioso da palavra "merda" como interjeição de boa sorte entre os atores.

Se, quando escolhemos termos capazes de tornar a expressão mais suave, lançamos mão do "eufemismo", quando fazemos o contrário, isto é, quando tornamos a expressão mais rude, também lançamos mão de uma figura de linguagem: o disfemismo. De um modo ou de outro, com eufemismo ou com disfemismo, a linguagem torna-se mais expressiva. É preciso, porém, saber o momento de usar uma figura ou outra.

Thaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL.

 

Sobre a Folha | Expediente | Fale Conosco | Mapa do Site | Ombudsman | Erramos | Atendimento ao Assinante
ClubeFolha | PubliFolha | Banco de Dados | Datafolha | FolhaPress | Treinamento | Folha Memória | Trabalhe na Folha | Publicidade

Publicidade

 

Publicidade

 

Publicidade