Brasil
29/04/2005 - 12h00

Governo erra ao controlar inflação só com juro, diz Lula

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PATRÍCIA ZIMMERMANN
da Folha Online, em Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva engrossou o coro de críticas à política econômica de seu próprio governo e afirmou hoje ser um erro apostar apenas nos juros como único instrumento para o controle de inflação.

Mesmo reconhecendo que não se trata de uma tarefa simples, Lula defendeu hoje que o governo busque outros mecanismos para o controle da inflação.

O discurso é conflitante com o que costuma afirmar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e também o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Os principais membros da equipe econômica repetiram diversas vezes nos últimos meses que o melhor sistema de combate à alta de preços é o regime de metas de inflação e que os juros são o instrumento para colocá-lo em prática.

Hoje, quando a inflação sobe, o Copom (Comitê de Política Monetária, do Banco Central) eleva os juros para mantê-la dentro da meta, que é de 5,1% neste ano. O efeito colateral desse tipo de decisão é que obriga o governo a economizar mais dinheiro para evitar o aumento dívida pública, o que gera corte de investimentos.

O sistema, que recebeu um bombardeio de questionamentos nas últimas semanas, alguns deles vindos de aliados bastante próximos a Lula, como o vice-presidente José Alencar, ganha agora críticas explícitas também de Lula.

Alternativa

Durante sua primeira entrevista coletiva em dois anos e quatro meses na presidência, Lula foi questionado, entre outras coisas, sobre que outro instrumento o governo poderia utilizar para combater a inflação. Lula disse que 'nem tudo o que você pode fazer na economia você pode avisar antes, porque se avisar não faz', e atribuiu a autoria dessa frase ao deputado Ulysses Guimarães (PMDB), morto em 1992.

'Estou convencido de que os juros não podem ser o único instrumento de controle de inflação. Se for assim, nós passamos muita responsabilidade para o Banco Central e tiramos das nossas costas a responsabilidade, das costas do governo e das costas da sociedade', afirmou o presidente.

Lula descartou, no entanto, a possibilidade de lançar mão de planos econômicos que surpreendam a população. 'Eu possivelmente, se tivesse 30 anos adoraria uma pirotecnia. Mas aos 59 anos de idade, de barba e cabelo branco, eu prefiro fazer as coisas com o maior senso possível', disse ao criticar os planos econômicos anteriores ao seu governo.

'Não pretendo permitir que, em função de um ano eleitoral que se aproxima, em função da leviandade de discursos falsos de alguns, que eu tome qualquer atitude que coloque em risco o que nós a duras penas construímos até agora', afirmou.

O presidente disse não querer que o Brasil tenha um modelo econômico 'pulo de galinha', mas que a economia seja 'sólida', capaz de crescer por 15 ou 20 anos seguidos com base principalmente no aumento do comércio exterior.

Responsabilidade

Lula também reconheceu como do próprio governo a responsabilidade sobre a alta dos juros. 'Não foi o Banco Central que determinou [a meta de inflação], foi o governo. O governo determinou, e o Banco Central tem que buscar essa meta de inflação. Para buscar essa meta de inflação, o BC só tem o mecanismo de aumento da taxa de juros', afirmou ao explicar que a alta dos juros servem hoje para conter a demanda e diminuir o consumo para forçar a queda de preços.

Entretanto, ele também culpou os setores da economia que aumentam os preços quando o mercado começa a mostrar sinais de aquecimento, quando deveriam reduzir os preços para ganhar com o volume de vendas.

Nos últimos oito meses, o BC elevou os juros oito vezes, chegando ao patamar atual de 19,5% ao ano. Ontem, ao divulgar a ata de sua última reunião, o Copom informou que novas altas são possíveis nos próximos meses.

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