03/10/2005
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22h20
da Agência Folha, em Cabrobó (PE)
O bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 59, em greve de fome há sete dias, responsabilizou hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo que vier a acontecer com a sua saúde durante o período de jejum.
"Eu peço ao divino Espírito Santo que o ilumine para que ele [Lula] não carregue pelo resto da vida, na consciência, esse peso", disse o religioso. "Eu não quero morrer, mas entrego a minha vida, se for preciso."
Cappio não se alimenta desde o dia 26 de setembro, em protesto contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco. Desde então, ele só ingere água retirada do próprio rio.
O bispo, que está em uma capela na zona rural de Cabrobó (600 km de Recife, PE), onde será captada a água do projeto de transposição, registrou em cartório sua intenção de morrer "pela vida do rio". Ele diz que só encerrará o jejum mediante a revogação do projeto pelo presidente.
O religioso defende que o governo priorize a revitalização do rio e invista em pequenos projetos de cisternas, açudes e de aproveitamento da água da chuva e do subsolo. "Existem ações muito mais econômicas, mais próximas da vida do povo, que resolvem o problema", declarou.
Um emissário do governo entregou no sábado uma carta de Lula ao religioso. No documento, o presidente afirma estar aberto ao diálogo, mas não fala em revogar o projeto. "A carta é muito amiga, solidária, mas não muda nada", respondeu Cappio.
O frei disse que decidiu assumir uma postura mais radical ao perceber que os "argumentos de razão" não seriam suficientes para fazer o governo mudar de idéia.
Cappio classifica a obra de "insana" e "mentirosa" e diz que o governo "passou um rolo compressor" sobre "pessoas e instituições de gabarito" que poderiam opinar sobre o projeto.
Ex-militante de campanhas do PT e admirador confesso de Lula, o bispo afirma que não participará mais de eventos políticos-eleitorais. "Quero me abster em termos políticos, mas na pessoa de Lula eu ainda acredito."
A pequena capela escolhida pelo bispo para cumprir sua promessa transformou-se em ponto de romaria. Fiéis e políticos vão ao local para abraçar e tocar no religioso. Muitos choram.
Cappio ainda aparenta boa saúde, apesar de os amigos mais próximos afirmarem que ele emagreceu "muito". O peso do frei não está sendo controlado. Até agora, ele foi submetido a apenas um exame clínico, no domingo, que não constatou problemas.
Todos os dias pela manhã ele caminha cerca de 200 metros até o rio São Francisco, onde reza e toma banho. Depois, passa o dia na capela, distribuindo bênçãos e conversando, a maior parte do tempo sentado em uma cadeira de plástico. Ele dorme na mesma capela, em um colchão estendido sob um ventilador de teto.
Amanhã, data de seu aniversário --e, coincidentemente, dia de São Francisco e do rio São Francisco--, estão sendo esperadas cerca de 2.500 pessoas de Sergipe e da Bahia. A caravana sergipana será comandada pelo governador João Alves Filho (PFL).
O bispo vai rezar uma missa no local. Os organizadores iniciaram ontem a montagem de um palanque e de um abrigo de lona plástica para os visitantes. Apesar do jejum de Cappio, serão distribuídas durante o evento 2.000 "quentinhas" aos romeiros.
O governador de Sergipe disse que a transposição é "ecologicamente criminosa e socialmente deletéria" e defendeu --como soluções para o problema da falta de água no semi-árido nordestino-- o que chamou obras de convivência com a seca (como adutoras e cisternas) e de otimização dos recursos hídricos hoje existentes na região.
"A coisa é muito grave e parece que o presidente não se apercebeu da gravidade do que ele está enfrentando. Ele quer construir um mártir dessa luta, e um mártir de um homem santo."
Com EDUARDO DE OLIVEIRA, da Agência Folha
Especial
Leia o que já foi publicado sobre a transposição do rio São Francisco
Bispo que faz greve de fome responsabiliza Lula por sua saúde
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FÁBIO GUIBUda Agência Folha, em Cabrobó (PE)
O bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 59, em greve de fome há sete dias, responsabilizou hoje o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo que vier a acontecer com a sua saúde durante o período de jejum.
"Eu peço ao divino Espírito Santo que o ilumine para que ele [Lula] não carregue pelo resto da vida, na consciência, esse peso", disse o religioso. "Eu não quero morrer, mas entrego a minha vida, se for preciso."
Cappio não se alimenta desde o dia 26 de setembro, em protesto contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco. Desde então, ele só ingere água retirada do próprio rio.
O bispo, que está em uma capela na zona rural de Cabrobó (600 km de Recife, PE), onde será captada a água do projeto de transposição, registrou em cartório sua intenção de morrer "pela vida do rio". Ele diz que só encerrará o jejum mediante a revogação do projeto pelo presidente.
O religioso defende que o governo priorize a revitalização do rio e invista em pequenos projetos de cisternas, açudes e de aproveitamento da água da chuva e do subsolo. "Existem ações muito mais econômicas, mais próximas da vida do povo, que resolvem o problema", declarou.
Um emissário do governo entregou no sábado uma carta de Lula ao religioso. No documento, o presidente afirma estar aberto ao diálogo, mas não fala em revogar o projeto. "A carta é muito amiga, solidária, mas não muda nada", respondeu Cappio.
O frei disse que decidiu assumir uma postura mais radical ao perceber que os "argumentos de razão" não seriam suficientes para fazer o governo mudar de idéia.
Cappio classifica a obra de "insana" e "mentirosa" e diz que o governo "passou um rolo compressor" sobre "pessoas e instituições de gabarito" que poderiam opinar sobre o projeto.
Ex-militante de campanhas do PT e admirador confesso de Lula, o bispo afirma que não participará mais de eventos políticos-eleitorais. "Quero me abster em termos políticos, mas na pessoa de Lula eu ainda acredito."
A pequena capela escolhida pelo bispo para cumprir sua promessa transformou-se em ponto de romaria. Fiéis e políticos vão ao local para abraçar e tocar no religioso. Muitos choram.
Cappio ainda aparenta boa saúde, apesar de os amigos mais próximos afirmarem que ele emagreceu "muito". O peso do frei não está sendo controlado. Até agora, ele foi submetido a apenas um exame clínico, no domingo, que não constatou problemas.
Todos os dias pela manhã ele caminha cerca de 200 metros até o rio São Francisco, onde reza e toma banho. Depois, passa o dia na capela, distribuindo bênçãos e conversando, a maior parte do tempo sentado em uma cadeira de plástico. Ele dorme na mesma capela, em um colchão estendido sob um ventilador de teto.
Amanhã, data de seu aniversário --e, coincidentemente, dia de São Francisco e do rio São Francisco--, estão sendo esperadas cerca de 2.500 pessoas de Sergipe e da Bahia. A caravana sergipana será comandada pelo governador João Alves Filho (PFL).
O bispo vai rezar uma missa no local. Os organizadores iniciaram ontem a montagem de um palanque e de um abrigo de lona plástica para os visitantes. Apesar do jejum de Cappio, serão distribuídas durante o evento 2.000 "quentinhas" aos romeiros.
O governador de Sergipe disse que a transposição é "ecologicamente criminosa e socialmente deletéria" e defendeu --como soluções para o problema da falta de água no semi-árido nordestino-- o que chamou obras de convivência com a seca (como adutoras e cisternas) e de otimização dos recursos hídricos hoje existentes na região.
"A coisa é muito grave e parece que o presidente não se apercebeu da gravidade do que ele está enfrentando. Ele quer construir um mártir dessa luta, e um mártir de um homem santo."
Com EDUARDO DE OLIVEIRA, da Agência Folha
Especial

