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Brasil
12/11/2005 - 09h04

Lula agiu diretamente contra a prorrogação

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EDUARDO SCOLESE
PEDRO DIAS LEITE
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Colaborou FERNANDA KRAKOVICS, da Folha de S.Paulo, em Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em discursos e entrevistas afirma que o Planalto não intervém nos assuntos do Congresso, atuou diretamente nas articulações para que a sua base de apoio no Congresso conseguisse barrar o requerimento de prorrogação do prazo de funcionamento da CPI dos Correios. A atitude do presidente foi criticada pela oposição, que viu "cinismo" de Lula.

A ação do presidente para evitar a extensão dos trabalhos da comissão foi reforçada pela ausência em Brasília do coordenador político do governo. O ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais), que recentemente capitalizou os louros pela vitória de Aldo Rebelo (PC do B) na eleição da presidência da Câmara, está em viagem à Suíça e a Israel.

Anteontem, as articulações do presidente começaram na viagem a Teófilo Otoni (MG), à tarde, e prosseguiram até o final da noite. Assim que desembarcou em Brasília, por volta das 20h, Lula seguiu direto para o Palácio do Planalto, onde ficou até as 23h30.

O presidente recebeu o ministro petebista Walfrido Mares Guia (Turismo), que, do gabinete presidencial, mantinha contato por telefone com o líder do PTB na Câmara, José Múcio (PE).

A tentativa do governo para derrubar o requerimento contou até com ações discretas do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), que procurou parlamentares próximos para buscar demovê-los de estender a comissão.

Ontem, Lula comentou com auxiliares que "estava cansado" por ter "tratado pessoalmente" da CPI.

A atuação de Lula repete a adotada em maio passado, quando já havia trabalhado para evitar a instalação da mesma CPI.

Na última segunda-feira, em entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura, Lula disse que podia andar de "cabeça erguida" por não haver, segundo ele, "ingerência do governo" diante das CPIs. "O que é importante para mim e que me deixa muito de cabeça erguida é o seguinte: nós estamos com três CPI funcionando, não há nenhuma ingerência do governo para criar nenhum problema para a CPI. Acho que o povo brasileiro deve aproveitar que eu estou na Presidência da República e, se alguém tiver denúncias, tem que fazer as denúncias porque elas serão apuradas."

Por conta dessas articulações e também para abafar os atritos entre Dilma Rousseff (Casa Civil) e Antonio Palocci Filho (Fazenda), Lula cancelou viagens à Bahia e ao Espírito Santo, previstas para ontem e anteontem.

No Planalto, porém, a versão oficial continua sendo a de que Lula não interfere no Legislativo e que as viagens foram canceladas por supostos problemas entre o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e o Grupo Suzano, empresa da qual o presidente visitaria uma fábrica, em Mucuri (BA).

"Cinismo"

Para a oposição, o presidente Lula demonstrou "cinismo" ao dizer em entrevista ao programa "Roda Viva" que queria que as investigações feitas pelo Congresso fossem até o final.

"Se ele [Lula] tivesse conseguido retirar as assinaturas suficientes demonstraria seu cinismo mas também sua força. Como não conseguiu, ficou patente a fraqueza do governo, o fisiologismo e como estão atarantados, perdidos", afirmou o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).

Para o líder do PFL, senador José Agripino (RN), são uma "farsa" as declarações de Lula de que apóia CPIs. "Queda e coice. Além de se expor trabalhando pela retirada de assinaturas, tornando claro que a entrevista de Lula foi uma farsa, vão ter que se submeter às conseqüências da derrota."

O presidente da CPI dos Correios, senador petista Delcídio Amaral (MS), também criticou. "Eu acho que o governo podia ter negociado um prazo anterior a abril. Faltou diálogo", disse.

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