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Brasil
27/03/2006 - 09h01

Dono de laptop nega saber como o sigilo foi quebrado

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ANDRÉA MICHAEL
FRANCISCO JORDÃO
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Em depoimento à Polícia Federal na noite de sexta-feira, o servidor da Caixa Econômica Federal Jeter Ribeiro disse não saber como seu computador foi utilizado para violar o sigilo do caseiro Francenildo Costa.

A Folha apurou que a senha utilizada para a quebra pode não ser a dele, mas a de um colega que estaria em férias identificado como Paulo César.

Revelações de que funcionários de vários níveis hierárquicos da Caixa podem ter envolvimento na violação deixam o presidente do banco, Jorge Mattoso, em uma situação delicada.

Mattoso convocou para hoje, às 10h, uma reunião extraordinária com todos os conselheiros da instituição, o que não é comum para uma segunda-feira. Ele vai depor à tarde na PF.

Alguns conselheiros acham que a reunião pela manhã é um sinal de que ele pode deixar o cargo antes de prestar depoimento.

Jeter Ribeiro, ouvido na sexta durante três horas pela PF, seria um dos dois usuários do computador portátil por meio do qual a movimentação bancária do caseiro foi acessada e, posteriormente, vazada para a imprensa com o provável intuito de desqualificar o caseiro.

A PF não confirmou, mas ontem à noite duas outras funcionárias poderiam ter sido ouvidas: a superintendente Sueli Aparecida Mascarenhas e a Diva de Souza Dias, diretora da área de logística.

A PF está evitando divulgar nomes por ressalvar que funcionários da Caixa podem ter agido obedecendo a ordens, sem necessariamente ter conhecimento de uma motivação criminosa por trás do pedido.

As duas funcionárias são subordinadas ao vice-presidente de Logística e Gestão, Carlos Alberto Cotta, que nega qualquer envolvimento dele ou de sua área na quebra de sigilos.

Mascarenhas não quis comentar o surgimento de seu nome. Dias não foi encontrada pela Folha. Já a Caixa diz que só iria se pronunciar quando tivesse informação oficial da PF.

Senhas

A Folha apurou que, pelos procedimentos técnicos da Caixa, as senhas de servidores em férias são bloqueadas. Daí a expectativa de que surja mais uma digital da prática criminosa: o eventual responsável por desbloquear o código utilizado para acessar os dados sobre a movimentação bancária do caseiro.

Diretores da Caixa dizem que o desbloqueio de uma senha de um funcionário que está em férias só poderia ter sido feito pela área de tecnologia.

Em depoimento à CPI dos Bingos, o caseiro Francenildo dos Santos Costa afirmou que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, freqüentava uma casa no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, chamada "casa do lobby".

O imóvel foi alugado por ex-assessores de Palocci para funcionar como um escritório de lobby, reuniões e diversão na capital federal.

Investigação

Diante das negativas do dono da senha por meio da qual os dados do caseiro foram acessados, a PF agora prioriza o caminho técnico para apurar as responsabilidades pelo crime cometido.

Inicialmente acusada de participar do ato ilegal por meio do qual os dados do caseiro foram acessados, a PF diz que entrará a fundo no caso. Na sexta-feira, o delegado Rodrigo Gomes, que está à frente da investigação, afirmou que "a PF não compactuará com a tentativa de transferir responsabilidade exclusivamente a pessoas de menor importância na cadeia de comando, que, portanto, não possuem poder decisório".

A Caixa assumiu o compromisso de encaminhar aos investigadores ainda hoje imagens do circuito interno de segurança e cópias dos registros de entrada na sede do banco. Também começa hoje a perícia no computador portátil usado para acessar os dados bancários do caseiro.

O inquérito, que apura tanto a violação do sigilo do bancário quanto a suspeita de que o caseiro tenha praticado crime de lavagem de dinheiro, enfrenta ainda uma questão judicial.

A investigação relacionada à lavagem de dinheiro foi aberta a pedido do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão subordinado ao Ministério da Fazenda, e está sendo questionada na Justiça.

O Ministério Público requereu o trancamento dessa linha de investigação sob o argumento de que seria ilegal. Os procuradores Gustavo Pessanha e Lívia Tinôco entendem que não se configura a suspeita de lavagem de dinheiro porque o caseiro nunca procurou esconder a origem dos depósitos de R$ 25 mil nos dois últimos meses.

As somas foram depositadas na conta bancária por seu suposto pai biológico, Eurípedes Soares da Silva, fato que o próprio caseiro tornou público.

Colaboraram Eduardo Scolese e Humberto Medina, da Sucursal de Brasília

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