01/02/2007
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10h28
VALDO CRUZ
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Quatorze anos depois de ser afastado da Presidência da República, o senador eleito Fernando Collor de Mello (PRTB-AL), 57, volta à vida pública hoje disposto a oferecer seu apoio ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. Ele diz não guardar "ressentimentos" dos petistas, classificados por ele de "artífices de minha queda".
Em entrevista à Folha, o hoje senador disse que tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) quanto Lula deram continuidade à agenda econômica implementada por ele. "Nada mudou, a cartilha é a mesma."
Num balanço de seu curto governo, derrubado por causa do escândalo envolvendo seu ex-tesoureiro PC Farias, ele reconhece ter cometido um "erro crasso" ao menosprezar o Congresso, confiante de que poderia se apoiar em uma relação direta com "a massa".
Ele também se arrepende de ter pedido à população para se vestir de verde-e-amarelo em sua defesa. Quando foi avisado que o país amanheceu vestido de preto, teria desabafado com um assessor: "Ai, meu Deus, agora não tem mais o que fazer".
Collor recebeu a reportagem trajando roupas de ginástica e um broche de Nossa Senhora de Fátima, em um hotel de Brasília. Ele tatuou o nome da mulher, a arquiteta Caroline Medeiros, no pulso esquerdo --o que classificou de um "ímpeto juvenil".
Ontem Collor teve uma boa notícia: um painel relatando o impeachment de 92 foi tirado da galeria do Senado conhecida como "túnel do tempo", que liga o plenário ao local onde ficam o gabinete dos senadores. A direção do Senado, porém, informou que o painel foi retirado para manutenção, e que voltará ao local.
FOLHA - Qual é a sensação de voltar à vida pública pelo Senado, que foi a Casa que o afastou da presidência da República?
FERNANDO COLLOR DE MELLO - Tenho agora uma tribuna para oferecer a minha versão dos episódios que redundaram no meu afastamento da Presidência.
FOLHA - O senhor pretende traçar paralelos, já que o grupo político que foi um dos principais artífices dos ataques ao senhor na época acabou sofrendo várias acusações no atual governo?
COLLOR - Não é por aí, não vai ser nada bombástico, que suscite polêmica, que cause sequer uma consternação. Pode causar desconforto para alguns, mas vai ser um pronunciamento sem ressentimentos. A prova maior disso é que estarei no Senado oferecendo meu apoio ao governo do PT, que foi o principal artífice da minha queda.
FOLHA - O senhor foi acusado de ter vivido em Miami com recursos angariados naquele período.
COLLOR - Todos os recursos que dispus para permanecer em Miami foram oriundos da minha empresa [Organizações Arnon de Mello] e transferidos pelo Banco do Brasil.
FOLHA - O senhor vai ser da base aliada?
COLLOR - Não sei se a base aliada me quer, o que eu desejo é apoiar as medidas que o governo vem adotando na área econômica e sobretudo na área social.
FOLHA - O senhor acha que é um bom governo?
COLLOR - Sem dúvida. Ele [Lula] tem acertado, se esforçado e dado provas de que é uma pessoa de muita sensibilidade e com uma intuição formidável.
FOLHA - Depois de Waldomiro, mensalão, sanguessugas e dossiê, o senhor acha que seu governo é visto em outra perspectiva? Acha que caiu por menos?
COLLOR - Acho que as comparações devem ser feitas em termos de medidas tomadas em benefício da prosperidade e da soberania da nação. Essas questões que fazem parte da crônica policial a gente deixa para que as instâncias jurídicas e policiais resolvam.
FOLHA - O governo do senhor iniciou a abertura da economia brasileira. Onde o senhor acha que esse governo falha nesse ponto?
COLLOR - Gostaria de registrar que a agenda política e econômica implantada em 1990 continua a ser seguida. Nada mudou, a cartilha é a mesma. Foi seguida por Fernando Henrique Cardoso até de uma forma mais exacerbada, que faria corar até o próprio Roberto Campos.
Foi uma mudança radical do Fernando Henrique. Ele inclusive fez um pronunciamento quando era senador que pretendia demolir o programa econômico apresentado por meu governo. Eu até exalto a capacidade que ele teve de se reciclar, que ele tenha repensado quatro anos depois tudo o que disse.
Aquele programa que ele havia desancado foi o que ele abraçou sofregamente. Ele tem essa grande qualidade, é de um mimetismo absoluto, e durante o governo daquele de Juiz de Fora...
FOLHA - Itamar Franco. Como não se lembra do nome daquele que foi vice do senhor?
COLLOR - Eu costumo deletar coisas que para mim não tenham significado maior.
FOLHA - E o governo Lula?
COLLOR - Os pressupostos macroeconômicos estavam muito bem consolidados ao longo desses 12 anos, o Lula não podia fazer outra coisa a não ser continuar com isso.
FOLHA - O senhor vislumbra uma nova candidatura à presidência da República?
COLLOR - Vislumbrar não vislumbro. Tem aquele ditado: gato escaldado tem medo de água fria. A Presidência consome a pessoa.
FOLHA - Surpreendeu o senhor os escândalos de corrupção em um governo do PT?
COLLOR - Surpreendeu, até porque o PT sempre se notabilizou pela veemência com que se auto-atribuía todos os melhores valores da ética, da moral, da boa conduta, da lisura no trato da coisa pública. De repente cai a máscara e ele se mostra um partido como qualquer outro, porque é formado por homens. Eu era levado a acreditar que o discurso deles refletia a verdade, o compromisso deles com esses princípios.
FOLHA - O que enxerga como o principal erro do senhor como presidente?
COLLOR - Entre os principais erros cometidos, um deles não se deveu a mim, que foi a minha idade [foi eleito com 40 anos].
FOLHA - Então foi uma conjunção de fatores?
COLLOR - Quando coloquei aquela faixa no peito eu disse: "Vou mudar o país de cima pra baixo". Com aquela disposição e ingenuidade, disse: "Vou fazer uma política econômica e vou fazer o bloqueio de todos os ativos". Foi uma medida duríssima, de uma repercussão até nos menores rincões do Brasil, e pela forma como o programa foi implementado, a inexperiência da equipe...
FOLHA - Qual foi seu principal erro no governo?
COLLOR - A falta de maioria [no Congresso] foi um erro crasso. Quando ocupei outros cargos no Executivo, e isso é uma atitude errada, eu nunca dei muita importância ao Legislativo. A minha comunicação era sempre feita diretamente com a massa. Como o meu forte era sempre o apoio da população, as câmaras legislativas ficavam retraídas, com receio do povo ficar contra eles caso não concordassem com alguma proposta que eu enviasse. Deu certo como prefeito, governador, e eu achei que com o Congresso, onde só tem cobra criada, isso poderia dar certo também. O fato é que não deu.
FOLHA- E quando o senhor percebeu isso tudo?
COLLOR - Outro erro gravíssimo foi em uma cerimônia no palácio com taxistas. Foi aquele negócio de sair de verde-e-amarelo no domingo. Quando acordei no domingo, o Ethevaldo [Dias], que era meu assessor de imprensa, disse que o país inteiro estava vestido de preto. Aí eu falei: "Ai meu Deus, agora não tem mais o que fazer". Quando o Congresso percebeu que minha principal força de sustentação não estava mais comigo, começou o processo de impeachment.
FOLHA - O senhor não acha que também foi um erro ter mantido o tesoureiro da campanha, o Paulo César Farias, muito perto do governo, mantendo contatos com empresários?
COLLOR - Ele nunca esteve perto do governo, nunca teve participação efetiva, nem sala no Palácio do Planalto ou em algum ministério. Quando eu recebi a informação de que fulano reclamou que tinha sido procurado por A ou B para algum tipo de vantagem, eu imediatamente liguei para ele e disse que estava absolutamente proibido de ter qualquer iniciativa nesse campo.
Ele disse que eram questões pessoais e eu falei para não deixar subentendido que tinha alguma coisa a ver com o governo. Depois ficou demonstrado que os recursos vieram de sobras da campanha.
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FERNANDA KRAKOVICSVALDO CRUZ
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Quatorze anos depois de ser afastado da Presidência da República, o senador eleito Fernando Collor de Mello (PRTB-AL), 57, volta à vida pública hoje disposto a oferecer seu apoio ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. Ele diz não guardar "ressentimentos" dos petistas, classificados por ele de "artífices de minha queda".
Em entrevista à Folha, o hoje senador disse que tanto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) quanto Lula deram continuidade à agenda econômica implementada por ele. "Nada mudou, a cartilha é a mesma."
Num balanço de seu curto governo, derrubado por causa do escândalo envolvendo seu ex-tesoureiro PC Farias, ele reconhece ter cometido um "erro crasso" ao menosprezar o Congresso, confiante de que poderia se apoiar em uma relação direta com "a massa".
Ele também se arrepende de ter pedido à população para se vestir de verde-e-amarelo em sua defesa. Quando foi avisado que o país amanheceu vestido de preto, teria desabafado com um assessor: "Ai, meu Deus, agora não tem mais o que fazer".
Collor recebeu a reportagem trajando roupas de ginástica e um broche de Nossa Senhora de Fátima, em um hotel de Brasília. Ele tatuou o nome da mulher, a arquiteta Caroline Medeiros, no pulso esquerdo --o que classificou de um "ímpeto juvenil".
Ontem Collor teve uma boa notícia: um painel relatando o impeachment de 92 foi tirado da galeria do Senado conhecida como "túnel do tempo", que liga o plenário ao local onde ficam o gabinete dos senadores. A direção do Senado, porém, informou que o painel foi retirado para manutenção, e que voltará ao local.
FOLHA - Qual é a sensação de voltar à vida pública pelo Senado, que foi a Casa que o afastou da presidência da República?
FERNANDO COLLOR DE MELLO - Tenho agora uma tribuna para oferecer a minha versão dos episódios que redundaram no meu afastamento da Presidência.
FOLHA - O senhor pretende traçar paralelos, já que o grupo político que foi um dos principais artífices dos ataques ao senhor na época acabou sofrendo várias acusações no atual governo?
COLLOR - Não é por aí, não vai ser nada bombástico, que suscite polêmica, que cause sequer uma consternação. Pode causar desconforto para alguns, mas vai ser um pronunciamento sem ressentimentos. A prova maior disso é que estarei no Senado oferecendo meu apoio ao governo do PT, que foi o principal artífice da minha queda.
FOLHA - O senhor foi acusado de ter vivido em Miami com recursos angariados naquele período.
COLLOR - Todos os recursos que dispus para permanecer em Miami foram oriundos da minha empresa [Organizações Arnon de Mello] e transferidos pelo Banco do Brasil.
FOLHA - O senhor vai ser da base aliada?
COLLOR - Não sei se a base aliada me quer, o que eu desejo é apoiar as medidas que o governo vem adotando na área econômica e sobretudo na área social.
FOLHA - O senhor acha que é um bom governo?
COLLOR - Sem dúvida. Ele [Lula] tem acertado, se esforçado e dado provas de que é uma pessoa de muita sensibilidade e com uma intuição formidável.
FOLHA - Depois de Waldomiro, mensalão, sanguessugas e dossiê, o senhor acha que seu governo é visto em outra perspectiva? Acha que caiu por menos?
COLLOR - Acho que as comparações devem ser feitas em termos de medidas tomadas em benefício da prosperidade e da soberania da nação. Essas questões que fazem parte da crônica policial a gente deixa para que as instâncias jurídicas e policiais resolvam.
FOLHA - O governo do senhor iniciou a abertura da economia brasileira. Onde o senhor acha que esse governo falha nesse ponto?
COLLOR - Gostaria de registrar que a agenda política e econômica implantada em 1990 continua a ser seguida. Nada mudou, a cartilha é a mesma. Foi seguida por Fernando Henrique Cardoso até de uma forma mais exacerbada, que faria corar até o próprio Roberto Campos.
Foi uma mudança radical do Fernando Henrique. Ele inclusive fez um pronunciamento quando era senador que pretendia demolir o programa econômico apresentado por meu governo. Eu até exalto a capacidade que ele teve de se reciclar, que ele tenha repensado quatro anos depois tudo o que disse.
Aquele programa que ele havia desancado foi o que ele abraçou sofregamente. Ele tem essa grande qualidade, é de um mimetismo absoluto, e durante o governo daquele de Juiz de Fora...
FOLHA - Itamar Franco. Como não se lembra do nome daquele que foi vice do senhor?
COLLOR - Eu costumo deletar coisas que para mim não tenham significado maior.
FOLHA - E o governo Lula?
COLLOR - Os pressupostos macroeconômicos estavam muito bem consolidados ao longo desses 12 anos, o Lula não podia fazer outra coisa a não ser continuar com isso.
FOLHA - O senhor vislumbra uma nova candidatura à presidência da República?
COLLOR - Vislumbrar não vislumbro. Tem aquele ditado: gato escaldado tem medo de água fria. A Presidência consome a pessoa.
FOLHA - Surpreendeu o senhor os escândalos de corrupção em um governo do PT?
COLLOR - Surpreendeu, até porque o PT sempre se notabilizou pela veemência com que se auto-atribuía todos os melhores valores da ética, da moral, da boa conduta, da lisura no trato da coisa pública. De repente cai a máscara e ele se mostra um partido como qualquer outro, porque é formado por homens. Eu era levado a acreditar que o discurso deles refletia a verdade, o compromisso deles com esses princípios.
FOLHA - O que enxerga como o principal erro do senhor como presidente?
COLLOR - Entre os principais erros cometidos, um deles não se deveu a mim, que foi a minha idade [foi eleito com 40 anos].
FOLHA - Então foi uma conjunção de fatores?
COLLOR - Quando coloquei aquela faixa no peito eu disse: "Vou mudar o país de cima pra baixo". Com aquela disposição e ingenuidade, disse: "Vou fazer uma política econômica e vou fazer o bloqueio de todos os ativos". Foi uma medida duríssima, de uma repercussão até nos menores rincões do Brasil, e pela forma como o programa foi implementado, a inexperiência da equipe...
FOLHA - Qual foi seu principal erro no governo?
COLLOR - A falta de maioria [no Congresso] foi um erro crasso. Quando ocupei outros cargos no Executivo, e isso é uma atitude errada, eu nunca dei muita importância ao Legislativo. A minha comunicação era sempre feita diretamente com a massa. Como o meu forte era sempre o apoio da população, as câmaras legislativas ficavam retraídas, com receio do povo ficar contra eles caso não concordassem com alguma proposta que eu enviasse. Deu certo como prefeito, governador, e eu achei que com o Congresso, onde só tem cobra criada, isso poderia dar certo também. O fato é que não deu.
FOLHA- E quando o senhor percebeu isso tudo?
COLLOR - Outro erro gravíssimo foi em uma cerimônia no palácio com taxistas. Foi aquele negócio de sair de verde-e-amarelo no domingo. Quando acordei no domingo, o Ethevaldo [Dias], que era meu assessor de imprensa, disse que o país inteiro estava vestido de preto. Aí eu falei: "Ai meu Deus, agora não tem mais o que fazer". Quando o Congresso percebeu que minha principal força de sustentação não estava mais comigo, começou o processo de impeachment.
FOLHA - O senhor não acha que também foi um erro ter mantido o tesoureiro da campanha, o Paulo César Farias, muito perto do governo, mantendo contatos com empresários?
COLLOR - Ele nunca esteve perto do governo, nunca teve participação efetiva, nem sala no Palácio do Planalto ou em algum ministério. Quando eu recebi a informação de que fulano reclamou que tinha sido procurado por A ou B para algum tipo de vantagem, eu imediatamente liguei para ele e disse que estava absolutamente proibido de ter qualquer iniciativa nesse campo.
Ele disse que eram questões pessoais e eu falei para não deixar subentendido que tinha alguma coisa a ver com o governo. Depois ficou demonstrado que os recursos vieram de sobras da campanha.
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