15/05/2007
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14h03
Leia abaixo a segunda parte da entrevista coletiva concedida nesta terça-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
6. Jornalista Guilherme Menezes, SBT: Bom dia, presidente. O assunto ainda é a sucessão. O senhor acaba de dizer que tem mais de três anos de mandato pela frente. O segundo mandato mal começou, mas a gente sabe que em política, quem não faz estratégia não colhe lá na frente, e o senhor, com certeza, não vai abrir mão do seu papel de líder político e de querer influenciar a política brasileira, ninguém tem dúvida disso. Então, a pergunta que eu faço é a seguinte: o senhor estaria disposto ou o senhor acha que um presidente eleito pelo PT está obrigado a apoiar um candidato do PT ou o apoio do senhor poderia estar ligado à lógica da montagem da sua base política que privou o PT de algum espaço para beneficiar os aliados? Quem o senhor vai apoiar, na medida em que o senhor descartou a possibilidade da terceira eleição?
Presidente: Primeiro, nenhum partido privou o PT de algum espaço. O PT tem o privilégio de ter o cargo mais importante da República, que é o de presidente, mais do que isso é querer muita coisa. Além disso, todos os partidos participam do governo em função da proporcionalidade da sua representação na sociedade brasileira, e o candidato que sairá da base deverá ser discutido entre todos os partidos que compõem a base. Eu digo sempre o seguinte: eu quero terminar o meu mandato em 2010 na condição daquele que os candidatos chamem para ir para o palanque, porque é duro você terminar um mandato e ninguém te chamar para nada, as pessoas te esconderem, fingirem que você não é do partido, não citarem o seu nome, não o convocarem para a televisão. Eu quero ser um presidente diferente. Quando chegar a eleição de 2010, eu quero estar tão afiado que as pessoas vão pedir para eu ir ao palanque: "Vamos lá Lula, vamos fazer um comiciozinho, não sei das quantas". É assim que eu quero terminar o meu mandato e é para isso que eu vou trabalhar. A base vai ter um candidato e esse candidato, na minha opinião, deve ser tirado de um consenso da base para que a gente possa disputar as eleições.
Jornalista Guilherme Menezes, SBT: Não precisa ser alguém do PT?
Presidente: Necessariamente não. Se eu estou dizendo que é um candidato da base, e a base tem vários partidos políticos, vai ser um candidato da base, de dentro da base. Hoje a gente erra só se quiser, porque você tem pesquisa, você tem estudo científico que pode dizer: olha, quem tem mais possibilidade é esse, quem tem possibilidade de crescer é esse, quem vai crescer é aquele, e preparar o tipo de discurso que as pessoas têm que fazer. Hoje, uma campanha tem métodos científicos importantes. E eu acho que nós estamos numa condição favorável.
O que eu posso dizer para vocês é que toda a minha expectativa e tudo o que eu acredito que vai acontecer é que nós terminaremos o segundo mandato numa condição eminentemente mais favorável do que terminamos o mandato de 2006. E o Brasil estará economicamente, politicamente e socialmente infinitamente melhor do que esteve em 2006. Portanto, as condições serão muito mais favoráveis. Obviamente que sempre haverá alguém jogando uma casca de banana, sempre haverá alguém jogando uma pedra, mas isso faz parte da política. O que eu preciso é colocar um sapato com umas travinhas para não escorregar nas cascas de banana que me jogam todo santo dia. Eu também aprendi muito, também fiquei calejado, também aprendi a saber quem é quem na política brasileira e acho que por isso eu estou mais tranqüilo para fazer as coisas corretas.
Jornalista Guilherme Menezes, SBT: O senhor faz sucessor?
Presidente: Meu Deus do céu, eu esqueci de perguntar para o papa, mas eu posso dizer para vocês que eu quero fazer o sucessor, e por uma razão muito simples: porque eu quero que tenha continuidade o que nós estamos fazendo no país. Só isso. Eu trabalho para fazer. Agora, entre trabalhar para fazer e dizer que vou fazer, não tenho esse poder.
7. Jornalista Leandro Fortes, Carta Capital: presidente, bom dia. Sobre esse hábito de coalizão ao qual o senhor se referiu, eu queria lhe fazer uma pergunta específica sobre isso. No início do segundo mandato, o senhor trouxe para o governo, por exemplo, o deputado Geddel Vieira Lima, que lhe desancava sem maiores pudores durante a crise política do mensalão em 2005/2006. Recentemente o senhor surpreendeu a todos trazendo também o professor Mangabeira Unger, que não só lhe desencava publicamente como também escreveu um artigo pedindo o seu impeachment, por nomeá-lo, designá-lo como chefe do governo mais corrupto da história. Então, eu lhe pergunto: essa coalizão feita nesses termos, essa coalizão feita a qualquer custo, levada, enfim, a todas as conseqüências por conta da governabilidade, do exercício da governabilidade, primeiro, se ela lhe provoca algum desconforto em relação a esses nomes. E, segundo, se o senhor não acha que isso vai acabar lhe criando mais problemas do que soluções, ao longo do seu mandato.
Presidente: Uma coisa importante que temos que meditar é se nós, cidadãs e cidadãos brasileiros, respeitamos o resultado das eleições ou se vamos ficar discordando, porque as pessoas que nós queríamos que fossem eleitas não foram. O presidente da República, no exercício do seu mandato, não governa com as forças que gostaria de governar, ele governa com as forças vivas que compõem as organizações políticas da sociedade civil e dos partidos políticos. Isso vale para um prefeito, vale para um governador e vale para o presidente da República.
Segundo, obviamente que quando você faz aliança política, ela tem preço, e eu vou lhe dar um exemplo. Eu perdi três eleições, e cada eleição que eu perdia, eu perdia por 15%. Chegou um dia em que alguém me convenceu de que eu não precisava mais ficar fazendo discurso para agradar o PT, que eu não precisava mais ficar fazendo discurso para agradar os 30% ou 35% que eu tive em todas as eleições. Era preciso que eu me preparasse para ter do meu lado os 15% que faltavam. E eu me preparei e ganhei a eleição. Da mesma forma, na hora em que você vai montar a coalizão, eu não fiz acordo com pessoas individualmente, eu fiz acordo com partidos políticos e, portanto, cabe ao partido político indicar as pessoas que vão fazer parte do governo, desde que as pessoas --e todo mundo que é indicado passa por um critério que pode ter ou não problema-- estejam aptas para exercer a sua função.
Ora, eu queria fazer a coalizão porque queria o PMDB como um todo e não o PMDB fracionado. Eu queria o PMDB na sua totalidade, com os seus deputados, com os seus senadores e com a direção do partido. Eu não queria um PMDB que tivesse 40 deputados de um lado, 40 deputados do outro, 10 senadores de um lado, 10 senadores do outro. Eu queria o todo do PMDB, como eu quero o todo do PR, como eu quero o todo do PRTB, e assim a gente monta o governo. Se essas pessoas forem me dar problema, as do PT e as que não são do PT, os partidos irão tomar posições em relação a elas. Até agora todas estão a contento. O fato de a pessoa ter sido contra o presidente da República em outro período, ela tinha que ser contra porque não fazia parte da coalizão. Agora, ela faz parte da coalizão e você vai ver essa pessoa, pelo Brasil afora, defendendo o governo e defendendo o presidente Lula. A mesma coisa, o Mangabeira Unger, que vem para um trabalho específico de pensar este país para o ano de 2022, que é o ano em que a gente completa 200 anos de Independência. Eu pretendo apresentar um projeto para o Brasil, quero mandar esse projeto para a Câmara dos Deputados e para o Senado para que seja votado e possa parecer quase que uma espécie de constituinte de obras. Qualquer pessoa que vier a governar este país, poderá fazer a obra que lhe der na cabeça, mas tem aquelas obras que são prioritárias, são necessárias para o país.
Ora, na medida em que o partido do Mangabeira Unger, que tinha o vice-presidente da República e tem o vice da República, o indica para uma função que eu queria criar, ótimo. Vamos ver o que o Mangabeira vai fazer daqui para frente, vamos ver o que os ministros vão fazer daqui para frente. O que fizeram para trás, faz parte do passado.
A segunda coisa, meu querido, é a seguinte: muita gente vai engolir o que disse do governo, com muita tranqüilidade. Nada como um pouco do passar do tempo para as coisas irem se assentando. E todo ser humano é plausível de erro. As pessoas podem errar. Eu já fiz julgamento precipitado de quantas coisas? Eu me lembro que quando o Sarney lançou a Ferrovia Norte-Sul, eu me esgoelava no Congresso Nacional contra a Ferrovia Norte-Sul, eu e outras pessoas. Tanto é verdade que ela ficou, de 1987 até agora, com apenas 215 quilômetros construídos. Eu, que era contra em 1987, já fiz em quatro anos mais do que todos os presidentes que começaram em 1987.
Então, eu penso que o ser humano é assim: nós falamos uma coisa hoje, amanhã percebemos que estamos errados e humildemente temos que reconhecer que erramos, pedir desculpas do que fizemos, fazer autocrítica e tocar o barco para frente. O que a gente não pode é ficar com o passado como se fosse uma espada na cabeça das pessoas, sem permitir que elas possam evoluir.
Esses dias eu peguei um estudo sobre o que diziam da hidrelétrica de Itaipu. Se vocês puderem, peçam aos dirigentes de Itaipu para mandar, e vocês vão ver que coisa fantástica. Lá estão dizendo que vai ter tremor, lá estão dizendo que vai aumentar a ventania, lá estão dizendo que vai acontecer uma série de coisas que não aconteceram desde 1974. Então, na política é a mesma coisa. As pessoas dizem uma coisa hoje, amanhã têm que reconhecer que erraram. E eu acho que, graças a Deus, o mundo é assim. Graças a Deus, nós temos inteligência para não ser os donos da verdade e ser uma espécie de metamorfose ambulante, mudando sempre, nos aprimorando sempre, para melhorar sempre. O que eu posso te garantir é que eu continuo, hoje, o mesmo Lula de janeiro de 2003.
8.Jornalista Paulo de Tarso, Valor Econômico: presidente, bom dia. Um dos cenários econômicos que parece consolidado é a questão do câmbio. Com o dólar a cerca de R$ 2, e com a classificação do Brasil como "investment grade", a tendência é que o real fique ainda mais valorizado perante a moeda americana. A nossa pergunta é: que medidas o governo vai apresentar aos empresários brasileiros que estão perdendo competitividade no exterior, com esse cenário?
Presidente: Primeiro, se eu pudesse te responder com essa facilidade toda, eu já teria feito o que tem que ser feito. Primeiro, nós temos que reconhecer uma coisa que o ministro Guido Mantega [Fazenda] disse para vocês, outro dia, em uma entrevista. A gente fica dizendo que o real está valorizado sem reconhecer que o dólar está se desvalorizando diante de quase todas as moedas do mundo. Segundo, nós não podemos resolver o problema do câmbio como alguns querem que a gente resolva: "Ah, cria o câmbio para agricultura, cria o câmbio-soja, o câmbio-automóvel, o câmbio-parafuso", não dá. O câmbio vai continuar sendo flutuante e vai se ajustar. Já faz algum tempo que ele está na casa dos 2% e vai se ajustar.
O que nós precisamos é ter medidas tributárias para que a gente possa permitir que as empresas brasileiras que produzem e competem com um produto, normalmente chinês, no mercado internacional e estão perdendo competitividade, possam ter mais competitividade. Ao mesmo tempo, nós temos que incentivar essas empresas a adotarem inovação tecnológica, porque seremos mais competitivos com mais tecnologia moderna. É isso que temos que fazer. O dólar vai se ajustar na medida em que a gente comece a importar mais bens de capital, na medida em que a gente comece a reduzir a taxa de juros, que está sendo reduzida e vai continuar sendo reduzida. Agora, não tem milagre.
Eu quero dizer para as pessoas que estão perdendo competitividade que o governo fará a sua parte. O governo pode aumentar a alíquota de produtos importados, pela OMC [Organização Mundial do Comércio] nós poderemos chegar até 35% na taxação de determinados produtos. Já fizemos isso no setor têxtil, poderemos fazer para outros setores. Nós poderemos criar políticas para estudar a desoneração de alguns setores aqui dentro, mas não tem como o governo, num passe de mágica, dizer: "olha, para esse setor sobreviver, o dólar vai ser tanto". Não tem, o que nós precisamos saber é que não estamos competindo com a Alemanha ou com os Estados Unidos, estamos competindo com a China e as condições da China, do ponto de vista da relação trabalho/capital, é muito mais favorável do que a relação aqui dentro do Brasil.
Por isso é que eu votei para que a China fosse transformada em economia de mercado. Por quê? Nós precisamos levar a China para a OMC e fazer com que a China faça um debate junto com todos os demais países que concorrem com ela, o que não pode é a China ficar de fora, do jeito que está hoje. Mas eu estou tranqüilo e acho que o câmbio, veja, não adianta a gente ficar nervoso não, faz seis meses que eu discuto a questão do câmbio neste país, com amplos setores da sociedade, com empresários dos mais diferentes setores, e não tem milagre. De vez em quando eu pergunto para as pessoas: vocês querem o câmbio fixo? Não. Então, meu caro, vamos deixá-lo flutuar. Vamos tratar de ordenar um aumento das importações brasileiras para que a gente tenha menos dólares, a política de juros vai sendo reduzida, nós vamos ter menos dólares. Agora, na medida em que o Brasil vai consolidando a sua economia, podem ficar certos de que nós vamos precisar aprender que mais dólares vão entrar aqui.
Veja que interessante, acabou o tempo em que os homens da economia deste país precisavam correr todo final de ano para Washington (EUA) para conseguir uma migalhazinha do FMI para fechar a nossa conta. Nós, agora, estamos tentando ver como gastar um pouco dessa quantidade de dólar que temos, porque uma reserva de US$ 125 bilhões, um saldo comercial de mais de US$ 40 bilhões, um superávit de conta corrente de mais US$ 14 bilhões, inflação baixa, é tudo o que os brasileiros não estavam preparados e graças a Deus nós conquistamos tudo isso. Agora, é continuar andando sem emoções e sem inventar, fazendo o que tem que ser feito.
Paulo de Tarso: Mas tem prazo para essas medidas, presidente?
Presidente: Não, não tem prazo. Veja, essas coisas nós vamos discutindo. Veja que nós estamos discutindo desoneração. Nesses últimos meses, você vai perceber que até o final de 2006 nós desoneramos praticamente R$ 22 bilhões neste país. A construção civil não estaria crescendo como está se nós não tivéssemos adotado um pacote para a construção civil. Nós acreditamos que com o PAC, com outras medidas que vamos tomar, a economia vai crescer ainda mais, nós vamos gastar um pouco dos dólares que temos aí. Se antes a gente corria atrás para pegar dólar, e o banco tinha que vender dólar para baixar o preço, hoje nós estamos comprando para o dólar não baixar e estamos comprando muitos dólares. Eu quero que a gente, ao invés de ficar comprando dólares, aumente a importação de bens de capital para modernizar a indústria nacional. É isso que vai dar à indústria nacional competitividade, para que a gente possa disputar com os mercados mais desenvolvidos.
9. Jornalista Jorge Svartzman, Agência France Presse: Bom dia, presidente. Eu ouvi muitas vezes o senhor falar, dizer que o Brasil não é um país imperialista, mas temos o Evo Morales, que lidera simbolicamente a ocupação das usinas da Petrobras; temos o presidente Fidel Castro e Hugo Chávez, que consideram o plano do biocombustível bom só para os monopólios; temos líderes no Paraguai, que consideram que o Brasil pega energia barata de Itaipu. Então, eu queria saber como o senhor avalia essas atitudes e se considera que elas podem ameaçar ou enfraquecer a integração regional, nos termos que o senhor a concebe.
Presidente: Você poderia falar dos líderes brasileiros que também não concordam com muitas coisas que o Brasil faz. Você poderia dizer que, entre Argentina e Brasil, tem argentino que não gosta do Brasil e tem brasileiro que não gosta da Argentina. Você poderia pegar 500 exemplos de coisas para mostrar que nós temos problemas, mas isso também faz parte do processo democrático.
Historicamente esses países todos viram o Brasil como um país imperialista, ou seja, é o maior país do continente, a maior economia do continente, o país mais desenvolvido. Então, era normal que os países de menor poder econômico e de menor desenvolvimento vissem no Brasil uma espécie de imperialista, ou seja, tudo o que acontece de ruim é culpa do Brasil.
Quando chegamos à Presidência da República e, logo em seguida, foi eleito o Kirchner, foi eleito o Nicanor, e foram eleitos outros presidentes da América do Sul, estabelecemos entre nós a idéia de que era preciso construir uma outra dimensão da política de integração para a América do Sul, de que gostaríamos de construir uma parceria e não uma hegemonia, mas também não poderíamos esquecer os problemas que temos. Veja, por exemplo, os problemas das divergências entre a Argentina e o Uruguai, e nem por isso eles deixam de ser dois países irmãos. Afinal de contas, são quantos milhões de uruguaios que moram na Argentina? São 400 mil brasileiros que moram no Paraguai, são 100 mil bolivianos que moram no Brasil.
Então, nós temos que levar em conta a existência de algo que supere as nossas divergências do século 21, para que a gente possa construir as convergências do século 21. Isso está claro. Agora, o fato de isso estar claro no nosso discurso não me faz cego diante da necessidade histórica da Bolívia ser dona do seu gás. É importante lembrar que não foi decisão do Evo Morales. Antes do Evo tomar posse, um plebiscito na Bolívia, com mais de 90%, decidiu que o gás seria nacionalizado. Na hora em que o Evo achou que era importante comprar a refinaria da Petrobras, a Petrobras resolveu vender e fizeram um acordo, para mim está tranqüilo. Eu acho que a riqueza mineral da Bolívia é da Bolívia, ele a vende para nós se quiser vender. Nós temos contrato. O que eu quero é que quando estabelecermos um contrato, esse contrato seja respeitado. E não é um problema com o Brasil. Veja que o problema que acontece com o Brasil acontece com a Argentina e acontece, na seqüência, com o Chile, porque na hora em que falta gás na Argentina, falta gás no Chile. Na hora em que fecha o gás no Brasil, é só o Brasil que é prejudicado.
Até agora não temos problema com o gás da Bolívia, até agora o Brasil está recebendo, o Brasil está trabalhando dentro do Plangás para que o Brasil seja auto-suficiente na produção de gás. E vamos manter a nossa relação com a Argentina, com o Paraguai.
Eu viajei, esses dias, quatro horas com o presidente Nicanor, e eu dizia a ele: "é importante ter em conta que um tratado internacional, ou nós o respeitamos ou, na hora em que a gente começar a quebrar esses tratados internacionais, a relação entre Estados ficará difícil de ser feita". Agora, eu não posso impedir que as pessoas encontrem um culpado para os seus problemas.
Durante muito tempo, todo discurso que eu fazia era de que o imperialismo americano era o responsável pela minha pobreza, o imperialismo americano era responsável pelo meu analfabetismo. E, de repente, eu descobri que o problema não é do imperialismo desse ou daquele, o problema é do imperialismo da nossa elite, que durante séculos governou os países deste continente e não fez nenhuma política de distribuição de riqueza, não pensou o desenvolvimento do país e não fez os investimentos necessários. Então, para que ficar culpando os outros, se a gente poderia olhar para dentro do nosso umbigo e perceber que o defeito está em nós mesmos?
Jornalista Jorge Svartzman, Agência France Presse: A impressão é de que essa posição foi ouvida pelos seus interlocutores, pelo Chávez, pelo Evo Morales?
Presidente: Veja, eu não tenho ilusão de que essas compreensões são demoradas. O Chávez tem sido um parceiro inestimável do Brasil, sob todos os aspectos. O fato de alguém se posicionar contra o biocombustível é um problema de quem se posiciona contra. O Chávez é comprador de etanol do Brasil, como outros países serão compradores de etanol de outros países do mundo. Quando eu penso no biodiesel e no etanol, fico olhando o Nordeste brasileiro, fico olhando o Vale do Jequitinhonha, fico olhando os países da América Central, que serão os beneficiários de uma nova matriz energética. Mas a minha cabeça fica voltada para o continente africano, porque é a grande chance de o continente africano se desenvolver, na hora em que o mundo desenvolvido resolver introduzir 10% ou 15% de álcool na gasolina, ou introduzir, nos seus caminhões e nos seus carros, o óleo diesel produzido de oleaginosa, já que somente nós temos terra, sol e gente para trabalhar. Isso é quase um milagre, e eu acho que o mundo vai se curvar diante disso.
Eu, agora, vou para o G-8 [os sete países mais ricos do mundo e a Rússia], e a discussão lá é sobre o aquecimento global. Então, vamos desaquecer o planeta utilizando mais álcool e mais biodiesel, vamos desaquecer o planeta plantando mais girassol, plantando mais mamona, plantando coisas que possam significar o seqüestro de carbono, porque até agora, o dinheiro que prometeram para os países pobres, não deram. O Brasil não aceita lição porque o Brasil tem a ensinar. Nós, em 2 anos, reduzimos o desmatamento na Amazônia em 52%, e vamos continuar diminuindo o desmatamento porque a Amazônia, não só é nossa, como queremos que ela seja preservada na sua maioria, porque é de interesse soberano deste País. Mas tem outro remédio: se as empresas quiserem deixar de utilizar combustível fóssil e utilizar combustível vegetal, os países pobres do mundo estão de braços abertos oferecendo terra, água, sol, tecnologia e mão-de-obra qualificada para que a gente possa mudar o planeta.
10. Jornalista Marcos Roberto Silva, Rede TV!: Bom dia, presidente. A respeito do crescimento do plantio da cana-de-açúcar para produção do etanol, eu queria saber como o governo brasileiro vai agir para evitar a exploração da mão-de-obra escrava que, atualmente, é utilizada nessas lavouras, a queimada da cana antes do corte, que acaba provocando o fechamento de aeroportos pelo país afora, e exatamente como conter esse desmatamento que pode até voltar a acelerar. O senhor disse que teve uma redução e pode voltar a acelerar por conta dos usineiros que querem mais lucros.
Presidente: Esses dias eu disse ao Ministro da Agricultura [ Reinhold Stephanes], disse à ministra Dilma Rousseff [Casa Civil] e disse a dois empresários do setor do álcool que encontrei em São Paulo que agora que já consolidamos o álcool, no mundo, pelo menos conceitualmente como uma matriz energética de qualidade excepcional, é preciso que a gente dê o segundo passo para discutir a humanização do setor da cana neste país, estabelecer uma discussão com os empresários e com os trabalhadores para humanizar, para criar melhores condições de trabalho para que as pessoas possam ser profissionais e cidadãos na sua plenitude. Esse é o segundo passo que vamos dar.
Agora, preste atenção em uma coisa: nós temos outros ingredientes a nos preocupar com relação a isso. Nós estamos pensando, e está dentro do PAC [Plano de Aceleração do Crescimento], a construção do aqueduto que sai aqui da região Centro-Oeste e vai até o porto de Santos. Nós estamos vendo projetos e mais projetos, são mais de 76 novas usinas a serem instaladas no país. O biodiesel está crescendo de forma, eu diria, extraordinária, mais do que a gente imaginava que fosse crescer. Nós imaginávamos que iríamos chegar em 2008 a 840 milhões de litros de biodiesel produzidos, que é a quantidade necessária para introduzir o B-2 no óleo diesel, e já atingimos essas metas agora, numa demonstração de que, quando a coisa é boa, ela foge do controle esquemático, porque muita gente quer produzir. O que estamos discutindo, agora, com a Petrobras? Nós precisamos dar dois passos. Nós precisamos estabelecer uma espécie, eu diria, de estoque regulador do álcool no Brasil, porque na medida em que a gente começa a fornecer o álcool para outros países do mundo, aumenta a nossa responsabilidade, ou seja, para convencer um país a introduzir o etanol na sua matriz energética, você precisa garantir o suprimento, você não pode brincar.
Na hora em que você também convence o mundo a introduzir o biodiesel, você precisa ter empresas que façam o controle do estoque regulador e ninguém mais competente do que a Petrobras para isso. Ao mesmo tempo, nós precisamos tomar cuidado para não permitir que gente de outros países do mundo comece a comprar toda a terra brasileira para produzir cana. Então, tudo isso são coisas que temos que cuidar daqui para a frente, ao mesmo tempo em que vamos cuidar da humanização do capital.
Na questão do biodiesel, esta semana teve uma reunião da qual eu não pude participar. Eu pedi para a Dilma convocar uma reunião porque como é um programa novo, nós não podemos permitir no biodiesel que a gente cometa os mesmos erros que foram cometidos na cana-de-açúcar durante muito tempo neste país. Nós temos estados em que a coisa está mais ou menos organizada, nós temos cidades em que os sindicatos têm um peso maior e temos cidades em que o sindicato está fragilizado.
Então, o que nós precisamos agora é fazer a discussão que temos que fazer. Antes a gente não podia, porque ora parecia que o setor estava quebrado, ora parecia que não estava. Vocês estão lembrados que a gente não produzia mais nenhum carro a álcool. Agora, com o sucesso do flex-fuel [carros bicombustíveis] e a certeza de que o álcool virou uma matriz energética definitiva neste país, e pode vir a ser em outros países do mundo, sem querer forçar... se alguém tiver muito petróleo e quiser utilizar petróleo, tudo bem, não tem nenhum problema, nós não queremos que as pessoas deixem de utilizar petróleo, o que nós queremos dizer é o seguinte: querem despoluir o planeta? Querem diminuir o aquecimento do planeta? Querem melhorar a qualidade do ar? Usem combustível renovável e o Brasil quer ser parceiro de vocês. Por isso eu, com muito orgulho, sou garoto propaganda disso. Eu vou ao G-8 agora, e quando eles abrirem a boca para discutir a questão do aquecimento global, eu vou estar lá com o meu pacotinho de biodiesel e de álcool para dizer: estão aqui, vocês querem diminuir, estão aqui o pinhão manso, a mamona, a soja, o caroço de algodão, o caroço de dendê. Não vai faltar motivação para eles adotarem uma outra política energética no mundo.
Jornalista Marcos Roberto Silva, Rede TV!: Agora, presidente, para garantir que essa mão-de-obra tenha a segurança de que não vai ter mão-de-obra escrava, é possível que o governo envie para o Congresso alguma medida, algum projeto de lei para ser discutido?
Presidente: Primeiro, seria ótimo que fosse resolvido entre os sindicatos de trabalhadores e os empresários. Se isso não for resolvido, o governo pode ser o indutor dessas conversas. Segundo, se tiver algum problema, tem que ter a fiscalização do Ministério do Trabalho. Se for necessário fazer uma lei, nós mesmo proporemos a lei, o movimento sindical propõe ou a bancada de sustentação propõe, mas o que eu vou te dizer é isso: nós vamos abrir uma nova etapa de discussão para humanizar o mundo do trabalho no setor do álcool e do açúcar no Brasil.
Jornalista Marcos Roberto Silva, Rede TV!: Obrigado, presidente.
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da Folha OnlineLeia abaixo a segunda parte da entrevista coletiva concedida nesta terça-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva:
6. Jornalista Guilherme Menezes, SBT: Bom dia, presidente. O assunto ainda é a sucessão. O senhor acaba de dizer que tem mais de três anos de mandato pela frente. O segundo mandato mal começou, mas a gente sabe que em política, quem não faz estratégia não colhe lá na frente, e o senhor, com certeza, não vai abrir mão do seu papel de líder político e de querer influenciar a política brasileira, ninguém tem dúvida disso. Então, a pergunta que eu faço é a seguinte: o senhor estaria disposto ou o senhor acha que um presidente eleito pelo PT está obrigado a apoiar um candidato do PT ou o apoio do senhor poderia estar ligado à lógica da montagem da sua base política que privou o PT de algum espaço para beneficiar os aliados? Quem o senhor vai apoiar, na medida em que o senhor descartou a possibilidade da terceira eleição?
Presidente: Primeiro, nenhum partido privou o PT de algum espaço. O PT tem o privilégio de ter o cargo mais importante da República, que é o de presidente, mais do que isso é querer muita coisa. Além disso, todos os partidos participam do governo em função da proporcionalidade da sua representação na sociedade brasileira, e o candidato que sairá da base deverá ser discutido entre todos os partidos que compõem a base. Eu digo sempre o seguinte: eu quero terminar o meu mandato em 2010 na condição daquele que os candidatos chamem para ir para o palanque, porque é duro você terminar um mandato e ninguém te chamar para nada, as pessoas te esconderem, fingirem que você não é do partido, não citarem o seu nome, não o convocarem para a televisão. Eu quero ser um presidente diferente. Quando chegar a eleição de 2010, eu quero estar tão afiado que as pessoas vão pedir para eu ir ao palanque: "Vamos lá Lula, vamos fazer um comiciozinho, não sei das quantas". É assim que eu quero terminar o meu mandato e é para isso que eu vou trabalhar. A base vai ter um candidato e esse candidato, na minha opinião, deve ser tirado de um consenso da base para que a gente possa disputar as eleições.
Jornalista Guilherme Menezes, SBT: Não precisa ser alguém do PT?
Presidente: Necessariamente não. Se eu estou dizendo que é um candidato da base, e a base tem vários partidos políticos, vai ser um candidato da base, de dentro da base. Hoje a gente erra só se quiser, porque você tem pesquisa, você tem estudo científico que pode dizer: olha, quem tem mais possibilidade é esse, quem tem possibilidade de crescer é esse, quem vai crescer é aquele, e preparar o tipo de discurso que as pessoas têm que fazer. Hoje, uma campanha tem métodos científicos importantes. E eu acho que nós estamos numa condição favorável.
O que eu posso dizer para vocês é que toda a minha expectativa e tudo o que eu acredito que vai acontecer é que nós terminaremos o segundo mandato numa condição eminentemente mais favorável do que terminamos o mandato de 2006. E o Brasil estará economicamente, politicamente e socialmente infinitamente melhor do que esteve em 2006. Portanto, as condições serão muito mais favoráveis. Obviamente que sempre haverá alguém jogando uma casca de banana, sempre haverá alguém jogando uma pedra, mas isso faz parte da política. O que eu preciso é colocar um sapato com umas travinhas para não escorregar nas cascas de banana que me jogam todo santo dia. Eu também aprendi muito, também fiquei calejado, também aprendi a saber quem é quem na política brasileira e acho que por isso eu estou mais tranqüilo para fazer as coisas corretas.
Jornalista Guilherme Menezes, SBT: O senhor faz sucessor?
Presidente: Meu Deus do céu, eu esqueci de perguntar para o papa, mas eu posso dizer para vocês que eu quero fazer o sucessor, e por uma razão muito simples: porque eu quero que tenha continuidade o que nós estamos fazendo no país. Só isso. Eu trabalho para fazer. Agora, entre trabalhar para fazer e dizer que vou fazer, não tenho esse poder.
7. Jornalista Leandro Fortes, Carta Capital: presidente, bom dia. Sobre esse hábito de coalizão ao qual o senhor se referiu, eu queria lhe fazer uma pergunta específica sobre isso. No início do segundo mandato, o senhor trouxe para o governo, por exemplo, o deputado Geddel Vieira Lima, que lhe desancava sem maiores pudores durante a crise política do mensalão em 2005/2006. Recentemente o senhor surpreendeu a todos trazendo também o professor Mangabeira Unger, que não só lhe desencava publicamente como também escreveu um artigo pedindo o seu impeachment, por nomeá-lo, designá-lo como chefe do governo mais corrupto da história. Então, eu lhe pergunto: essa coalizão feita nesses termos, essa coalizão feita a qualquer custo, levada, enfim, a todas as conseqüências por conta da governabilidade, do exercício da governabilidade, primeiro, se ela lhe provoca algum desconforto em relação a esses nomes. E, segundo, se o senhor não acha que isso vai acabar lhe criando mais problemas do que soluções, ao longo do seu mandato.
Presidente: Uma coisa importante que temos que meditar é se nós, cidadãs e cidadãos brasileiros, respeitamos o resultado das eleições ou se vamos ficar discordando, porque as pessoas que nós queríamos que fossem eleitas não foram. O presidente da República, no exercício do seu mandato, não governa com as forças que gostaria de governar, ele governa com as forças vivas que compõem as organizações políticas da sociedade civil e dos partidos políticos. Isso vale para um prefeito, vale para um governador e vale para o presidente da República.
Segundo, obviamente que quando você faz aliança política, ela tem preço, e eu vou lhe dar um exemplo. Eu perdi três eleições, e cada eleição que eu perdia, eu perdia por 15%. Chegou um dia em que alguém me convenceu de que eu não precisava mais ficar fazendo discurso para agradar o PT, que eu não precisava mais ficar fazendo discurso para agradar os 30% ou 35% que eu tive em todas as eleições. Era preciso que eu me preparasse para ter do meu lado os 15% que faltavam. E eu me preparei e ganhei a eleição. Da mesma forma, na hora em que você vai montar a coalizão, eu não fiz acordo com pessoas individualmente, eu fiz acordo com partidos políticos e, portanto, cabe ao partido político indicar as pessoas que vão fazer parte do governo, desde que as pessoas --e todo mundo que é indicado passa por um critério que pode ter ou não problema-- estejam aptas para exercer a sua função.
Ora, eu queria fazer a coalizão porque queria o PMDB como um todo e não o PMDB fracionado. Eu queria o PMDB na sua totalidade, com os seus deputados, com os seus senadores e com a direção do partido. Eu não queria um PMDB que tivesse 40 deputados de um lado, 40 deputados do outro, 10 senadores de um lado, 10 senadores do outro. Eu queria o todo do PMDB, como eu quero o todo do PR, como eu quero o todo do PRTB, e assim a gente monta o governo. Se essas pessoas forem me dar problema, as do PT e as que não são do PT, os partidos irão tomar posições em relação a elas. Até agora todas estão a contento. O fato de a pessoa ter sido contra o presidente da República em outro período, ela tinha que ser contra porque não fazia parte da coalizão. Agora, ela faz parte da coalizão e você vai ver essa pessoa, pelo Brasil afora, defendendo o governo e defendendo o presidente Lula. A mesma coisa, o Mangabeira Unger, que vem para um trabalho específico de pensar este país para o ano de 2022, que é o ano em que a gente completa 200 anos de Independência. Eu pretendo apresentar um projeto para o Brasil, quero mandar esse projeto para a Câmara dos Deputados e para o Senado para que seja votado e possa parecer quase que uma espécie de constituinte de obras. Qualquer pessoa que vier a governar este país, poderá fazer a obra que lhe der na cabeça, mas tem aquelas obras que são prioritárias, são necessárias para o país.
Ora, na medida em que o partido do Mangabeira Unger, que tinha o vice-presidente da República e tem o vice da República, o indica para uma função que eu queria criar, ótimo. Vamos ver o que o Mangabeira vai fazer daqui para frente, vamos ver o que os ministros vão fazer daqui para frente. O que fizeram para trás, faz parte do passado.
A segunda coisa, meu querido, é a seguinte: muita gente vai engolir o que disse do governo, com muita tranqüilidade. Nada como um pouco do passar do tempo para as coisas irem se assentando. E todo ser humano é plausível de erro. As pessoas podem errar. Eu já fiz julgamento precipitado de quantas coisas? Eu me lembro que quando o Sarney lançou a Ferrovia Norte-Sul, eu me esgoelava no Congresso Nacional contra a Ferrovia Norte-Sul, eu e outras pessoas. Tanto é verdade que ela ficou, de 1987 até agora, com apenas 215 quilômetros construídos. Eu, que era contra em 1987, já fiz em quatro anos mais do que todos os presidentes que começaram em 1987.
Então, eu penso que o ser humano é assim: nós falamos uma coisa hoje, amanhã percebemos que estamos errados e humildemente temos que reconhecer que erramos, pedir desculpas do que fizemos, fazer autocrítica e tocar o barco para frente. O que a gente não pode é ficar com o passado como se fosse uma espada na cabeça das pessoas, sem permitir que elas possam evoluir.
Esses dias eu peguei um estudo sobre o que diziam da hidrelétrica de Itaipu. Se vocês puderem, peçam aos dirigentes de Itaipu para mandar, e vocês vão ver que coisa fantástica. Lá estão dizendo que vai ter tremor, lá estão dizendo que vai aumentar a ventania, lá estão dizendo que vai acontecer uma série de coisas que não aconteceram desde 1974. Então, na política é a mesma coisa. As pessoas dizem uma coisa hoje, amanhã têm que reconhecer que erraram. E eu acho que, graças a Deus, o mundo é assim. Graças a Deus, nós temos inteligência para não ser os donos da verdade e ser uma espécie de metamorfose ambulante, mudando sempre, nos aprimorando sempre, para melhorar sempre. O que eu posso te garantir é que eu continuo, hoje, o mesmo Lula de janeiro de 2003.
8.Jornalista Paulo de Tarso, Valor Econômico: presidente, bom dia. Um dos cenários econômicos que parece consolidado é a questão do câmbio. Com o dólar a cerca de R$ 2, e com a classificação do Brasil como "investment grade", a tendência é que o real fique ainda mais valorizado perante a moeda americana. A nossa pergunta é: que medidas o governo vai apresentar aos empresários brasileiros que estão perdendo competitividade no exterior, com esse cenário?
Presidente: Primeiro, se eu pudesse te responder com essa facilidade toda, eu já teria feito o que tem que ser feito. Primeiro, nós temos que reconhecer uma coisa que o ministro Guido Mantega [Fazenda] disse para vocês, outro dia, em uma entrevista. A gente fica dizendo que o real está valorizado sem reconhecer que o dólar está se desvalorizando diante de quase todas as moedas do mundo. Segundo, nós não podemos resolver o problema do câmbio como alguns querem que a gente resolva: "Ah, cria o câmbio para agricultura, cria o câmbio-soja, o câmbio-automóvel, o câmbio-parafuso", não dá. O câmbio vai continuar sendo flutuante e vai se ajustar. Já faz algum tempo que ele está na casa dos 2% e vai se ajustar.
O que nós precisamos é ter medidas tributárias para que a gente possa permitir que as empresas brasileiras que produzem e competem com um produto, normalmente chinês, no mercado internacional e estão perdendo competitividade, possam ter mais competitividade. Ao mesmo tempo, nós temos que incentivar essas empresas a adotarem inovação tecnológica, porque seremos mais competitivos com mais tecnologia moderna. É isso que temos que fazer. O dólar vai se ajustar na medida em que a gente comece a importar mais bens de capital, na medida em que a gente comece a reduzir a taxa de juros, que está sendo reduzida e vai continuar sendo reduzida. Agora, não tem milagre.
Eu quero dizer para as pessoas que estão perdendo competitividade que o governo fará a sua parte. O governo pode aumentar a alíquota de produtos importados, pela OMC [Organização Mundial do Comércio] nós poderemos chegar até 35% na taxação de determinados produtos. Já fizemos isso no setor têxtil, poderemos fazer para outros setores. Nós poderemos criar políticas para estudar a desoneração de alguns setores aqui dentro, mas não tem como o governo, num passe de mágica, dizer: "olha, para esse setor sobreviver, o dólar vai ser tanto". Não tem, o que nós precisamos saber é que não estamos competindo com a Alemanha ou com os Estados Unidos, estamos competindo com a China e as condições da China, do ponto de vista da relação trabalho/capital, é muito mais favorável do que a relação aqui dentro do Brasil.
Por isso é que eu votei para que a China fosse transformada em economia de mercado. Por quê? Nós precisamos levar a China para a OMC e fazer com que a China faça um debate junto com todos os demais países que concorrem com ela, o que não pode é a China ficar de fora, do jeito que está hoje. Mas eu estou tranqüilo e acho que o câmbio, veja, não adianta a gente ficar nervoso não, faz seis meses que eu discuto a questão do câmbio neste país, com amplos setores da sociedade, com empresários dos mais diferentes setores, e não tem milagre. De vez em quando eu pergunto para as pessoas: vocês querem o câmbio fixo? Não. Então, meu caro, vamos deixá-lo flutuar. Vamos tratar de ordenar um aumento das importações brasileiras para que a gente tenha menos dólares, a política de juros vai sendo reduzida, nós vamos ter menos dólares. Agora, na medida em que o Brasil vai consolidando a sua economia, podem ficar certos de que nós vamos precisar aprender que mais dólares vão entrar aqui.
Veja que interessante, acabou o tempo em que os homens da economia deste país precisavam correr todo final de ano para Washington (EUA) para conseguir uma migalhazinha do FMI para fechar a nossa conta. Nós, agora, estamos tentando ver como gastar um pouco dessa quantidade de dólar que temos, porque uma reserva de US$ 125 bilhões, um saldo comercial de mais de US$ 40 bilhões, um superávit de conta corrente de mais US$ 14 bilhões, inflação baixa, é tudo o que os brasileiros não estavam preparados e graças a Deus nós conquistamos tudo isso. Agora, é continuar andando sem emoções e sem inventar, fazendo o que tem que ser feito.
Paulo de Tarso: Mas tem prazo para essas medidas, presidente?
Presidente: Não, não tem prazo. Veja, essas coisas nós vamos discutindo. Veja que nós estamos discutindo desoneração. Nesses últimos meses, você vai perceber que até o final de 2006 nós desoneramos praticamente R$ 22 bilhões neste país. A construção civil não estaria crescendo como está se nós não tivéssemos adotado um pacote para a construção civil. Nós acreditamos que com o PAC, com outras medidas que vamos tomar, a economia vai crescer ainda mais, nós vamos gastar um pouco dos dólares que temos aí. Se antes a gente corria atrás para pegar dólar, e o banco tinha que vender dólar para baixar o preço, hoje nós estamos comprando para o dólar não baixar e estamos comprando muitos dólares. Eu quero que a gente, ao invés de ficar comprando dólares, aumente a importação de bens de capital para modernizar a indústria nacional. É isso que vai dar à indústria nacional competitividade, para que a gente possa disputar com os mercados mais desenvolvidos.
9. Jornalista Jorge Svartzman, Agência France Presse: Bom dia, presidente. Eu ouvi muitas vezes o senhor falar, dizer que o Brasil não é um país imperialista, mas temos o Evo Morales, que lidera simbolicamente a ocupação das usinas da Petrobras; temos o presidente Fidel Castro e Hugo Chávez, que consideram o plano do biocombustível bom só para os monopólios; temos líderes no Paraguai, que consideram que o Brasil pega energia barata de Itaipu. Então, eu queria saber como o senhor avalia essas atitudes e se considera que elas podem ameaçar ou enfraquecer a integração regional, nos termos que o senhor a concebe.
Presidente: Você poderia falar dos líderes brasileiros que também não concordam com muitas coisas que o Brasil faz. Você poderia dizer que, entre Argentina e Brasil, tem argentino que não gosta do Brasil e tem brasileiro que não gosta da Argentina. Você poderia pegar 500 exemplos de coisas para mostrar que nós temos problemas, mas isso também faz parte do processo democrático.
Historicamente esses países todos viram o Brasil como um país imperialista, ou seja, é o maior país do continente, a maior economia do continente, o país mais desenvolvido. Então, era normal que os países de menor poder econômico e de menor desenvolvimento vissem no Brasil uma espécie de imperialista, ou seja, tudo o que acontece de ruim é culpa do Brasil.
Quando chegamos à Presidência da República e, logo em seguida, foi eleito o Kirchner, foi eleito o Nicanor, e foram eleitos outros presidentes da América do Sul, estabelecemos entre nós a idéia de que era preciso construir uma outra dimensão da política de integração para a América do Sul, de que gostaríamos de construir uma parceria e não uma hegemonia, mas também não poderíamos esquecer os problemas que temos. Veja, por exemplo, os problemas das divergências entre a Argentina e o Uruguai, e nem por isso eles deixam de ser dois países irmãos. Afinal de contas, são quantos milhões de uruguaios que moram na Argentina? São 400 mil brasileiros que moram no Paraguai, são 100 mil bolivianos que moram no Brasil.
Então, nós temos que levar em conta a existência de algo que supere as nossas divergências do século 21, para que a gente possa construir as convergências do século 21. Isso está claro. Agora, o fato de isso estar claro no nosso discurso não me faz cego diante da necessidade histórica da Bolívia ser dona do seu gás. É importante lembrar que não foi decisão do Evo Morales. Antes do Evo tomar posse, um plebiscito na Bolívia, com mais de 90%, decidiu que o gás seria nacionalizado. Na hora em que o Evo achou que era importante comprar a refinaria da Petrobras, a Petrobras resolveu vender e fizeram um acordo, para mim está tranqüilo. Eu acho que a riqueza mineral da Bolívia é da Bolívia, ele a vende para nós se quiser vender. Nós temos contrato. O que eu quero é que quando estabelecermos um contrato, esse contrato seja respeitado. E não é um problema com o Brasil. Veja que o problema que acontece com o Brasil acontece com a Argentina e acontece, na seqüência, com o Chile, porque na hora em que falta gás na Argentina, falta gás no Chile. Na hora em que fecha o gás no Brasil, é só o Brasil que é prejudicado.
Até agora não temos problema com o gás da Bolívia, até agora o Brasil está recebendo, o Brasil está trabalhando dentro do Plangás para que o Brasil seja auto-suficiente na produção de gás. E vamos manter a nossa relação com a Argentina, com o Paraguai.
Eu viajei, esses dias, quatro horas com o presidente Nicanor, e eu dizia a ele: "é importante ter em conta que um tratado internacional, ou nós o respeitamos ou, na hora em que a gente começar a quebrar esses tratados internacionais, a relação entre Estados ficará difícil de ser feita". Agora, eu não posso impedir que as pessoas encontrem um culpado para os seus problemas.
Durante muito tempo, todo discurso que eu fazia era de que o imperialismo americano era o responsável pela minha pobreza, o imperialismo americano era responsável pelo meu analfabetismo. E, de repente, eu descobri que o problema não é do imperialismo desse ou daquele, o problema é do imperialismo da nossa elite, que durante séculos governou os países deste continente e não fez nenhuma política de distribuição de riqueza, não pensou o desenvolvimento do país e não fez os investimentos necessários. Então, para que ficar culpando os outros, se a gente poderia olhar para dentro do nosso umbigo e perceber que o defeito está em nós mesmos?
Jornalista Jorge Svartzman, Agência France Presse: A impressão é de que essa posição foi ouvida pelos seus interlocutores, pelo Chávez, pelo Evo Morales?
Presidente: Veja, eu não tenho ilusão de que essas compreensões são demoradas. O Chávez tem sido um parceiro inestimável do Brasil, sob todos os aspectos. O fato de alguém se posicionar contra o biocombustível é um problema de quem se posiciona contra. O Chávez é comprador de etanol do Brasil, como outros países serão compradores de etanol de outros países do mundo. Quando eu penso no biodiesel e no etanol, fico olhando o Nordeste brasileiro, fico olhando o Vale do Jequitinhonha, fico olhando os países da América Central, que serão os beneficiários de uma nova matriz energética. Mas a minha cabeça fica voltada para o continente africano, porque é a grande chance de o continente africano se desenvolver, na hora em que o mundo desenvolvido resolver introduzir 10% ou 15% de álcool na gasolina, ou introduzir, nos seus caminhões e nos seus carros, o óleo diesel produzido de oleaginosa, já que somente nós temos terra, sol e gente para trabalhar. Isso é quase um milagre, e eu acho que o mundo vai se curvar diante disso.
Eu, agora, vou para o G-8 [os sete países mais ricos do mundo e a Rússia], e a discussão lá é sobre o aquecimento global. Então, vamos desaquecer o planeta utilizando mais álcool e mais biodiesel, vamos desaquecer o planeta plantando mais girassol, plantando mais mamona, plantando coisas que possam significar o seqüestro de carbono, porque até agora, o dinheiro que prometeram para os países pobres, não deram. O Brasil não aceita lição porque o Brasil tem a ensinar. Nós, em 2 anos, reduzimos o desmatamento na Amazônia em 52%, e vamos continuar diminuindo o desmatamento porque a Amazônia, não só é nossa, como queremos que ela seja preservada na sua maioria, porque é de interesse soberano deste País. Mas tem outro remédio: se as empresas quiserem deixar de utilizar combustível fóssil e utilizar combustível vegetal, os países pobres do mundo estão de braços abertos oferecendo terra, água, sol, tecnologia e mão-de-obra qualificada para que a gente possa mudar o planeta.
10. Jornalista Marcos Roberto Silva, Rede TV!: Bom dia, presidente. A respeito do crescimento do plantio da cana-de-açúcar para produção do etanol, eu queria saber como o governo brasileiro vai agir para evitar a exploração da mão-de-obra escrava que, atualmente, é utilizada nessas lavouras, a queimada da cana antes do corte, que acaba provocando o fechamento de aeroportos pelo país afora, e exatamente como conter esse desmatamento que pode até voltar a acelerar. O senhor disse que teve uma redução e pode voltar a acelerar por conta dos usineiros que querem mais lucros.
Presidente: Esses dias eu disse ao Ministro da Agricultura [ Reinhold Stephanes], disse à ministra Dilma Rousseff [Casa Civil] e disse a dois empresários do setor do álcool que encontrei em São Paulo que agora que já consolidamos o álcool, no mundo, pelo menos conceitualmente como uma matriz energética de qualidade excepcional, é preciso que a gente dê o segundo passo para discutir a humanização do setor da cana neste país, estabelecer uma discussão com os empresários e com os trabalhadores para humanizar, para criar melhores condições de trabalho para que as pessoas possam ser profissionais e cidadãos na sua plenitude. Esse é o segundo passo que vamos dar.
Agora, preste atenção em uma coisa: nós temos outros ingredientes a nos preocupar com relação a isso. Nós estamos pensando, e está dentro do PAC [Plano de Aceleração do Crescimento], a construção do aqueduto que sai aqui da região Centro-Oeste e vai até o porto de Santos. Nós estamos vendo projetos e mais projetos, são mais de 76 novas usinas a serem instaladas no país. O biodiesel está crescendo de forma, eu diria, extraordinária, mais do que a gente imaginava que fosse crescer. Nós imaginávamos que iríamos chegar em 2008 a 840 milhões de litros de biodiesel produzidos, que é a quantidade necessária para introduzir o B-2 no óleo diesel, e já atingimos essas metas agora, numa demonstração de que, quando a coisa é boa, ela foge do controle esquemático, porque muita gente quer produzir. O que estamos discutindo, agora, com a Petrobras? Nós precisamos dar dois passos. Nós precisamos estabelecer uma espécie, eu diria, de estoque regulador do álcool no Brasil, porque na medida em que a gente começa a fornecer o álcool para outros países do mundo, aumenta a nossa responsabilidade, ou seja, para convencer um país a introduzir o etanol na sua matriz energética, você precisa garantir o suprimento, você não pode brincar.
Na hora em que você também convence o mundo a introduzir o biodiesel, você precisa ter empresas que façam o controle do estoque regulador e ninguém mais competente do que a Petrobras para isso. Ao mesmo tempo, nós precisamos tomar cuidado para não permitir que gente de outros países do mundo comece a comprar toda a terra brasileira para produzir cana. Então, tudo isso são coisas que temos que cuidar daqui para a frente, ao mesmo tempo em que vamos cuidar da humanização do capital.
Na questão do biodiesel, esta semana teve uma reunião da qual eu não pude participar. Eu pedi para a Dilma convocar uma reunião porque como é um programa novo, nós não podemos permitir no biodiesel que a gente cometa os mesmos erros que foram cometidos na cana-de-açúcar durante muito tempo neste país. Nós temos estados em que a coisa está mais ou menos organizada, nós temos cidades em que os sindicatos têm um peso maior e temos cidades em que o sindicato está fragilizado.
Então, o que nós precisamos agora é fazer a discussão que temos que fazer. Antes a gente não podia, porque ora parecia que o setor estava quebrado, ora parecia que não estava. Vocês estão lembrados que a gente não produzia mais nenhum carro a álcool. Agora, com o sucesso do flex-fuel [carros bicombustíveis] e a certeza de que o álcool virou uma matriz energética definitiva neste país, e pode vir a ser em outros países do mundo, sem querer forçar... se alguém tiver muito petróleo e quiser utilizar petróleo, tudo bem, não tem nenhum problema, nós não queremos que as pessoas deixem de utilizar petróleo, o que nós queremos dizer é o seguinte: querem despoluir o planeta? Querem diminuir o aquecimento do planeta? Querem melhorar a qualidade do ar? Usem combustível renovável e o Brasil quer ser parceiro de vocês. Por isso eu, com muito orgulho, sou garoto propaganda disso. Eu vou ao G-8 agora, e quando eles abrirem a boca para discutir a questão do aquecimento global, eu vou estar lá com o meu pacotinho de biodiesel e de álcool para dizer: estão aqui, vocês querem diminuir, estão aqui o pinhão manso, a mamona, a soja, o caroço de algodão, o caroço de dendê. Não vai faltar motivação para eles adotarem uma outra política energética no mundo.
Jornalista Marcos Roberto Silva, Rede TV!: Agora, presidente, para garantir que essa mão-de-obra tenha a segurança de que não vai ter mão-de-obra escrava, é possível que o governo envie para o Congresso alguma medida, algum projeto de lei para ser discutido?
Presidente: Primeiro, seria ótimo que fosse resolvido entre os sindicatos de trabalhadores e os empresários. Se isso não for resolvido, o governo pode ser o indutor dessas conversas. Segundo, se tiver algum problema, tem que ter a fiscalização do Ministério do Trabalho. Se for necessário fazer uma lei, nós mesmo proporemos a lei, o movimento sindical propõe ou a bancada de sustentação propõe, mas o que eu vou te dizer é isso: nós vamos abrir uma nova etapa de discussão para humanizar o mundo do trabalho no setor do álcool e do açúcar no Brasil.
Jornalista Marcos Roberto Silva, Rede TV!: Obrigado, presidente.
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