Pesquisa classifica forró abaixo de tecno
Publicidade
REINALDO JOSÉ LOPESda Folha de S.Paulo
Não dá mais para negar: ao menos matematicamente, alguns tipos de música são mesmo puro bate-estaca. De acordo com um grupo de pesquisadores no Brasil e nos EUA, há uma clara hierarquia na complexidade rítmica dos estilos musicais, com os clássicos no topo da escala e o forró e o tecno lá embaixo --tudo medido com o rigor da física estatística.
A equipe não afirma que um ritmo é melhor que o outro, apressa-se a dizer Madras Viswanathan Gandhi Mohan, 34, do Departamento de Física da Ufal (Universidade Federal de Alagoas). É só uma questão de finalidade, diz o físico indiano naturalizado brasileiro: "Para dançar bem, é necessário que a música tenha complexidade rítmica baixa".
O trabalho coordenado por Gandhi, como prefere ser chamado, e por sua mulher, a musicista americana Heather Dea Jennings, é um dos primeiros a achar uma base objetiva para as diferenças entre os estilos musicais, que qualquer ser humano com audição normal consegue perceber.
Por causa do trabalho acadêmico de sua mulher, que também trabalha na Ufal, o físico acabou se envolvendo na busca por traços universais na música criada pelos povos da Terra, e por maneiras de entender a diversidade de tradições musicais. "Começamos a pensar em maneiras de estudar quantitativamente a música", conta o pesquisador.
Por sorte, a especialidade de Gandhi é justamente a análise estatística de variáveis ao longo do tempo --como valores da cotação do dólar, temperaturas ou, por que não, trechos de música. Para esmiuçar as diferenças entre cada estilo musical, ele e seus colegas decidiram analisar a variação de volume ao longo de um determinado trecho.
Volume concentrado
A idéia por trás da abordagem é relativamente simples: a batida que marca o ritmo de uma música tenderia a ganhar volume mais alto, o que ajudaria a desenhar o perfil rítmico daquele estilo. Acontece, no entanto, que análises anteriores não tinham conseguido extrair muita informação do som da música em si. Os pesquisadores decidiram, então, usar apenas a variação do volume (em decibéis), em vez das próprias músicas, para o estudo.
O ajuste fez toda a diferença, diz Gandhi. Com o auxílio de uma técnica conhecida como DFA, usada para extrair padrões de dados complicados em áreas como a economia e a genética, os pesquisadores se puseram a analisar a variação de decibéis em trechos de quatro minutos de música.
Os artistas escolhidos podiam ser compositores clássicos (como Mozart e Beethoven), músicos tradicionais javaneses e indianos, jazzistas (Billie Holiday e John Coltrane), pagodeiros (Só Pra Contrariar), roqueiros nacionais (Legião Urbana) e internacionais (Metallica, Offspring, Iron Maiden), divas new age (Enya e Loreena McKennit) e bandas de forró (Mastruz com Leite).
"A seleção foi mais ou menos arbitrária, baseada nos CDs que nós tínhamos à mão. Por isso nem pensamos em incluir músicas japonesas, chinesas ou dos indígenas brasileiros, por exemplo. Foi mais para testar o conceito", explica Gandhi. Prova disso é que Só Pra Contrariar e as baladas do Legião Urbana acabaram caindo na categoria MPB, classificação bem mais liberal do que a preferida pelos críticos musicais.
Problemas classificatórios à parte, o fato é que um intrigante padrão emergiu da análise dos dados. Um valor indicado pela letra grega alfa dava aos pesquisadores uma estimativa da complexidade rítmica de cada estilo --em linhas gerais, de quão variável ao longo do tempo era a concentração de decibéis que marcava a batida do ritmo. O estilo mais simples, nesse sentido, é o forró, seguido de perto pelo tecno. Rock, jazz e MPB teriam complexidade média, enquanto as músicas tradicionais e a clássica têm o ritmo mais imprevisível.
Gandhi, no entanto, diz que a coisa pode ser mais complexa --sem trocadilhos. "Um estilo como a valsa, que pertence à tradição clássica, mas é para ser dançado, intuitivamente se aproximaria do forró e do tecno", especula o físico.
Os achados da equipe, aceitos para publicação no periódico especializado "Physica A" (www.elsevier.nl/locate/physa), chamaram tanto a atenção que viraram destaque do site da prestigiosa revista científica britânica "Nature" (www.nature.com).
"Como é o nosso primeiro trabalho nessa área, decidimos tentar publicá-lo primeiro num periódico mais específico", diz o pesquisador.
No entanto, o artigo certamente não é o último grupo sobre o assunto. Gandhi diz que o próximo desafio da equipe é estudar a melodia nos estilos musicais.


