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13/05/2005 - 09h31

Hanseníase surgiu na África, sugere DNA

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REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo

Em algum lugar da atual Etiópia, há mais de 5.000 anos, um micróbio aparentemente capenga, com metade de seus genes inutilizados, conseguiu infectar pela primeira vez um ser humano. Não parece um começo muito promissor, mas o invasor microscópico acabaria se tornando o terror de reis e mendigos desde a Antigüidade: é a bactéria da hanseníase (antes conhecida como lepra), cujo avanço ao longo das eras uma equipe internacional de cientistas acaba de desvendar.

O trabalho, publicado na edição de hoje do periódico científico "Science", usou as pouquíssimas diferenças genéticas que existem entre as variantes do micróbio, conhecido como Mycobacterium leprae, para desafiar a teoria de que ele teria surgido na Índia.

Segundo essa tese, os culpados por espalhá-lo pelo mundo seriam os soldados de Alexandre, o Grande (século 4º a.C.), que invadiram a região e depois voltaram para o Oriente Médio e a Europa.

Contudo, segundo a equipe, liderada por Marc Monot e Stewart Cole, do Instituto Pasteur (França), o mais provável é que o berço da moléstia seja mesmo o leste da África, ou talvez o Oriente Médio. Mais tarde, seu avanço teria tomado simultaneamente as rotas ocidental e oriental, chegando às Américas e à África no organismo dos colonizadores europeus.

Mas o dado mais bizarro derivou da dificuldade de achar variantes genéticas entre as M. leprae de 21 países que entraram na análise: é como se todas as bactérias fossem clones, tamanha é a semelhança entre uma linhagem e outra.

"Isso pode ser explicado devido ao seu tempo de geração extremamente longo, 13 dias, o que se reflete numa população total de bactérias muito baixa, limitando a diversidade genética", disse Monot à Folha, por e-mail.

É claro que 13 dias parece uma taxa reprodutiva de fazer inveja a qualquer coelho, mas em termos bacterianos é passo de tartaruga --e não abre muito espaço para as numerosas mutações que caracterizam as demais bactérias.

De quebra, o genoma da M. leprae é literalmente manco: nada menos que 50% de seus genes viraram "pseudogenes" --pedaços de DNA que até parecem servir para alguma coisa, mas não são mais traduzidos em proteínas úteis para a bactéria.

"Realmente, é um paradoxo que ele tenha conseguido se espalhar tanto", diz o médico Marcos Virmond, do Instituto Lauro de Souza Lima, em Bauru (SP). "É como uma máquina muito simples: é mais difícil você perturbar o funcionamento dela do que o de uma mais complexa, porque ela tem poucas peças que podem ser mexidas. Por ser muito primitiva, ela é muito robusta [resistente a erros]", diz.

O pesquisador também assina o estudo e forneceu aos colegas franceses amostras brasileiras da bactéria. Segundo ele, tudo indica que esse processo evolutivo minimalista tenha tornado a M. leprae um micróbio completamente adaptado ao organismo humano --tanto que é difícil cultivá-la em laboratório ou em animais. O único outro mamífero que consegue abrigá-la é o tatu-galinha (Dasypus novemcinctus).

Depois de quebrar a cabeça atrás de variações, os pesquisadores acharam alguns SNPs (pronuncia-se "snips"; a sigla quer dizer "polimorfismos de nucleotídeos únicos" em inglês). São trocas de apenas uma "letra" do alfabeto químico do DNA (formado pelas letras A, T, C e G).

Com base nessas diferenças minúsculas, eles classificaram o M. leprae em quatro tipos. "Esse pequeno número de permutações permite uma classificação desses tipos por mutação sucessiva", explica Monot.

Olhando para a troca de letras, dá para estimar qual transformação ocorreu primeiro e quais se seguiram a ela. Com base nesse critério, o tipo 2 é considerado o mais provável ancestral dos outros. No Brasil, predomina o 3 (europeu) e o 4 (provavelmente oriundo dos escravos da África Ocidental).

O momento em que ocorreu a primeira infecção ainda não pode ser estimado com exatidão: algo entre 5.000 e 50 mil anos atrás, dizem os pesquisadores.

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