Cientistas acham ossos em Joinville e vão estudar mortes na pré-história
JULIANO NUNES
Colaboração para a Folha Online
Foram encontrados na tarde desta segunda-feira (14) as primeiras ossadas que vão ajudar a descobrir as causas das mortes na pré-história da costa sul-sudeste brasileira. As escavações são realizadas no sítio arqueológico Cubatão 1, de Joinville, em Santa Catarina, por equipes da Universidade de São Paulo, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e do Museu de Sambaqui da cidade. Os trabalhos começaram no último dia 11 e não têm data certa para terminar.
| Iran Correa |
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| Ossos encontrados durante escavações em Joinville vão ser estudados por cientistas |
O projeto, intitulado "Paleodemografia, saúde e adaptabilidade em populações pré-históricas da Costa sul-sudeste brasileira", é inédito no Brasil e financiado pelo Centre National de la Récherche Scientifique de Paris/França (CNRS), em conjunto com a USP e o Museu de Sambaqui de Joinville. A equipe é composta por dois membros da Fiocruz, sete da USP e número variável do Museu de Sambaqui. Em duas semanas, a equipe da USP será substituída por mais pesquisadores da Fiocruz.
Os ossos encontrados até agora são de dois esqueletos, da cultura sambaquiana. A meta é desenterrar cem deles, o que deveria ser concluído em dois meses, prazo que deverá ser estendido. A segunda etapa será a análise em laboratório, ainda sem previsão para começar.
Segundo um dos chefes da pesquisa, o doutor em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, Levy Figuti, as causas das mortes serão verificadas por marcas nos ossos causadas por anemias, deficiências na alimentação, acidentes, homicídios e desgastes por exercícios repetitivos (como remar), entre outros. Esses exames são feitos visualmente, tendo no máximo o apoio de uma lupa.
Junto dos ossos, são encontrados também vestígios da cultura dos sambaquianos, como restos de objetos, fogueiras e cabanas, sementes, coquinhos etc. Tudo é retirado e documentado.
Agricultura desconhecida
Segundo a arqueológa e diretora do Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville, Dione da Rocha Bandeira, os sambaquianos viveram entre 7 mil a 1 mil anos atrás em toda a costa brasileira, com exceção de pontos no Pará e na Bahia. Eram sedentários e basicamente caçadores, pescadores e coletores. A agricultura ainda não estava na rotina.
Caracterizavam-se pela construção de montes de conchas e moluscos, sem função conhecida. Cogita-se que tinham caráter simbólico. Hoje, esses sambaquis guardam importantes vestígios daquela cultura, inclusive habitações e esqueletos. Bandeira explica que, no sítio arqueológico do Cubatão, "preservaram-se estruturas de madeira ao natural, não queimadas, o que é raro e é um atrativo". As conchas ajudam a conservar os esqueletos, segundo ela.
A descoberta
"Já falei que hoje vou dormir feliz", sorriu Patrícia Fischer, estagiária de arqueologia pelo MAE/USP. Ela e o mestrando em arqueologia pelo MAE/USP Alexandre Hering foram os descobridores de um dos esqueletos. Quando um escavador depara-se com um osso, a parte exposta do material é coberta com plástico, para as imediações do buraco sejam niveladas até ali.
Até ontem, cinco buracos (sondagens) haviam sido realizadas, com profundidade aproximada de meio metro. Os escavadores produzem relatórios de cada sondagem a cada dez centímetros escavados.
O sítio do Cubatão foi escolhido por estar relativamente intacto. Jamais havia sido escavado. O material desenterrado dali será anexado aos estudos sobre esqueletos de outros sítios do país. O acervo desenterrado no Cubatão terá como destino final o Museu de Sambaqui de Joinville.
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