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14/03/2001 - 03h49

Drogas alucinógenas podem ser usadas para tratar doença mental

SANDRA BLAKESLEE, do "The New York Times"

Drogas alucinógenas como o LSD e o peiote -lembradas como os "brinquedos" da geração hippie- estão cada vez mais atraindo o interesse de neurologistas e psiquiatras. Eles querem testar a idéia de que elas podem ser ferramentas valiosas no tratamento de várias doenças mentais.

Cientistas como David E. Nichols, professor de farmacologia em Purdue, Indiana, acreditam que o potencial dessas drogas deve ser investigado.
Especialista em drogas alucinógenas, Nichols conhece relatos de que sintomas de transtorno obsessivo-compulsivo, como lavar as mãos dezenas de vezes por dia, somem sob o efeito da psilocibina, alucinógeno derivado de cogumelos.

A ayahuasca (bebida alucinógena amazônica consumida por seitas religiosas como o Santo Daime e a União do Vegetal) e o peiote (derivado de um cacto) ajudaram alcoólatras a permanecer sóbrios.

Nichols é o fundador do Instituto Heffer de Pesquisas, inaugurado em 1993 e batizado em homenagem a Arthur Heffer, químico do século 19 que foi o primeiro a identificar uma molécula alucinógena, a mescalina, extraída do peiote. O instituto está financiando testes com LSD, psilocibina e outros alucinógenos para tratar fobias, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e mesmo dependência química.

Nichols afirmou que há testes planejados ou em execução na Suíça, na Rússia e nos EUA.

Muitas mudanças aconteceram no meio século que se passou desde que o LSD foi usado pela primeira vez. A psiquiatria moderna acolheu drogas que afetam as mesmas moléculas do cérebro que são atingidas pelos alucinógenos. As ferramentas para estudar a química do sistema nervoso são de longe mais avançadas do que no tempo dos hippies.

Além disso, muitas pessoas que detêm o poder político e científico hoje cresceram durante a década de 60 e, ao contrário de seus pais, não têm medo de alucinógenos.

Aumentando o volume
Essas drogas funcionam mudando os níveis da serotonina, um mensageiro químico do sistema nervoso envolvido na modulação de vários estados cerebrais, como o bem-estar e o apetite.

Antidepressivos como o Prozac também agem na serotonina. Eles fazem com que ela permaneça nos espaços que há entre as células do cérebro. Os alucinógenos são chamados agonistas de serotonina -moléculas parecidas com a serotonina natural que, quando tomadas em doses altas, disparam o sistema serotoninérgico, tornando vários outros sistemas cerebrais mais sensíveis. "É como aumentar o volume do rádio", disse Nichols.

Muito pouco é conhecido sobre como os alucinógenos poderiam ser usados em terapia. "A primeira coisa que queremos saber é se eles são seguros", disse Nichols. John Halpern, psiquiatra do Hospital McLean em Boston, EUA, está tentando responder a essa questão num estudo que envolverá membros da Igreja Nativa Americana. Como parte de rituais religiosos, eles tomam peiote em grupo mas não usam nenhuma outra droga, nem mesmo o álcool.

Usando uma bateria de testes para saúde social e mental, três grupos de
índios americanos -70 membros da igreja, 70 alcoólatras e 70 pessoas de comunidades locais no sudoeste do país- estão sendo acompanhados por até três anos. O objetivo é verificar se usuários de peiote são mais saudáveis do que os outros.

Ayahuasca contra álcool
Estudos parecidos no Brasil mostram que alcoólatras violentos que tomavam ayahuasca num contexto ritual geralmente pararam de beber e tinham níveis mais altos de serotonina no sangue. Isso pode refletir um aumento no nível de serotonina do cérebro.

Francisco Moreno, um psiquiatra da Universidade do Arizona, e seus colegas têm uma permissão do conselho do hospital onde trabalham e esperam aprovação final da FDA (a agência que administra alimentos e remédios nos EUA) para conduzir um estudo sobre transtorno obsessivo-compulsivo e psilocibina.

"Queremos saber se a psilocibina pode mesmo reduzir sintomas e, caso possa, quanto uma pessoa precisa tomar", disse Moreno. Na Universidade
de Zurique, Suíça (país onde foi inventado o LSD), Franz Vollenweider tem permissão do governo para explorar alucinógenos no tratamento da esquizofrenia. "Estamos interessados na natureza da consciência de si próprio que guia o comportamento humano", disse.

"Se os alucinógenos um dia virarem "mainstream" na medicina, e eu tenho certeza de que virarão, eles nunca serão receitados como é o Prozac", disse George Greer, diretor médico do Instituto Heffer. "As pessoas precisarão de orientação. Essas não são drogas que você prescreve todo dia".
 

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