Ciência
14/10/2007 - 11h23

Pesquisadores criticam bancos privados de células-tronco

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EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

Assim como aplicar na Bolsa de Valores tem o seu risco, guardar as células-tronco do cordão umbilical de uma criança que acaba de nascer não significa fazer um seguro de vida, necessariamente. Entre o marketing agressivo de boa parte dos bancos privados de células de cordão e a opinião de alguns cientistas ouvidos pela Folha, existe uma distância abissal, que nem sempre é informada aos potenciais clientes.

"Claro que, se uma pessoa quiser armazenar sangue de cordão umbilical para uso exclusivo de seu próprio filho em bancos privados, ela pode, pois vivemos em uma democracia. Mas também é direito do cidadão que está pagando [caro] por esse serviço receber todas as informações", diz Patrícia Pranke, pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), especialista em células-tronco.

As células-tronco de cordão umbilical são pluripotentes, ou seja, elas têm a capacidade de se diferenciar (converter) em uma série de tecidos diferentes do organismo. Isso é útil, por exemplo, em casos de leucemia: em vez de um transplante de medula óssea, o paciente faria uma espécie de "autotransplante" com as células-tronco do próprio cordão umbilical, que passariam a produzir células sangüíneas no lugar da medula danificada.

"A probabilidade de uma pessoa necessitar de um transplante usando o próprio sangue de cordão é de aproximadamente uma em 20 mil, durante os primeiros 20 anos de vida."

Após essa idade, usar o próprio sangue passa a ser mais complicado ainda, por causa do volume de células que são coletadas no momento do parto, segundo Pranke. "E, mesmo se o volume coletado for suficiente, quem garante que aquele sangue poderá ser usado 20, 30 ou 40 anos depois?", indaga.

"A dose de certeza [de que essas células poderão ser usadas depois de décadas] é quase absoluta", rebate o presidente da empresa Cord Cell, o médico Adelson Alves. "As modernas técnicas de congelamento que existem hoje preservam as células por tempo ilimitado."

Números médios do mercado mostram que um casal interessado em guardar as células do seu bebê deverá desembolsar aproximadamente R$ 4 mil pela coleta e mais R$ 600 por ano de manutenção.

"Hoje nós temos 2 mil amostras aproximadamente, em dez anos de vida", explica Alves. O banco que ele preside fez até hoje quatro transplantes, todos para leucemia. Três com material do próprio paciente e um com material celular do irmão, apesar de existir uma norma governamental que proíbe esse tipo de procedimento --que pode ser aprovado, entretanto, por decisão judicial.

Repartindo o prejuízo

Vários pesquisadores, como Pranke e Mayana Zatz, da USP, afirmam que o melhor seria depositar as células de cordão em bancos públicos, que funcionariam como hemocentros. O risco individual de pagar uma fortuna e não poder usar as células depois seria, assim, anulado. E, com uma quantidade grande de material depositado, no futuro todo mundo teria células compatíveis para transplante.

Para o pesquisador da Fiocruz da Bahia Ricardo Ribeiro dos Santos, que também é um dos coordenadores científicos da Cord Cell, a polêmica sobre a inutilidade dos bancos privados de cordão umbilical não tem nenhuma razão de ser.

"Essa polêmica é baseada em uma ignorância", afirma.

Segundo Santos, o que degenerou a imagem das empresas é que muitas "têm uma constituição quase de sorveteria: congela, guarda e faz uma propaganda na mídia".

Para o pesquisador baiano, guardar células do cordão pode ser considerado um seguro de vida, sim. "As novas perspectivas mostram que poderemos cultivar, expandir as células. Poderemos recuperar tudo isso [informação do material celular] que está guardado. Estamos muito próximos disso."

Para Pranke, outros problemas precisam ser informados ao paciente quando o banco privado de cordão umbilical bate à porta dos futuros pais.

"No caso de doenças genéticas, por exemplo, o sangue da própria criança não pode ser usado nela mesma. E, quando não for esse caso, a pessoa pode usar simplesmente as células de sua própria medula, não necessitando procurar doador de cordão", explica Pranke.

Segundo Zatz, hoje, só é possível falar em tratamento efetivo no caso de doenças de medula óssea. A pesquisadora gosta de dizer que seria muito mais útil para o futuro bebê que o dinheiro usado para guardar as células do cordão dele fosse colocado em uma aplicação, para que ele pudesse resgatar tudo no início da vida adulta.

A imagem da Bolsa de Valores, portanto, não deixa de ser algo ilustrativa.

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