Cientistas encontram pista para problema com vacina contra o HIV
FELIPE MAIA
da Folha Online
A suspeita de que a vacina contra Aids desenvolvida pela Merck tivesse tornado os voluntários mais suscetíveis ao vírus estaria sendo causada devido aos resultados nos testes de um grupo específico de voluntários: homens que tiveram contato prévio com um tipo comum de vírus do resfriado chamado adenovírus 5.
A indicação, ainda de caráter preliminar e que carece de mais investigações, foi apresentada na semana passada durante encontro dos cientistas que participaram dos testes da vacina, realizado em Seattle, nos Estados Unidos.
Em setembro deste ano, os primeiros resultados dos experimentos já mostraram que a vacina não era eficaz para prevenir a infecção pelo HIV ou para conter a reprodução do vírus no homem.
Entretanto, um resultado intrigou os cientistas: o número de voluntários infectados era maior entre os que tomaram a vacina propriamente dita do que entre os que receberam doses placebo (substância inócua).
Ou seja, além de não prevenir contra a doença, o medicamento estaria fazendo com que os voluntários ficassem mais vulneráveis ao vírus.
| Sebastian Derungs/Reuters |
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| Vacina da Merck, que se mostrou ineficaz para impedir infecção ou conter a ação do HIV, pode aumentar vulnerabilidade ao vírus |
Segundo dados do National Institutes of Health (Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos), em uma análise preliminar, dos 672 voluntários que tomaram pelo menos duas doses da vacina, 19 contraíram o vírus da Aids (2,8%).
Já entre os 691 voluntários que receberam as doses placebo, 11 contraíram o HIV (1,5%).
Esses dados referem-se apenas ao continente americano, onde 3.000 pessoas participaram do estudo, por meio de uma rede internacional de cientistas e institutos de pesquisa.
Com novos dados nas mãos, cerca de 500 cientistas voltaram a se reunir na semana passada para tentar encontrar uma resposta para a incógnita e conseguiram uma pista.
Suspeita
Os voluntários que estariam causando essa diferença seriam principalmente homens que tiveram contato prévio com o adenovírus 5, justamente o vírus utilizado na produção da vacina.
Para construir o produto, os cientistas utilizaram formas enfraquecidas do adenovírus, que funcionam como vetores da vacina, ou "cavalos de tróia", transportando para dentro do corpo humano certas partes do HIV.
A expectativa, já frustrada pelos resultados das pesquisas, é que os voluntários criassem resistência a esse "vírus do resfriado" e também ao HIV.
Com base em novos dados gerados pela pesquisa, os cientistas agora suspeitam que as pessoas que estariam mais vulneráveis ao HIV seriam voluntários do sexo masculino que tiveram contato prévio com o adenovírus. Dentre esses homens, a maioria afirma ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo.
| SXC |
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| Voluntários foram aconselhados a redobrar prevenção, praticando sexo seguro; eles serão acompanhados pelos cientistas |
Entre os 778 voluntários do sexo masculino com altos níveis de imunidade preexistente a esse adenovírus, 21 casos de HIV foram registrados entre os que tomaram a vacina (2,6%).
Enquanto isso, apenas nove infecções foram registradas nos voluntários que tomaram o placebo (1,15%).
Dúvida persiste
De acordo com o médico infectologista Esper Kallas, um dos coordenadores dos testes no Brasil, é preciso continuar analisando os dados, para saber se essa análise se confirma e para tentar explicar o porquê deste fenômeno.
"Cerca de 500 pessoas ficaram discutindo isso durante quatro dias, mas simplesmente não achamos uma explicação. Não sabemos se isso é de fato um fenômeno biológico, se é um sinal de algo que não conhecemos ou se é apenas um acaso matemático. O que sabemos é que existe essa possibilidade nesse subgrupo de participantes", disse Kallas à Folha Online.
Ele reafirma, entretanto, que não há a menor possibilidade de a vacina ter causado as infecções, dado que o produto é feito apenas com partes do HIV, que não têm poder de contágio.
Prevenção
Segundo Kallas, os 125 participantes do estudo no Brasil foram avisados já em setembro a respeito dos resultados dos testes e sobre essa possibilidade de eles estarem mais vulneráveis ao vírus da Aids.
Foi recomendado que eles redobrassem a prevenção à doença, adotando práticas seguras de sexo, assim como toda a população deve fazer.
As análises do estudo continuam, já que resultados continuam sendo computados a medida que os voluntários são observados.
Apesar do fracasso do produto da Merck nos testes, em relação à prevenção da Aids, Kallas afirma ainda acreditar que uma vacina pode ser o melhor método para conter a disseminação do HIV.
"Acho a vacina o método mais desejável para prevenir uma epidemia de HIV em massa. Especialmente em regiões mais acometidas pela doença, como a África, em que infelizmente a estrutura de saúde não consegue suprir essa demanda", afirma.
Os testes foram realizados de dezembro de 2004 a março de 2007. Os primeiros resultados, que já atestavam a ineficiência da vacina, foram divulgados em setembro.
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