Ciência
20/11/2007 - 19h43

Cientistas usam pele para fabricar células-tronco

da France Presse, em Chicago

Dois grupos de cientistas conseguiram transformar células da pele humana em células-tronco, abrindo um caminho potencialmente ilimitado para a substituição de tecidos ou órgãos defeituosos, segundo dois estudos divulgados nesta terça-feira.

Esta descoberta, feita por uma equipe japonesa e uma americana, "vai mudar completamente o campo" das pesquisas, considerou James Thomson, autor do estudo americano publicado pela edição on-line da revista "Science".

As células-tronco são consideradas esperança de cura para algumas das doenças mais mortais, porque podem evoluir para células de 220 tipos diferentes no corpo humano.

Mas o acesso às células-tronco embrionárias, mesmo para fins de pesquisa, é limitado em razão de considerações éticas sobre a utilização e a clonagem de embriões humanos.

Além disso, os órgãos transplantados obtidos a partir de células-tronco embrionárias podem ser rejeitados pelo paciente.

Auto-cópia

Esta nova técnica, uma vez aperfeiçoada, poderá permitir a criação de células-tronco com o código genético do paciente, eliminando assim os riscos de rejeição.

Se os cientistas tiveram acesso mais fácil às células-tronco, poderão avançar mais rapidamente nas pesquisas para o tratamento de câncer, do mal de Alzheimer, da doença de Parkinson, do diabetes, da artrite, de lesões na coluna, de queimaduras e de doenças cardíacas.

Este trabalho "é monumental por sua importância no campo da pesquisa com as células-tronco embrionárias e por seu impacto potencial sobre nossa capacidade de acelerar as aplicações desta tecnologia", comentou Deepak Srivastava, diretor do Instituto Gladstone para doenças cardiovasculares.

O processo

As duas equipes conseguiram transformar as células da pele em células-tronco inserindo quatro genes diferentes nas células por meio de um retrovírus.

A equipe japonesa, conduzida por Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, conseguiu criar uma linhagem de células-tronco a partir de 5.000 células. Seu estudo será apresentado no dia 30 de novembro na revista "Cell".

"Esta eficácia pode parecer muito pequena, mas significa que a partir de apenas uma única amostra de 10 centímetros podemos obter múltiplas linhagens de células-tronco pluripotentes (induced pluripotent stem cells, iPS)", explicou.

A equipe americana de James Thomson, da Universidade do Wisconsin, pioneira na obtenção de células-tronco embrionárias em 1998, conseguiu reprogramar uma célula em 10.000, mas sem recorrer a um gene conhecido por ser cancerígeno.

Próximo passo

As duas técnicas apresentam riscos de mutação, pois as células conservam uma cópia do vírus utilizado para inserir os genes nelas.

A próxima etapa-chave, segundo o artigo da "Science", será encontrar um meio de ativar os genes que permitem às células da pele se tornarem células-tronco sem a utilização de retrovírus.

"É quase inconcebível, da forma como a ciência evolui, que não consigamos chegar a um meio de obter isso", declarou Douglas Melton, especialista na pesquisa com células-tronco da Universidade Harvard.

"Se nós conseguirmos superar os problemas de inocuidade, poderemos utilizar as células iPS humanas nas terapias de transplante celular", disse Yamanaka, que considera entretanto "prematuro concluir que as células iPS possam substituir as células-tronco embrionárias".

"Ainda estamos distantes da descoberta de tratamentos ou de terapias a partir de células-tronco", lembrou.

 

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