Especialista afirma que tratamento contra HIV atacará refúgios do vírus
THIAGO FARIA
Colaboração para a Folha Online
O tratamento para pacientes da Aids evoluiu em ritmo acelerado nos últimos anos e teve no Brasil, até 2005, seu "período de ouro". A opinião é do epidemiologista Francisco Inácio Bastos, doutor em Saúde Pública pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e uma das principais referências no país para o assunto.
De acordo com o especialista, a grande barreira no tratamento da Aids atualmente são os chamados "refúgios" do HIV (ou santuários), locais no organismo onde o vírus se esconde esperando para voltar a se manifestar.
"A terapia do futuro vai ser uma terapia que não só vai matar os vírus que estão se formando, mas que também vai funcionar como um tipo de isca, para atrair o vírus que está no refúgio para eliminá-lo", afirma Bastos.
Ele aponta que nos últimos anos o combate à doença no país foi bastante intenso, principalmente após 1996, quando foi criada a lei específica que determina a distribuição gratuita de remédios anti-HIV.
Porém, ao ser combatido, o vírus foi criando resistências aos retrovirais de primeira linha e surgiu a necessidade de utilizar novas linhas de medicamentos para tratar o paciente infectado, encarecendo o tratamento.
"Ao longo do tempo, o programa de Aids brasileiro e o programa de Aids do mundo inteiro foi se tornando mais complexo e, dependendo do balanço entre remédio genérico e remédio de marca, ele vai ficando mais caro".
De acordo com um estudo publicado por Bastos em conjunto com pesquisadores da Fiocruz e da universidade norte-americana Harvard, o gasto anual em remédios anti-retrovirais no Brasil saltou de US$ 204 milhões (R$ 360,2 milhões) em 2001, quando o governo iniciou um processo de quebra de patentes nessa área, para US$ 414 milhões (R$ 731 milhões) em 2005, uma alta de mais de 100%.
Efeitos colaterais
Com a utilização de novas classes de medicamentos, de uso mais complexos e efeitos colaterais diferentes, aos poucos o perfil do paciente de Aids foi sendo alterado.
Bastos explica que a imagem de pacientes extremamente magros e fracos deu lugar a pessoas que, em alguns casos, precisam até fazer dietas.
"Inibidores de protease, que são remédios mais novos, mudam a distribuição de gordura no corpo. Então o paciente fica com alguns lados mais magros, como o rosto, mas com depósito de gordura em outros locais", diz.
Doença crônica
A evolução no tratamento e a tendência de queda apresentada desde 2002, quando foram registradas 38.816 infecções --o número caiu cerca de 16% em comparação com 2006, quando o número de infectados foi de 32.628-- contribuíram para que a imagem da doença mudasse.
Para Bastos, a imagem de doença fatal já foi substituída por de uma doença crônica, como diabetes crônicas, por exemplo, em que o paciente precisa tomar remédios durante toda sua vida.
A sua preocupação, no entanto, é que a doença seja banalizada e que as pessoas deixem de se preocupar com a prevenção.
"Temos que lembrar sempre que a Aids é uma doença infecciosa, e não pode ser banalizada, com o risco de haver uma explosão de novos casos", ressalta.
Acompanhe as notícias em seu celular: digite o endereço wap.folha.com.br
Leia mais
- Confira o especial "Luta contra Aids"
- Enquete: Você já fez teste de HIV?
- Descobridor da Aids nega que Brasil seja referência contra a doença
- Comunidades indígenas estão cada vez mais expostas à Aids, diz ONG
- Um terço dos latino-americanos com HIV vive no Brasil, diz ONU
- Livro permite entender o que é a Aids e como se propagou
Especial

