EUA aprovam 1ª droga contra dores de fibromialgia
CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo
A aprovação pelo FDA (órgão que regula remédios nos EUA) do primeiro remédio para fibromialgia, uma síndrome caracterizada por dores em diversas partes do corpo, reacendeu uma polêmica que divide especialistas: a existência ou não da doença. Estima-se que 2,5% dos brasileiros, a maioria mulheres, tenham fibromialgia --nos EUA, seriam 10 milhões.
A droga (Lyrica), que age no alívio da dor neuropática --uma das mais intensas, que decorre da lesão de um determinado nervo ou feixe nervoso--, também teve o registro aprovado no Brasil pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para tratamento da dor neuropática.
Segundo o laboratório fabricante, Pfizer, não há previsão de quando o remédio será comercializado no país.
Não há exames de sangue ou de imagem que diagnostiquem a fibromialgia. O veredicto é do médico, que se baseia na análise de dor em 18 pontos específicos no corpo --11 deles devem ser doloridos para que o paciente tenha a doença. Daí a polêmica.
Na opinião de alguns médicos, a aprovação da droga pelos órgãos regulatórios legitima a doença, mesmo sem provas científicas de que ela exista de fato. Eles afirmam que o Lyrica e outros remédios semelhantes, que estão à espera de aprovação no FDA, vão fazer com que pessoas que não precisam da medicação sejam induzidas a consumi-la.
Além disso, alertam para os efeitos colaterais da droga. Entre eles, aumento de peso, tontura, náusea e sonolência.
"Inventor" volta atrás
Frederick Wolfe, autor do primeiro documento que definiu fibromialgia, em 1990, agora se mostra cético em relação à existência da doença. "Hoje penso que as dores são respostas físicas para o estresse, a depressão e a ansiedade", disse ele à Folha por e-mail.
O reumatologista Morton Scheinberg, do hospital Albert Einstein, compartilha a mesma opinião. Para ele, as dores estão relacionadas a um estado depressivo ou a outros estados clínicos e não necessariamente a uma enfermidade.
Scheinberg afirma que há uma ausência de fronteira entre a fibromialgia e outras doenças. "Se você se queixa de fadiga por tempos, mas não se queixa de dores, sofre de fadiga crônica, mas se as dores aparecem ao longo do caminho, você não é mais portador de fadiga crônica, mas de fibromialgia", exemplifica.
Já o médico Daniel Feldman, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), pensa que não reconhecer que cerca de 20% da população mundial tem dor crônica, que um subgrupo reúne características comuns --fibromialgia-- e que os fatores físicos, biológicos, emocionais, comportamentais e sociais estão interligados é "voltar 50 anos no conceito de doença e saúde".
Segundo ele, o tratamento da fibromialgia é multifacetado. "A farmacologia faz parte, mas não comanda, nem é a única fonte. Embora seja lícito que as companhias farmacêuticas lucrem, forçar a barra em favor da farmacoterapia deve ser combatido."
Na opinião do reumatologista Jose Knoplich, autor do livro "Fibromialgia; Dor e Fadiga" (Editora Yendis, São Paulo), muitos médicos ainda duvidam que a fibromialgia exista porque qualquer remédio que atue sobre o cansaço (como vitamina B) e que regulariza o sono ou a depressão (até chá de maracujá) alivia as dores.
"Mas isso dura no máximo uma semana. As intensas dores da fibromialgia de algumas pacientes não desaparecem com os analgésicos e antiinflamatórios, nem com cortisona, nem com derivados do ópio. Só diminuem ou desaparecem com antidepressivos."
Para ele, o Lyrica é um outro produto mercadológico. "Não é uma substância totalmente nova. Já foi usado [off-label] para fibromialgia, sem muito resultado", lembra.
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