Ciência
10/03/2008 - 08h49

Embrião usado para terapias não vai morrer, diz Nobel

RAFAEL GARCIA
da Folha de S.Paulo

O geneticista Oliver Smithies, 82, um dos vencedores do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2007, acredita que o debate sobre o uso de células-tronco embrionárias humanas em pesquisa tomou o "rumo errado".

Para o cientista da Universidade da Carolina do Norte (EUA), que lida com células-tronco há mais de 20 anos, é errado discutir a perspectiva de seu uso terapêutico como algo que requer "morte" ou destruição de embriões.

"Na verdade, estamos falando de preservar a vida do embrião --embrião que não seria usado para mais nada--, permitindo a ele ajudar a vida de outras pessoas", disse o cientista, questionado sobre a ação em julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) que pode acabar proibindo o uso de embriões em pesquisa no Brasil.

"Gostaria que o Supremo Tribunal pensasse em células-tronco de modo diferente", disse Smithies. "Imagine que eu seja um jovem morto num acidente de carro. Há partes do meu corpo que ainda são úteis e podem ser dadas a outras pessoas para manter suas vidas. Então, parte de mim viveria em outra pessoa. Se uma célula-tronco embrionária é feita [para terapia], aquele embrião não é morto, aquele embrião dá vida a outra pessoa, por fim."

Smithies expôs sua defesa do uso de células-tronco embrionárias humanas ontem em entrevista antes de uma palestra em um auditório anexo à exposição Revolução Genômica, no parque do Ibirapuera. O geneticista, que repartiu o Nobel com Martin Evans e Mario Cappechi por criar uma técnica de manipulação de genes, usa células-tronco como ferramenta dentro desta e de outras linhas de pesquisa que segue.

Dez anos

Questionado sobre quanto tempo o estudo de células-tronco embrionárias humanas levará para render algum tipo de terapia, Smithies alertou que cientistas "não são muito bons em fazer previsões" e em geral erram para menos. Mas ainda assim arriscou palpitar.

"Prevejo que conseguiremos algo útil usando células-tronco embrionárias humanas em provavelmente cerca de dez anos", diz. "Tenho trabalhado com essas células por 20 anos e já as vi se tornarem músculo cardíaco e baterem. É impressionante olhar pelo microscópio um dia e ver: tum, tum, tum. Está batendo! Faz os meus cabelos se arrepiarem."

Smithies, que usou células-tronco para desenvolver cobaias usadas no estudo de doenças como fibrose cística e hipertensão, está agora investigando problemas renais. Ele participa do debate político sobre ciência desde antes de 2001, quando os EUA restringiram o uso de verbas federais para pesquisa com embriões.

"Enviei uma mensagem ao presidente [George W. Bush] --não sei se ele recebeu-- e sugeri que ele deveria repensar o assunto", diz. "É um erro por parte do nosso presidente fazer isso. Ele está misturando duas coisas: religião e governo. Nos EUA, nossa Constituição diz que a religião de uma pessoa deve ser assunto privado dela."

Segundo Smithies, mesmo que o Brasil não seja um líder em ciência, sua participação na pesquisa de células-tronco é importante, já que a iniciativa é global. "O país que não participar desse trabalho perderá a oportunidade dar uma contribuição à humanidade", diz. "Seria uma grande vergonha."

Para o geneticista, que trabalha com biologia molecular desde antes da descoberta da estrutura do DNA, em 1953, a polêmica sobre pesquisas na área é transitória. "Não acho, na verdade, que seremos um campo controverso, se esperarmos um pouco", diz. "Muitas coisas, quando começam, são controversas. Depois, nos acostumamos, e elas deixam de ser."

Comentários dos leitores
Laércio Henrique (5) 01/08/2008 14h21
Laércio Henrique (5) 01/08/2008 14h21
O mal de notícias por amadores é que se tornam extremamente tendenciosas. Falam em destruição de embrião quando este, se destruído, não servirá ao propósito. A intenção é manter as células embrionárias vivas para que originem os diversos tecidos, logo, não é verdade que haverá destruição intencional.
Para falar de biologia é preciso saber biologia.
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Paulo Rêis (28) 01/08/2008 09h47
Paulo Rêis (28) 01/08/2008 09h47
Ainda bem que não lemos só notícias que nos deprimem e nos fazem parecer desamparados, não tendo a quem apelar, como roubalheira de políticos, a "simpatia" da justiça pelos criminosos poderosos,etc...
Essa notícia nos enche de alegria, pois é mais um passo para curas de muitos males.
Acho que esses cientistas deveriam ser mais prestigiados e mostrados na mídia como heróis , dignos de admiração ,e modelos para a nossa juventude que nasceu e está sendo criada nesse mar de lama, que tomou conta de nosso país.
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Regina Fazioli (1) 29/07/2008 15h46
Regina Fazioli (1) 29/07/2008 15h46
SAO PAULO / SP
Nem sempre o internauta encontra o que precisa na rede mundial. Nesses casos, uma boa ajuda pode ser dada pela equipe da Biblioteca Virtual do Governo do Estado de São Paulo. Os profissionais que lá trabalham (bibliotecários, advogado, licenciado em Letras) estão preparados para responder perguntas sobre cidadania, legislação, serviços da administração estadual -, mas quase sempre o trabalho se estende para outras áreas.
Leia a reportagem na íntegra em:
http://www.saopaulo.sp.gov.br/sis/lenoticia.php?id=97222&siteID=1
Use e abuse!!!
Abs,
Regina Fazioli
Biblioteca Virtual - Coordenadora
www.bv.sp.gov.br
(11) 2193-8119
rfazioli@sp.gov.br
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