Ciência
11/04/2008 - 10h21

Cientista usa drogas para "turbinar" desempenho

RAFAEL GARCIA
da Folha de S.Paulo

Uma enquete com 1.400 cientistas realizada na internet pela revista britânica "Nature" revela que já está disseminado na comunidade acadêmica o uso de drogas para melhorar o desempenho intelectual. Um em cada cinco entrevistados disse já ter feito uso "instrumental" de remédios que normalmente são usados para tratar problemas psiquiátricos.

A droga mais popular entre os cientistas, ao que parece, é a Ritalina, usada para tratar crianças com TDAH (transtorno do déficit de atenção por hiperatividade). Segundo entrevistados, ela melhora a capacidade de concentração para estudos e pode valer a pena mesmo tendo efeitos colaterais.

A enquete da "Nature" sobre o assunto foi iniciada no começo do ano, motivada por um artigo de pesquisadores da Universidade de Cambridge sobre aspectos sociais e éticos desse novo fenômeno. A idéia do trabalho veio de um editorial da própria "Nature", que defende a pesquisa de drogas com propósito específico de melhorar desempenho acadêmico.

A revista --influente em praticamente todas as áreas da ciência-- recebeu tantos comentários sobre o trabalho que decidiu fazer uma sondagem própria. A enquete divulgada ontem não tem valor de censo --o questionário era voluntário--, mas revela o que parece ser um fenômeno emergente na maior comunidade científica do mundo, a dos EUA (de onde vieram 70% das respostas).

Num fórum de discussão no site da revista, a discussão sobre aspectos biológicos tomou o rumo esperado, com todos concordando que é preciso pesar os efeitos colaterais indesejáveis de algumas dessas drogas contra os benefícios que elas trazem a quem é saudável. Contudo, 45% dos entrevistados consideram que, independentemente da questão de segurança resolvida, precisa haver restrições.

"Talvez o fator mais polêmico seja mesmo a questão ética", diz o neurocientista Alfredo Pereira Júnior, da Unesp de Botucatu, que entrou no debate. "Nossa sociedade não aceita, por exemplo, o doping no esporte, porque pode haver uma certa concorrência desleal por parte de quem se beneficia da droga." E, para o cientista, a questão dos efeitos colaterais também não está bem resolvida, já que o mecanismo de ação da Ritalina, por exemplo, é pouco conhecido. "O cérebro é muito complexo e mexer no balanço de excitação e inibição dos estados de consciência] pode ser imprevisível."

É difícil saber, porém, até que ponto a moda do doping acadêmico pegou. Cientistas dos EUA ouvidos pela Folha, por exemplo, disseram não ter tido contato com a prática.

"Aqui no nosso laboratório trabalhamos com compostos que estimulam a neurogênese [nascimento de novos neurônios], não com essas drogas. As pessoas aqui gostam de comer chocolate, por causa dos flavonóides, e de fazer exercício, duas coisas que têm esse efeito", diz o biólogo Alysson Muotri, do Instituto Salk, da Califórnia. "Pelo que sei, isso [uso de Ritalina] está mais espalhado na costa Leste dos EUA."

O geneticista Marcelo Nóbrega, da Universidade de Chicago, diz que esse ainda não é assunto discutido com naturalidade nos corredores. "Cientista é gente careta. Isso não seria bem visto", diz. Para lidar com a pressão dos prazos, sua receita é outra. "A saída que a maioria usa é a boa e velha privação de sono."

 

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