Ciência
23/04/2008 - 16h48

Sem necessidade, jovens tomam remédios para ereção

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LEANDRO FORTINO
LETICIA DE CASTRO
da Folha de S.Paulo

O jovem estudante de comunicação Evandro (nome fictício), 21, gosta de viver perigosamente. Sempre que cai na balada, mistura tudo o que vê pela frente: álcool, drogas pesadas --como GHB, crystal method e ecstasy-- e leves --como a maconha. Há pouco tempo, depois de uma dessas noitadas, saiu acompanhado de duas pessoas.

Era uma manhã de domingo. Ele parou numa farmácia, onde comprou uma caixa de um dos remédios para disfunção erétil que existem no mercado.

Ilustração Galvão
Jovens competitivos e/ou inseguros tomam remédios para ereção, mesmo sem precisar; alguns se dizem cientes dos riscos
Jovens competitivos e/ou inseguros tomam remédios para ereção, mesmo sem precisar; alguns se dizem cientes dos riscos

Apesar de trazer em sua caixa uma tarja em vermelho chamativo na qual está escrito "Venda sob prescrição médica", nada foi pedido a Evandro, cara de moleque, que pagou cerca de R$ 60 por dois comprimidos.

"Decidi tomar porque tinha usado um monte de drogas e, para fazer o pipi funcionar, resolvi experimentar. Minha ereção permaneceu por pelo menos quatro horas", conta.

Casos como o de Evandro, por mais assustadores que pareçam ser, têm aumentado nos últimos anos, conforme alertam psiquiatras e urologistas ao Folhateen. "Um jovem que toma um remédio para disfunção erétil que não foi estudado nessa população está correndo riscos de efeitos adversos.

A minha orientação é sempre de que os jovens não utilizem, porque não sabemos os riscos possíveis", afirma o urologista Fernando Almeida, da Unifesp. "No Brasil, o problema acontece porque nós não temos controle. Essa medicação só poderia ser vendida com receita."

Vício

Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do ProSex (Projeto Sexualidade) do Hospital das Clínicas, o principal risco para o jovem é o de dependência psicológica da droga.

"Ele pode acreditar que não terá uma ereção sem o remédio." A médica observa três perfis de jovens usuários:

1) Indivíduos que gostam de experimentar tudo, inclusive drogas (como o Evandro).
2) Jovens competitivos que querem impressionar a parceira com a performance sexual.
3) Os inseguros e tímidos, com baixa auto-estima.

"No fundo, os três precisam de um acompanhamento psicoterápico", afirma Abdo. Portanto, para jovens saudáveis, sem problemas de ereção, esse tipo de remédio não traz benefícios. O efeito é muito mais psicológico do que real.

"Quando o indivíduo tem ereções normais, a melhora após a ingestão de Viagra se dá mais por efeito psicológico do que pela ação efetiva da droga", diz o urologista João Afif.

Nos blogs e fóruns da internet, o que se vê é muito papo e pouco conhecimento. "Só toma quem quiser zoar com umas vagabundas bem pervertidas. Tomar para ficar com uma mina só é besteira. Ela vai cansar e você vai estar lá firme e forte", declara o nick "sveenom"

"Parece que 10% das pessoas podem ter dor de cabeça. E quem tem problemas de coração e hipertensão não pode tomar", chuta "natanaelcd". Outros ficam encucados: "Tenho muita vontade de tomar, mas tenho medo de dar piripaque no coração", diz "chikens".

O remédio é contra-indicado para quem sofre de doenças cardíacas. E muitos jovens não tem como saber isso, a menos que consultem um especialista.

O jovem Marcelo se encaixa no perfil de quem usa para impressionar a parceira com uma heróica performance pós-balada.

Carioca, tomou pela primeira vez no ano passado, por curiosidade. Ele ganhou metade de um comprimido de Viagra de um amigo. Hoje, toma "para dar conta de uma parceira diferente a cada dia da semana".

Ele já leu a bula do remédio, sabe dos efeitos colaterais e não se preocupa com os riscos de dependência psicológica. "Não uso esse treco todo dia. É só para impressionar. Normalmente, nas duas ou três primeiras vezes com a menina."

Uma das justificativas de Marcelo para tomar remédios para disfunção erétil quase todo fim de semana é a sua "vida sexual extremamente ativa". "Saio com várias mulheres. Conheço pessoas na noite que topam ir para o motel na hora."

Por isso, ele não se preocupa em misturar o medicamento com álcool. "Normalmente, eu bebo cerveja quando saio. Se eu achar que devo, mesmo depois de beber, eu tomo."

O uso do medicamento na balada, associado a altas doses de álcool de e outras drogas, como ecstasy e cocaína, também é comum e perigoso. "Há risco de interação medicamentosa, pois não se sabe exatamente a composição dessas drogas", diz a psiquiatra Sandra Scivoletto, chefe do Ambulatório de Adolescentes e Drogas da Fac. de Medicina da USP.

Mas por trás de um garanhão como Marcelo se esconde um jovem tímido e inseguro. "O remédio dá uma segurança maior. Isso, de certa forma, mexe com a parceira, ela fica estimulada e quer você de novo. Aí começam as mentiras, né!?"

Reportagem publicada originalmente em setembro de 2007, no caderno Folhateen

Comentários dos leitores
Antônio Marmo Cardoso (1) 23/05/2009 21h37
Antônio Marmo Cardoso (1) 23/05/2009 21h37
OLA
Os ganhadores do prêmio Nobel de Medicina de 1998, na verdade foram 3: Furchgot, Louis Ignarro e Ferid Murad, todos pelo estudo conjunto do Óxido Nitrico. Fiz uma entrevista com Igarro para a revista Scientific American, onde ele conta
que ajudou sua mãe a superar crises de hipertensão
com doses de arginina - que potencializa a produção de oxido nitrico-, depois de procurar
produtos similares em farmácias, sem
encontrá-los. A indústria farmacêutica, afirma,
não se interessa por aquilo que não gera patentes.
O cientista acabou produzindo suas próprias
cápsulas, surpreendendo o médico da mãe,
que achava que as receitas dele é que estavam
gerando os resultados. Furchgot foi precursor nos estudos do NO mas Ignarro foi mais longe.
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ANIBAL FAGUNDES (26) 04/03/2009 20h13
ANIBAL FAGUNDES (26) 04/03/2009 20h13
com relação a esses ´´ milagrosos medicamentos``, quando será lançado o generico, visto que é brochante o preço que ser cobram por quatro comprimidos deste remedios. 14 opiniões
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Mauro Tyba (1) 26/11/2008 11h48
Mauro Tyba (1) 26/11/2008 11h48
Como até hoje não precisaria de Viagra, demorei a experimentá-lo até porque temia os possíveis efeitos colaterais. Depois de tê-lo usado pela primeira vez, porém, descobri que com o medicamento o desempenho é bem melhor. Tive a mesma sensação de quando me descobri míope e inaugurei os óculos: a visão ficou mais confortável e passou a ter um alcance maior. Embora só use o Viagra esporadicamente (na maioria das vezes dispenso o produto para evitar a dependência), não sinto nenhum incômodo - pelo contrário. O Viagra é, sem dúvida, uma das melhores descobertas científicas da história farmacêutica de nosso tempo. Parabéns à Pfizer pelo pioneirismo. 7 opiniões
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