Ciência
30/04/2008 - 08h40

Vender Viagra sem receita é seguro, diz descobridor do remédio

FELIPE MAIA
da Folha Online

Apesar das contra-indicações, o Viagra é um remédio seguro para ser vendido nas farmácias sem receita médica, como acontece com alguns antiinflamatórios. A opinião, da qual muitos médicos discordam, é de Peter Ellis, diretor-executivo da área de pesquisa e desenvolvimento da Pfizer no Reino Unido e um dos descobridores do medicamento, que chegou ao mercado há dez anos.

"Na minha opinião, que não reflete necessariamente a visão da Pfizer, isso seria seguro. O rótulo [do Viagra] aponta contra-indicações e alertas de uso. Não deve ser tomada por exemplo com nitratos, usados para tratamento de angina. Se os alertas puderem ser seguidos, não há problema", afirmou Ellis, à Folha Online.

Divulgação
Ellis, que trabalhou no desenvolvimento do Viagra, diz que uso sem receita é seguro, desde que alertas sejam observados
Ellis, que trabalhou no desenvolvimento do Viagra, diz que uso sem receita é seguro, desde que alertas sejam observados

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Em 2007, a Pfizer chegou a anunciar que pretendia lançar uma versão do remédio a ser vendida sem receita médica. A idéia era tornar o Viagra mais competitivo, diminuindo seu preço.

A medida foi vista com ressalvas nos Estados Unidos e não avançou. Atualmente, a companhia nega que tenha intenção de tornar o medicamento um OTC ("over-the-counter"), como é conhecida a classe de remédios vendida sem prescrição médica.

"O que está por trás do sucesso do Viagra é o fato de ele fazer exatamente o que se propõe: age apenas no pênis, sem afetar qualquer outro sistema", afirma Ellis.

Riscos

Especialistas ressaltam que a consulta a um médico continua sendo fundamental. "É uma medicação que tem uma ação relativamente segura, mas a avaliação médica é muito importante nesse caso, mais que a prescrição. A indicação é que o homem interessado vá até o urologista ou outro especialista e veja se o Viagra é a primeira opção", afirma André Cavalcanti, chefe do serviço de urologia do Hospital Souza Aguiar, no Rio.

Entre os efeitos colaterais que causa estão dores de cabeça, calor no rosto, "queimação" no estômago, dores musculares e rubor facial.

De acordo com as regras da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), para ser considerado de venda livre, o remédio tem de se enquadrar em uma lista de grupos e finalidades terapêuticas específica.

A listagem inclui alguns antiácidos, antiespasmódicos (usados para tratamento de cólica, por exemplo), anti-sépticos, antiinflamatórios e vitaminas. Tratamentos para disfunção erétil não estão na lista.

Em março deste ano, o presidente da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia), José Carlos de Almeida, se reuniu com o diretor-presidente da Anvisa, Dirceu Raposo de Mello, em Brasília, para que sejam tomadas medidas contra a venda indiscriminada de medicamentos para disfunção erétil sem apresentação de receita médica.

Campanha

"Hoje em dia as pessoas compram medicamento para disfunção erétil à vontade sem receita médica. Precisamos da ajuda da Anvisa para inibir essa avalanche de compras sem receituário. É preciso orientar a população e conscientizá-la sobre o uso do medicamento", afirma Almeida, em nota.

A SBU quer que faixas sejam colocadas nas farmácias com os dizeres: "A auto-medicação para disfunção erétil é prejudicial à saúde. Procure um urologista".

Para Carlos Da Ros, chefe do departamento de andrologia da entidade, liberar a venda de remédios para disfunção erétil sem acompanhamento médico seria "uma lástima", já que isso pode incentivar o chamado "uso recreativo".

"É algo que precisa de orientação. A gurizada compra para fazer festa, sem saber que o efeito é só placebo, o que já foi demonstrado por estudo. Em pessoas sadias, o efeito é psicológico, só na cuca", diz.

A Pfizer diz estar ciente dos problemas da auto-medicação e da falsificação. Porém informa que "não tem papel de polícia". "O que fazemos é colaborar. Sempre que temos informações sobre problemas desse tipo [remédios falsos], nós notificamos. Adoraríamos que houvesse controle no ponto de venda, que as pessoas tivessem receita", afirma João Fittipaldi, diretor médico do laboratório no Brasil.

Comentários dos leitores
ANDERSON FRANCO (1) 01/05/2008 22h30
ANDERSON FRANCO (1) 01/05/2008 22h30
SAO PAULO / SP
Realmente é impressionante a venda indiscriminada dos medicamentos para disfunção eretil, ferindo gravemente a racionalização de medicamentos que a ANVISA tenta propagar. Nas redes de Drogarias não é nada raro os gerentes induzirem aos funcionários às famosas vendas de caixas a mais, visando exclusivamente o aumento do faturamento financeiro do estabelecimento.
Seria possível o retorno desta classe de medicamentos para controle especial com retenção de receita? O mesmo controle especial poderia ser aplicado para os medicamentos injetáveis, inclusive entrega de balanços trimestrais ou mensais das saídas e entradas desses medicamentos nos estabelecimentos farmacêuticos, rigorosamente controlados igualmente aos das notificações de receitas B2 (anorexígenos)
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