Ciência
17/07/2008 - 15h53

Paciente com incontinência fecal recebe chip em tratamento

MÔNICA RIBEIRO E RIBEIRO
colaboração para a Folha Online

Uma tecnologia de circuito integrado está sendo usada para combater a incapacidade de conter as fezes, que acomete principalmente pessoas acima dos 60 anos. Trata-se do neuromodulador sacral, um chip de três centímetros que é inserido na região abaixo do cóccix.

O primeiro implante do aparato no Brasil foi realizado em maio deste ano no Hospital São Luiz, em São Paulo. O procedimento teve origem nos Estados Unidos e foi liberado naquele país somente em 2007 pela FDA (Food and Drug Administration).

Divulgação
Após fase de teste, Chip é programado para funcionar por dez anos; caso obtenha sucesso, pode ser recarregado
Chip é programado para funcionar por dez anos; equipamento pode ser recarregado

A cirurgia foi realizada em uma mulher de 70 anos, diabética, obesa, com problemas na coluna e distúrbios urinários. A paciente, que já deixou o hospital, começou a controlar as funções do esfíncter anal poucos dias após o implante.

O dispositivo é colocado na coluna sacral e é acompanhado por uma espécie de marca-passo durante dez dias após a cirurgia, realizada apenas com uma anestesia local. Nesse período, é verificado se o nervo pudendo (que permite sentir vontade de soltar ou prender as fezes) reage aos estímulos elétricos provocados pelo chip.

"Na primeira fase, é detectada a causa da incontinência fecal. Se for comprovado que o problema é no nervo, o implante é realizado. Se o dano for na musculatura do ânus, não é possível concretizá-lo", afirma o proctologista Paulo Carvalho, responsável pelo procedimento cirúrgico.

Após a fase de teste, o chip é transferido para a região glútea subcutânea e é reprogramado para funcionar por dez anos. Se durante esse tempo o paciente não alcançar uma melhora significativa --ou seja, abandonar as fraldas geriátricas--, a bateria do neuromodulador é recarregada.

Segundo Carvalho, o chip age enviando impulsos ao nervo, da mesma forma que o cérebro o faz. "Estimulando o nervo, conseqüentemente o músculo [esfíncter anal] fica fechado, retraído. Quando a pessoa perde esse estímulo, a musculatura fica aberta e propicia a incontinência."

Tratamento multidisciplinar

Para assegurar a eficiência do implante, o paciente fica sob observação periódica no Control (Controle dos Distúrbios Urinários e Fecais), do São Luiz. O departamento é composto por proctologistas, ginecologistas e uma fisioterapeuta, que vai até a casa do implantado quando ele está impossibilitado de se locomover até o hospital.

"Após uma avaliação física, a fisioterapeuta aplica uma série de exercícios para combater a atrofia do músculo da região anal", diz o especialista do São Luiz, que divide a coordenação do departamento com a ginecologista Ivani Kehdi.

Todo o cuidado, segundo o médico, é necessário para assegurar a qualidade de vida do paciente. "O distúrbio tira a pessoa do convívio social, pois o mau-cheiro causa constrangimento. Por isso, tratar o problema de forma mais ampla colabora para um melhor resultado pós-implante."

Multiuso

O chip também é usado para combater a incontinência urinária. Aqui no Brasil, a primeira cirurgia foi realizada em 2005, pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Porém, nos Estados Unidos, a técnica já é usada há uma década. A estimativa é que no exterior cerca de 3.000 pessoas já tenham recebido o implante.

As experiências para controlar a incontinência fecal com o dispositivo surgiram devido à semelhança dos sintomas com incontinência a urinária. "Além disso, o chip também é implantado para reduzir a dor pélvica crônica, característica em mulheres, que inviabiliza a vida sexual e causa a sensação de cólica menstrual permanente", ressalta Carvalho.

 

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