Técnica usa pneu como combustível e ainda reduz poluição
da Folha de S.PauloUm pesquisador da USP desenvolveu um método que poderá facilitar a realização de um sonho dos ambientalistas: usar pneus velhos como combustível. Ele inventou uma maneira de realizar uma queima quase completa do material, ao mesmo tempo reduzindo a emissão de poluentes e gerando mais energia.
Usando um filtro de cerâmica resistente a altas temperaturas, o engenheiro Jefferson Caponero, doutorando em engenharia ambiental pela Escola Politécnica, conseguiu reduzir a emissão de fuligem pela queima de resíduos de pneus em até 99%.
Segundo Caponero, isso poderá estimular a reciclagem de pneus, reduzindo o uso de combustíveis fósseis _como petróleo e derivados e carvão mineral_ e diminuindo a quantidade de lixo nos aterros sanitários.
Os pneus são uma dor de cabeça antiga dos ambientalistas. Estima-se que, só no Brasil, sejam descartadas cerca de 30 milhões de unidades por ano. "Os EUA produzem dez vezes essa quantidade", disse Caponero à Folha.
Como também são compostos de derivados de petróleo, os pneus poderiam, em princípio, ser reciclados para gerar energia. Cada quilo do material tem teor energético de 33 megajaules, ou 6.600 calorias (uma caloria é a quantidade de energia necessária para esquentar 1 grama de água em 1ºC). "É mais do que possui o carvão betuminoso, usado como combustível em termelétricas."
Pirólise
O problema é que recuperar a energia de pneus usados não é muito simples. Diversos grupos de pesquisa, no mundo inteiro, incluindo um na Unicamp, tentam obter gás, carvão e óleo combustível a partir da pirólise (um tipo de degradação por calor), mas ainda não conseguiram tornar os seus subprodutos competitivos no mercado em relação aos combustíveis fósseis "novos".
Uma maneira mais barata de aproveitar a energia é simplesmente queimar o pneu num forno. Barata, mas ambientalmente incorreta. A queima incompleta dos chamados hidrocarbonetos aromáticos, grandes moléculas orgânicas presentes no petróleo e nos pneus, produz grandes quantidades de fuligem (partículas de carbono), além de gases tóxicos como o monóxido de carbono (CO), o dióxido de enxofre (SO2) e os óxidos de nitrogênio (chamados genericamente de NOx).
"Uma queima ideal, completa, deveria produzir quase totalmente gás carbônico e água", afirmou o pesquisador da USP. Isso porque, durante a reação, as moléculas de carbono vão se ligando ao oxigênio presente. Queimas parciais deixam mais carbonos livres.
Para resolver o problema das emissões, Caponero testou, nos fornos em que o pneu é queimado, um filtro cerâmico de carbonato de silício, desenvolvido no Japão. O material é capaz de resistir a temperaturas de até 1.000ºC.
Ele tem poros microscópicos, em que a fuligem e parte dos gases ficam retidas, reduzindo a fumaça. Dividindo a queima em duas etapas, Caponero conseguiu torná-la mais completa, diminuindo a quantidade de carbono em suspensão e de monóxido de carbono na fumaça. O pesquisador, agora, está analisando a viabilidade econômica de unir combustão e pirólise para gerar energia.

