Relatos da Antártida: viajantes têm de conviver com ansiedade por embarque incerto
da Folha Online
A seguir, o colunista da Folha e blogueiro da Folha Online Marcelo Leite, que se encontra em Punta Arenas, no extremo sul do Chile, relata seus passos rumo ao continente antártico. Ele e o repórter fotográfico Toni Pires devem acompanhar o grupo de pesquisadores brasileiros que está no interior da Antártida pela expedição Deserto de Cristal (saiba mais aqui.)
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Conversa rápida com Mark Rawsthorne, na sede da empresa Logística e Expedições Antárticas (ALE) da rua Arauco, em Punta Arenas (Chile), traz mais alguns detalhes sobre os sucessivos adiamentos do vôo que o repórter fotográfico Toni Pires e eu já deveríamos ter tomado para os montes Patriot, no coração da Antártida. Nenhum deles muito animador.
Rawsthorne, um especialista em exploração mineral e avalanches que três meses por ano trabalha como gerente da ALE em Punta Arenas, diz que esses atrasos são comuns e que o pessoal da empresa está acostumado --inclusive a lidar com a ansiedade de seus clientes presos na simpática e fria cidade do extremo sul chileno. "Para nós a decisão [de postergar a decolagem] é muito fácil", diz Rawsthorne sem rodeios. "Temos parâmetros muito claros e seguimos uma política de risco zero." Os parâmetros de segurança a que o gerente da ALE se refere envolvem duas variáveis principais: vento e visibilidade.
O vento constante não deve ultrapassar os 15 nós (um pouco menos de 30 km/h), e as ocasionais rajadas não pode ter mais que 20 nós (quase 40 km/h). O vento, aliás, é tanto o vilão quanto o santo da história. Se não soprasse de modo contínuo do platô Antártico --parte central do continente gelado, mais alta e mais fria, do qual descem ventos fortes chamados de "catabáticos"--, não haveria a pista de "gelo azul" sobre a qual pode pousar com rodas o avião-cargueiro Ilyushin-76TD com sua carga útil de 17 toneladas.
Os ventos catabáticos varrem ou sublimam toda a neve da superfície, expondo o gelo formado muito tempo atrás pela compactação da neve acumulada quando não há vento. Mas os mesmo ventos com freqüência impedem o pouso do avião, como hoje pela manhã, quando sopravam rajadas de 24 nós.
Há um problema adicional nos montes Patriot: a visibilidade também não está ajudando. Como os pilotos russos do Ilyushin seguem regras de vôo visual, precisam de condições mínimas de "contraste e horizonte", explica Rawsthorne.
Além dos parâmetros físicos informados automaticamente pela estação meteorológica de Patriot, a sede da ALE em Punta Arenas recebe também avaliações de contraste e horizonte de um meteorologista lá estacionado. Nos últimos dias, as nuvens têm ficado muito baixas e cai muita neve, o que deixa os pilotos sem horizonte para se orientar. Por isso o Ilyushin ainda não decolou.
Em resumo, só resta a seus 49 candidatos a passageiro aguardar com muita paciência (na sua configuração antártica, o IL-76TD leva 55 pessoas no máximo). Muitos deles vão escalar o maciço Vinson, maior elevação da Antártida, com seus 4.892 m. Além de pagar US$ 33 mil por cabeça, treinaram meses e meses para isso. Agora têm de ficar estacionados em Punta Arenas, com máxima de 15ºC e mínima de 7ºC --quando contavam estar já enfrentando até -35ºC em Patriot e coisa pior em Vinson.
Haja paciência. Para agravar, não basta que as condições meteorológicas melhorem --elas têm de se estabilizar por algumas horas, pelo menos. Caso contrário, o cargueiro não voa. Parece jogo de azar. E todo mundo assinou um monte de papéis reconhecendo que é assim mesmo, que não há nada a fazer e que não é culpa da ALE.
É o preço a pagar para ser uma das cerca de 200 pessoas que visitam o interior da Antártida a cada ano sem serem pesquisadores, funcionários de governo ou militares (outros 14 mil turistas, aproximadamente, visitam o litoral do continente a bordo de navios).
O jeito é esperar.
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