Sol teve infância violenta, sugere estudo
JAMES GLANZdo "The New York Times"
Novas observações revelam que, logo após ter nascido, o Sol provavelmente foi muito mais violento do que antes se pensava, causando repetidas tempestades de partículas e radiação que podem ter influenciado a formação dos planetas e salpicado o Sistema Solar com partículas radiativas.
As observações, de raios X emitidos por estrelas jovens na constelação de Órion, adicionam combustível a uma persistente controvérsia sobre como o Sistema Solar e seus planetas se formaram.
Os novos resultados podem também ajudar a explicar grãos misteriosos presentes em meteoritos que são produto do decaimento de elementos radiativos raros. A pesquisa foi divulgada em uma conferência em Washington por Eric Feigelson, astrônomo da Universidade Estadual da Pensilvânia. O trabalho foi feito com o telescópio espacial de raios X da Nasa, o Chandra.
Rebeldia da juventude
Feigelson disse que as observações foram realizadas com 41 estrelas da nebulosa de Órion "que são tão parecidas quanto possível de gêmeas do Sol bebê".
O olho nu vê as jovens estrelas como um ponto de luz na espada de Órion. Cada uma delas tem a mesma massa do Sol, mas apenas 1 milhão de anos. O Sol formou-se há 5 bilhões de anos.
As estrelas jovens mostram níveis de erupções centenas de vezes mais fortes e frequentes que os mais poderosos disparos vistos no Sol de hoje, disse Feigelson.
"É como se o Sol, que vemos como uma quieta bola amarela, estivesse cheio de fogos de artifício."
"Acho que foi feita uma grande descoberta. Isso muda o campo de jogo", disse Donald Clayton, astrofísico da Universidade Clemson (Carolina do Sul, EUA) que não esteve envolvido no estudo.
Os resultados provavelmente terão grande efeito no debate sobre como o Sistema Solar surgiu.
Conflito de idéias
Em uma das hipóteses, a explosão de uma estrela próxima -uma supernova- teria fornecido material para um disco, a partir de onde o Sol e os planetas acabariam se formando.
Elementos radiativos que teriam sido gerados na explosão violentíssima terminariam espalhados pelo jovem Sistema Solar, sendo incorporados em asteróides. Isso explicaria o mistério de sua presença nesses corpos.
Mas alguns cientistas criticam essa teoria, dizendo que não há evidência de que a explosão fosse necessária e que a nuvem poderia ter colapsado sob sua própria gravidade. As novas observações podem ajudar esses cientistas a explicar a radiatividade como produto de partículas energéticas das erupções que teriam bombardeado matéria no Sistema Solar.
Frank Shu, um astrofísico da Universidade da Califórnia em Berkeley, disse que os resultados são importantes. Sugerem que o Sistema Solar não foi produto de uma explosão ao acaso, mas de processos que operam em todos os lugares do Universo.
A descoberta, disse Shu, "significa que o Sistema Solar era altamente radiativo quando foi formado". O calor desse nível de radiatividade teria derretido rochas no sistema planetário embrionário, tornando mais fácil sua aglutinação, para gradualmente formar planetas, segundo Shu.
Solução distante
O problema da formação do Sistema Solar, entretanto, está longe de ser resolvido, afirmou Alastair G.W. Cameron, um astrofísico que se aposentou da Universidade Harvard e está trabalhando na Universidade do Arizona.
Cameron, um dos criadores da teoria da supernova, disse que essas explosões foram comuns em regiões de formação estelar e que as erupções poderiam não ter produzido o cardápio completo de elementos radiativos cujos traços foram encontrados em meteoritos. "Dizer que o Sol pode ter feito todos eles é um exagero grosseiro, e, na verdade, é bem improvável que isso seja verdade", disse Cameron.
Clayton declarou que, embora essas complexidades ainda precisem ser solucionadas, as observações do Chandra mostraram que o Sistema Solar provavelmente teve um nascimento quente, violento e altamente radiativo.
"O que esse novo trabalho fez foi mostrar que não é uma idéia selvagem e extravagante pensar que havia radiação forte no início do Sistema Solar", disse. "Não é como tirar um coelho da cartola."

