Ciência
24/12/2008 - 08h50

"Quase não dá para ficar parado lá fora", diz glaciologista brasileiro na Antártida

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EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

Depois de algumas tentativas e do envio de uma mensagem de texto, o telefone via satélite toca. A voz do glaciologista Jefferson Simões atende e está audível. O chiado de fundo, confundido com algum problema na ligação, era na verdade o vento que soprava do lado de fora da barraca. "Ele está a quase 90 km/h. Quase não dá para ficar parado lá fora direito", relata o cientista brasileiro.

Com o tradicional sotaque gaúcho -o pesquisador da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) é de Porto Alegre- e com o característico bom humor, ele logo emenda: "Está realmente um saco ficar aqui o dia inteiro na barraca, sem nada para fazer. A paciência é o jogo que precisa ser jogado", afirma.

Os trabalhos científicos que levaram a expedição brasileira, de forma inédita, para o interior da Antártida, estão encerrados no monte Johns. A coleta dos cilindros de gelo --testemunhos vivos do passado geológico do continente branco e gelado- é que motivou a viagem do grupo.

As perfurações programadas para irem até os 150 metros foram interrompidas quando a máquina chegou aos 100 metros. "Vamos parar por aqui. O tempo está muito ruim e já está bom o que temos", disse Simões sem transmitir frustração nem nenhum sentimento de derrota profissional.

Sopão natalino

Com o atraso na chegada do avião que levaria o grupo de volta para o acampamento-base, que já dura cinco dias, o jeito vai ser "comemorar" a noite de Natal ali mesmo, no confinamento. E a ceia dos quatro pesquisadores já está pronta.

"Será um sopão reforçado. E ainda temos algumas outras rações se for o caso", brinca Simões. O menu, portanto, não terá nada de variado em relação aos últimos dias.

Segundo Jefferson, a situação é incômoda, mas não existe nada que os ponha em risco significativo, por enquanto. O estoque de comida, diz ele, é suficiente para os próximos dez dias. "Se ficarmos aqui por mais uma semana, aí terei que começar a racionar comida [para todos]", afirma o pesquisador. Além dele, estão no mesmo confinamento mais dois cientistas brasileiros e um chileno.

Em Porto Alegre, segundo Ingrid Simões, mulher do pesquisador, a família estará toda reunida à noite e haverá ainda um brinde especial aos "corajosos exploradores" antárticos.

 

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