Ciência
12/02/2009 - 09h55

Teoria de Darwin teve teste inaugural em Florianópolis

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EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

Se Charles Darwin pudesse dar uma festa hoje, por ocasião de seus 200 anos, o nome do alemão Fritz Müller (1822-1897) certamente estaria entre os convidados. O naturalista, que vivia em Santa Catarina, foi o primeiro a testar em campo, e aprovar, as ideias lançadas por Darwin sobre a evolução dos seres vivos em 1859, história que começou a ficar mais clara na última década.

"Müller, pode-se dizer tranquilamente, foi o primeiro a criar uma filogenia [história evolutiva das espécies] séria, com base no estudo exaustivo de material vivo, ao contrário das especulações meramente teóricas e fantasiosas, como as feitas por [Ernest] Haeckel", escreve o zoólogo Nelson Papavero em seu livro "A Recepção do Darwinismo no Brasil".

Divulgação
Estudo do alemão Fritz Müller (foto) com crustáceos "salvou" a evolução, diz biólogo
Estudo do alemão Fritz Müller (foto) com crustáceos "salvou" a evolução, diz biólogo

À Folha, o pesquisador do Museu de Zoologia da USP foi categórico. "Müller salvou a teoria do Darwin, que tinha acabado de surgir e vinha sendo muito atacada." Papavero lamenta o fato de Müller ser um tanto desconhecido, até entre cientistas brasileiros.

A amizade entre Darwin e Müller, que nunca se viram pessoalmente, surgiu a partir da leitura que o naturalista inglês fez da obra de Müller intitulada "Para Darwin", em 1865. O livro fora escrito dois anos antes em Desterro, atual Florianópolis. O "Origem das Espécies" é de 1859. A troca de cartas entre ambos durou até 1882, quando Darwin morreu.

Garras da evolução

Para testar em campo a evolução, Müller escolheu o grupo dos crustáceos. Afinal, eles eram abundantes na região de Florianópolis, onde ele trabalhava como professor. Além disso, eram bem conhecidos e fáceis de criar em aquários.

O último parágrafo da obra, escrita originalmente em alemão, é simbólico: "Espero ter conseguido convencer os leitores de que realmente a teoria de Darwin tem, como para tantos outros fatos sem ela não explicados, também a chave da interpretação para o desenvolvimento dos crustáceos".

O autor continua: "Que as falhas dessa tentativa não sejam jogadas sobre o plano pré-construído pela mão segura do mestre, que sejam jogadas unicamente sobre a incapacidade do operador, que não encontrou o local exato de cada ferramenta". Para Papavero, foram muitas as contribuições de Müller à teoria darwinista.

Seu único livro publicado em vida (outros foram editados após sua morte), "desenvolvido em ambiente primitivo, sem biblioteca adequada, equipamentos e recursos, tornou-se um marco para a consolidação da teoria de Darwin".

Para Müller, por exemplo, a seleção natural explica o fato de os machos do gênero Tanais (crustáceo que vive sob a areia) terem duas formas anatômicas. Um grupo de machos apresentava pinças grandes e um certo número de filamentos olfativos. No outro grupo, as patas eram pequenas, mas o número de filamentos para o olfato aparecia em quantidade enorme.

Segundo Müller, a variação dos machos privilegiou os grupos dos preensores e o conjunto dos animais com olfato mais desenvolvido. Mas ele foi além.

A luta pela sobrevivência entre os dois grupos estava sendo muito mais fácil para o grupo dos que tinham as pinças grandes. Na contabilidade de Müller, ao contar os crustáceos de Florianópolis, havia cerca de cem indivíduos do grupo dos preensores para apenas um representante do grupo de olfato aguçado e patas pequenas.

E Müller observou outra evidência da evolução. Descobriu que os chamados crustáceos superiores, como o camarão, também possuem uma fase embrionária chamada náupilus. Cientistas a conheciam apenas em crustáceos inferiores, e isso era problema para a teoria de Darwin. Se todo o grupo evoluiu desde um mesmo ancestral comum, todos os crustáceos deveriam passar ter as mesmas fases embrionárias --assim como Müller atestou.

Comentários dos leitores
Jose Teixeira (19) 20/11/2009 23h01
Jose Teixeira (19) 20/11/2009 23h01
Sr. Cláudio Ângelo, não entendi bem seu posicionamento diante de um assunto tão sério como esse, pelo menos para mim! Fiquei sem saber se o Sr. admira ou execra o grande cientista Dawkins. Seus argumentos em defesa da "Evolução" são lógicos demais para se lançar dúvidas a respeito. Ainda que ele use de toda a sua perspicácia, conhecimento científico e didática excelentes para expor qualquer assunto a que se proponha. Em seu livro "Deus, um delírio" ele lança um desafio, que aos mais desavisados, pode parecer uma pretensão inatingível, embora ele mesmo tenha colocado a idéia nesses termos, de que após a leitura isenta dessa obra prima, ele duvida que uma mente esclarecida não se renda aos argumentos apresentados e deixe de crer na "teoria criacionista". Não há engodo algum! Como dizia um dos expoentes do protetantismo: "A razão é inimiga da fé"! A fé se desvanece diante da razão, pelo simples motivo de que ela não se sustenta a não ser no sentido puramente subjetivo da interpretação individual, o que não constitui evidência de nada. A qualquer cientista ateu que fossem apresentadas evidências da inequívoca existência de Deus, imediatamente se renderiam e confessariam a sua posição errada. Do contrário, a qualquer crente que fossem apresentadas evidências irrefutáveis da não existência de Deus, diriam: não importa, continuo acreditando que ele existe! De fato, é isso que se observa. E isso deixa de ser interessante sobre qualquer ponto de vista! sem opinião
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Alex Peres (47) 20/11/2009 19h06
Alex Peres (47) 20/11/2009 19h06
Caro Edivaldo, vc deve estar falando da SUA relação com Deus, pois Deus só existe no imaginário de cada pessoa. Tente vc identificar o caminho de volta da sua casa, os objetos, a comida, e tudo o que vc vê, da forma que os cães fazem, somente através do olfato. Temos habilidades que os animais não tem, porém eles tem habilidades que nem sonhamos ter, muito mais sofisticadas. Pare com a mania de se achar especial, de achar que a raça humana é melhor. Somos animais, compostos dos mesmos elementos químicos com o propósito biológico de nos mantermos vivos para passar a herança genetica para nossos filhos, nada mais. O resto é alegoria, inclusive Deus. Tente estudar e ler mais coisas para abrir a cabeça e sair do escuro do misticismo. Tenho fé (e fé é diferente de religião) que nós um dia entenderemos o mundo como uma grande comunidade de seres vivos e não como nosso reino e que tudo está sob nosso controle, ou o que é o pior, sob o controle de um ser imaginário e todo poderoso, fisicamente impossível. A obra de Darwin é comprovada cientificamente baseada numa montanha de evidências, é incotestável. Só a cegueira religiosa nega! sem opinião
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Leandro Alves (15) 19/11/2009 18h51
Leandro Alves (15) 19/11/2009 18h51
Edvaldo, meu gato é bastante inteligente, mas realmente não é capaz nem de entender o que é um rádio (ou talvez eu que não saiba me comunicar na língua dele). Seu raciocínio, aparentemente profundo, não está baseado em nada e este é o ponto.
Não estou aqui para discutir a nossa relação com Deus e nem se ele existe. Mesmo que você esteja certo isso não prova que a teoria de Darwin está errada, o que é o cerne deste fórum.
Por favor, não me venha com metáforas vazias. Me de argumentos reais contra Darwin. Eu adoraria ouvi-los, pois isto seria de grande valor para a ciência e, consequentemente, para a humanidade.
sem opinião
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