Ciência
23/03/2009 - 12h33

Exame ajuda a identificar se dor no peito é cardíaca

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FLÁVIA MANTOVANI
da Folha de S.Paulo

Um novo exame ajudará a identificar as causas de um dos sintomas que mais costumam assustar pacientes e médicos: a dor no peito, que pode ser desencadeada tanto por um infarto quanto por uma simples azia.

O método permite avaliar, até 24 horas após o fim da dor, se sua origem é isquêmica --quando o músculo cardíaco entra em sofrimento devido à falta de irrigação sanguínea. Com isso, pode evitar que o quadro evolua para um infarto.

Os exames atuais perdem a eficácia de duas a três horas depois que a dor acaba, mostrando-se inconclusivos ou normais, o que gera o risco de que a pessoa infarto após ir para casa.

Filipe Redondo/Folha Imagem
Paciente na máquina do laboratório de análises clínicas Fleury, em São Paulo, que identifica se dores no peito são de origem isquêmica
Paciente na máquina do laboratório de análises clínicas Fleury, em São Paulo, que identifica se dores no peito são de origem isquêmica

O novo procedimento é feito com um aparelho de PET-CT, que une recursos da medicina nuclear e da radiologia. É rotina recente nos EUA e chegou ao Brasil em dezembro de 2008, no laboratório Fleury.

Segundo a cardiologista Paola Smanio, chefe da medicina nuclear do Instituto Dante Pazzanese e do laboratório Fleury, novos estudos provam que, até 24 horas após a dor, as células que sofreram a isquemia permanecem com alterações metabólicas.

Esse conceito é chamado memória isquêmica.

No exame, é injetado um marcador que detecta essas alterações. "Se as células estão em sofrimento devido à isquemia, alimentam-se de glicose.

O marcador identifica essa glicose, o que permite avaliar de forma bem fiel se a dor que a pessoa teve é de origem cardiológica", explica Smanio.

"Determinar se uma dor no peito que começou algum tempo antes de o paciente buscar ajuda é consequência de uma isquemia tem sido desafiador", escreveu o pesquisador Vasken Dilsizian, autor de um artigo publicado em dezembro de 2008 no "Journal of Nuclear Medicine" sobre a memória isquêmica.

Segundo ele, nesse caso o exame físico costuma resultar normal e o eletrocardiograma, inalterado.

Smanio acrescenta que o eletro costuma dar resultado falso positivo em mulheres, já que as moléculas de estrogênio podem simular uma isquemia. Por isso, o médico pode não dar importância a uma alteração e liberá-la inadvertidamente.

A cintilografia miocárdica, outro exame da medicina nuclear, também diagnostica a isquemia, mas perde a eficácia após três horas do início da dor. Muitas vezes, a solução é internar o paciente para observação.

Smanio diz que é comum haver demora para buscar atendimento. "Ficamos rendidos. Se liberamos o paciente, ele pode ter um infarto em casa. Se o internamos e ele não tem nada, um leito é ocupado sem necessidade. É difícil distinguir a dor de origem cardíaca de outra causada por uma crise de ansiedade, por exemplo", diz.

Segundo um estudo recente, até 10% dos pacientes com dor torácica liberados por falta de alteração no eletro evoluem para infarto.

Para José Soares Jr., presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear, o exame tem potencial para se disseminar. "É bem inovador. Com ele, o diagnóstico fica mais concreto. Acho que vai atrair os cardiologistas", diz. Ele ressalta que o uso do PET-CT não é rotina na cardiologia.

O método é indicado para pessoas mais propensas a doenças cardíacas, como fumantes e obesos.

 

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