Ciência
01/05/2009 - 22h59

InCor testa tratamento contra aterosclerose

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JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo

Os primeiros resultados de um método que utiliza nanotecnologia para tratar aterosclerose serão apresentados amanhã no 30º Congresso da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo).

Desenvolvido pelo endocrinologista Raul Maranhão, do InCor (Instituto do Coração), o tratamento utiliza medicamentos antitumorais, usados em quimioterapia, englobados por partículas de 60 nanômetros --a milionésima parte de um milímetro-- para combater a inflamação na parede interna do vaso sanguíneo, causadora da doença.

O procedimento foi testado em coelhos e levou a uma redução de 60% nas lesões das artérias. Nos próximos meses, começará o teste em humanos. Principal causadora de morte no mundo, a aterosclerose é desencadeada por depósito de gordura nas artérias. Um processo inflamatório leva à formação de placas. Quando a inflamação é intensa, gera complicações como um rompimento da placa, obstruindo a passagem de sangue e causando infarto ou derrame, por exemplo.

"Faltam medicamentos contra aterosclerose", diz Maranhão. Hoje, há duas linhas de tratamento da doença: a intervencionista (como angioplastia e outros procedimentos invasivos), e a medicamentosa, (como as estatinas e os agentes anticoagulantes). A nova terapia atuaria de forma mais específica, tratando a doença mais amplamente, focando na lesão e, possivelmente, evitando um tratamento mais invasivo. "A ideia não é superar, mas acrescentar a esse arsenal, o que não dispensa os tratamentos eficientes", explica Maranhão.

Técnica

Inicialmente, as nanopartículas foram estudadas para tratar câncer. Estudos com cem pacientes mostraram que os efeitos colaterais da quimioterapia são muito reduzidos, enquanto a capacidade farmacológica é mantida. Para tratar a aterosclerose, as partículas são feitas de uma forma artificial de gordura, semelhante ao LDL (colesterol "ruim"), contendo o remédio.

Quando injetadas no sangue, captam uma proteína presente no colesterol "ruim" natural. Então, as nanopartículas se ligam aos receptores de LDL presentes nas células que estão causando a inflamação, "enganando-as" e levam a droga a elas. Bloqueia-se a multiplicação das células inflamatórias.

Maranhão prevê que a abordagem inicial do tratamento em humanos será com sessões de infusão de partículas com duração de meia a uma hora, repetidas a cada quatro semanas por quatro meses. Para o cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Hospital do Coração, trata-se de um trabalho inovador. Ele pondera, porém, que não é possível afirmar se o método será eficaz em humanos.

"O homem pesa mais que o coelho e há muitas variáveis envolvidas, como o metabolismo, a frequência cardíaca, a pressão arterial, o estresse... Será que vai funcionar se a inflamação estiver no início? Mas toda pesquisa clínica começa assim", diz. José Rocha Faria Neto, diretor do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia, afirma que o estudo é pertinente, pois é preciso desenvolver novas terapias contra doenças cardiovasculares.

"O trabalho mostrou que é possível usar o método para levar a droga onde ela vai atuar. Por via oral, o remédio seria muito tóxico." Acreditava-se que a aterosclerose fosse uma doença degenerativa, causada por acúmulo de gordura nas paredes dos vasos. "Hoje, sabe-se que é uma doença inflamatória, causada por tabagismo, hipertensão, diabetes, e que a proliferação de células da parede da artéria tem um papel importante", diz Faria Neto.

Outros estudos

Outro trabalho, liderado pelo cardiologista Kleber Franchini, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), também busca aumentar as possibilidades de tratar a doença. Franchini quer desenvolver um remédio com papel anti-inflamatório e antiaterogênico (preventivo) --estudos preliminares confirmaram a eficácia da substância.

Porém, os mecanismos de atuação são sigilosos por questões contratuais --uma empresa farmacêutica mantém convênio com a Unicamp para o desenvolvimento da terapia.

 

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