Elite dos EUA tem mais interesse em investir em pesquisa, diz neurocientista
MARINA LANG
colaboração para Folha Online
O neurocientista Miguel Nicolelis, que reside há 20 anos nos Estados Unidos, disse nesta segunda-feira (8) que as citações científicas do seu trabalho seriam muito menores se ele trabalhasse no Brasil. "Certamente, [as menções] seriam muito menores. Tenho trabalhos anteriores [à residência nos EUA], que considero muito bons e que tiveram citações muito abaixo das atuais", afirmou Nicolelis, durante sabatina da Folha.
O evento acontece no shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, e conta com os entrevistadores Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha de S.Paulo, Gilberto Dimenstein, membro do Conselho Editorial da Folha, Hélio Schwartsman, articulista do jornal, e Suzana Herculano-Houzel, neurocientista e colunista do caderno Equilíbrio.
O paulistano Miguel Ângelo Laporta Nicolelis chefia um grupo de 30 pesquisadores no Centro de Neuroengenharia da Universidade Duke (EUA). Ele pesquisa as possibilidades de integrar o cérebro às máquinas. Busca o desenvolvimento de próteses neurais para a reabilitação de pacientes que sofrem de paralisia.
Neste ano, ele criou uma técnica para tratar os sintomas do mal de Parkinson com suaves impulsos elétricos na medula espinhal. O experimento foi inicialmente feito com camundongos --e poderá ser testado em humanos já em 2010.
Nicolelis observou ainda que o Brasil ficou muito tempo à margem dos grandes eixos científicos europeu e norte-americano. "Mas, com a diáspora de cientistas da América Latina para esses lugares, pesquisadores começaram a trabalhar nas universidades e a citar [trabalhos] brasileiros", analisou, naquilo que classificou como uma "globalização do bem".
"Hoje, há muito interesse das universidades europeias em estabelecerem parcerias com laboratórios brasileiros", afirma o neurocientista.
De acordo com ele, o Brasil é o "futuro celeiro de alimentos do mundo, país da maior biodiversidade, com grande talento humano e futuro líder em termos de energia alternativa."
Elites
O neurocientista afirmou que diferenças culturais entre as elites dos Estados Unidos e Brasil são parte da explicação para a grande diferença entre os investimentos feitos em pesquisa nesses locais. Segundo ele, isso está relacionado ao legado que essas classes querem deixar.
"Nos Estados Unidos há uma espécie de busca por imortalidade. O rico quer ter o nome na porta de um instituto da Universidade Harvard, do MIT. Ele acha que um filho, um neto, vai passar ali e ver o nome dele", afirma. "No Brasil, ainda temos a ilusão de que dá para levar o dinheiro junto. Até que se prove o contrário, não dá."
Além disso, ele afirma que a legislação fiscal dos EUA, com estímulo à pesquisa e facilidade nas doações, também contribui para que o país invista mais em ciência e tecnologia. "Eu sou ex-aluno da USP, e hoje é muito mais fácil doar para a Universiade de Duke. Até pensei em colocar o nome da minha avó no anfiteatro da Faculdade de Medicina da USP, mas a burocracia é tão grande que eu já teria morrido até que isso acontecesse."

