Pesquisa cria lembrança falsa em inseto
REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo
Gero Miesenböck e seus colegas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, descobriram um método muito mais preciso que o hipnotismo para implantar memórias falsas na cabeça de suas vítimas: luz. Com a ajuda de pulsos de laser, eles manipularam diretamente os neurônios de moscas-das-frutas para que os bichos "se lembrassem" de um trauma que nunca aconteceu.
Miesenböck não deixa dúvidas sobre o que aconteceu com as mosquinhas: "É como se nós tivéssemos implantado uma memória diretamente no cérebro, e isso agora guia as ações do animal", declarou ele à Folha. A pesquisa, que está na prestigiosa revista científica "Cell", é mais um indício de que as capacidades mentais de bichos, e até de seres humanos, podem ser mapeadas em pequenos eventos bioquímicos.
| Arte/Folha de S.Paulo | ||
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12 neurônios
Para ser mais exato, os experimentos em Oxford mostram que um conjunto de apenas 12 neurônios dos insetos é suficiente para produzir a falsa lembrança. É óbvio que existe uma distância considerável entre o cérebro de moscas e o de pessoas, mas os mecanismos básicos provavelmente são parecidos, o que pode trazer pistas sobre como a memória dos seres humanos funciona.
A memória criada com a ajuda dos pulsos de laser não poderia ser mais simples: a associação entre determinado cheiro e a dor de um choque elétrico, o que faz o animal evitar aquele odor da próxima vez que o encontra.
Os pesquisadores já sabiam que, nas moscas-das-frutas, essa associação precisa da liberação de dopamina, um mensageiro químico do cérebro, para se estabelecer. Criaram, então, moscas geneticamente modificadas, nas quais o pulso luminoso induzia reações bioquímicas que produziam dopamina.
O resultado disso é que, na presença de determinado odor, e diante da estimulação luminosa, os bichos adquiriram o comportamento de evitar o cheiro, com frequência igual à que apareceria se eles realmente tivessem levado um choque.
Miesenbock diz que o experimento não é a mesma coisa que estimular os centros de dor do cérebro da mosca -o que, na prática, não seria diferente de um choque de verdade. Para começar, "esse tipo de estimulação elétrica é muito impreciso. Não consegue afetar só alguns neurônios e deixar os demais intactos", diz Miesenböck.
Mais importante ainda, o que o animal sente --se é que sente-- provavelmente é diferente. "Não sabemos se a mosca percebe a liberação de dopamina como algo doloroso. Mas eu suspeitaria que os dois tipos de sinais neurais são distintos. Nossa sugestão é que a dopamina corresponde aos chamados sinais de erro, e não a simples representações de dor", afirma.
Tais sinais de erro representariam o impulso de evitar o comportamento que o organismo considera incorreto -no caso, a dor que viria caso o choque elétrico fosse real.
Iván Izquierdo, pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e principal especialista em memória do país, afirma que lhe parece incorreto chamar as memórias criadas pelo método de falsas. "É uma memória real, mas criada direto no circuito conhecido, o que é mais prático", diz Izquierdo, para quem a ideia do "sinal de erro" no cérebro da mosca faz sentido.
O pesquisador, no entanto, afirma ser cético quanto à aplicação dos dados. "Em vertebrados eu acho muito difícil, a distância é muito grande. Mas talvez ajude a refinar e individualizar os modelos de memória em moscas", avalia Izquierdo.
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