Ciência
25/10/2009 - 07h42

Defensor da teoria evolutiva quer convencer criacionistas para explicar darwinismo

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CLAUDIO ANGELO
editor de Ciência da Folha de S.Paulo

Depois de passar anos negando o Holocausto, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, muda-se para Nova York e inaugura um instituto de estudos históricos. Mesmo que suas aulas não discutam a 2ª Guerra, quantos judeus se inscreveriam nelas?

Uma situação análoga a esse caso hipotético se aplica a Richard Dawkins e seu recém-lançado livro "The Greatest Show on Earth" ("O Maior Espetáculo da Terra").

Divulgação
Richard Dawkins, defensor ferrenho da teoria evolutiva
Richard Dawkins, defensor ferrenho da teoria evolutiva

O biólogo britânico tem sido o mais célebre paladino do ateísmo e militante anticriacionista dos últimos anos. Sua obra anterior dedica-se a tentar provar que Deus não existe, tratando os religiosos como imbecis e imputando à ciência -e em particular à evolução darwinista- o papel de "força conscientizadora".

Agora, Dawkins escreve este outro livro, cujo subtítulo é "As Evidências em Favor da Evolução", para argumentar por que o darwinismo é um fato. Seu objetivo declarado é converter os "negadores da história", como ele chama os criacionistas, à verdade da evolução, e municiar gente racional para argumentar contra o criacionismo.

Mas, como os judeus de Ahmadinejad, que criacionista compraria um livro que defende a evolução, ainda mais escrito por Richard Dawkins? Talvez o autor pudesse ir direto ao ponto e confessar que escreveu "The Greatest Show on Earth" só para tirar uma casquinha das efemérides darwinistas de 2009. Este ano, que marca o bicentenário de nascimento de Charles Darwin e os 150 anos de "A Origem das Espécies", testemunhou uma explosão cambriana de títulos sobre evolução. Só faltava este.

Aos idiotas como eu, que caíram nesse conto-do-vigário, um consolo: o livro é excelente.

Já seria excelente se fosse só pela prosa sedutora de Dawkins, capaz de comparar o desenvolvimento embrionário a origamis e de deixar o leitor emocionado com a descrição de um celacanto. Mas Dawkins faz mais: ele carrega o leitor, não pela mão, mas no colo, por um passeio extremamente didático por 150 anos de evidências em favor do darwinismo.

E as evidências são tantas, vindas de tantas disciplinas científicas diferentes, que é fácil se perder no meio delas. "The Greatest Show on Earth" evita que isso aconteça.

Dawkins começa esclarecendo uma das principais confusões terminológicas em torno da evolução: a palavra "teoria". A maneira como ele derruba essa pedra angular do criacionismo ("o darwinismo é só uma teoria") é elegante: buscando a definição de "teoria" no dicionário e mostrando como ela se confunde com a definição de "fato". O cientista usa o termo para fatos observáveis, como a "teoria" da evolução de Darwin e a "teoria" de que a Terra gira em volta do Sol.

Em seguida, dá início ao espetáculo propriamente dito. Ele recorre à mesma estratégia usada por Darwin na "Origem": fala antes de plantas e animais domésticos e do poder da seleção humana de causar grandes mudanças em espécies (produzindo vegetais tão diferentes quanto brócoli e repolho a partir do mesmo ancestral selvagem) em pouco tempo.

Só depois de ter a certeza de que qualquer criança (ou criacionista) entenderia os conceitos apresentados é que o autor passa à seleção natural propriamente dita. Emulando Darwin mais uma vez, Dawkins desanda a falar de abelhas e orquídeas -às quais o pai da evolução dedicou um livro inteiro.

Fixado no leitor o essencial, Dawkins passa a desfiar seu estonteante conjunto de fatos evolutivos. Ao mesmo tempo, vai aplicando um "jab" após o outro nos principais argumentos do criacionismo e de sua nova roupagem, o design inteligente. Narra um minucioso experimento feito pelo microbiologista americano Richard Lenski para mostrar que a seleção natural pode introduzir informações novas no genoma (criar complexidade, algo que os devotos do design dizem ser impossível). Expõe uma miríade de fósseis para destruir a chicana retórica do "não há fósseis intermediários".

Perguntas erradas

Mais do que responder às críticas dos criacionistas à evolução, Dawkins explica por que quase todas elas partem de perguntas erradas. É o caso de um diálogo imortal (e hilário) que ele reproduz entre uma criacionista e o evolucionista britânico J. B. S. Haldane. A mulher diz a Haldane que simplesmente não podia acreditar que, mesmo em bilhões de anos, se pudesse "ir de uma célula única a um complicado corpo humano". Haldane retruca: "Mas, madame, a sra. mesma fez isso. E em apenas nove meses".

Ao longo das mais de 400 páginas do livro, Dawkins faz mais do que ensinar evolução: ele inspira em seus leitores um encantamento pelo mundo natural que só pode ser plenamente saboreado por uma compreensão da biologia.

Idiotas que caiam nesse conto-do-vigário terminarão o livro agradecidos a Dawkins por compartilhar tal encantamento. E com uma imensa pena dos criacionistas, que jamais chegarão a apreender a grandeza dessa visão da vida.

LIVRO - "The Greatest Show on Earth - The Evidence for Evolution" ("O Maior Espetáculo da Terra - As Evidências em Favor da Evolução")
de Richard Dawkins; Free Press, 470 págs., US$ 16
Avaliação: ótimo

Comentários dos leitores
Jose Teixeira (19) 20/11/2009 23h01
Jose Teixeira (19) 20/11/2009 23h01
Sr. Cláudio Ângelo, não entendi bem seu posicionamento diante de um assunto tão sério como esse, pelo menos para mim! Fiquei sem saber se o Sr. admira ou execra o grande cientista Dawkins. Seus argumentos em defesa da "Evolução" são lógicos demais para se lançar dúvidas a respeito. Ainda que ele use de toda a sua perspicácia, conhecimento científico e didática excelentes para expor qualquer assunto a que se proponha. Em seu livro "Deus, um delírio" ele lança um desafio, que aos mais desavisados, pode parecer uma pretensão inatingível, embora ele mesmo tenha colocado a idéia nesses termos, de que após a leitura isenta dessa obra prima, ele duvida que uma mente esclarecida não se renda aos argumentos apresentados e deixe de crer na "teoria criacionista". Não há engodo algum! Como dizia um dos expoentes do protetantismo: "A razão é inimiga da fé"! A fé se desvanece diante da razão, pelo simples motivo de que ela não se sustenta a não ser no sentido puramente subjetivo da interpretação individual, o que não constitui evidência de nada. A qualquer cientista ateu que fossem apresentadas evidências da inequívoca existência de Deus, imediatamente se renderiam e confessariam a sua posição errada. Do contrário, a qualquer crente que fossem apresentadas evidências irrefutáveis da não existência de Deus, diriam: não importa, continuo acreditando que ele existe! De fato, é isso que se observa. E isso deixa de ser interessante sobre qualquer ponto de vista! sem opinião
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Alex Peres (47) 20/11/2009 19h06
Alex Peres (47) 20/11/2009 19h06
Caro Edivaldo, vc deve estar falando da SUA relação com Deus, pois Deus só existe no imaginário de cada pessoa. Tente vc identificar o caminho de volta da sua casa, os objetos, a comida, e tudo o que vc vê, da forma que os cães fazem, somente através do olfato. Temos habilidades que os animais não tem, porém eles tem habilidades que nem sonhamos ter, muito mais sofisticadas. Pare com a mania de se achar especial, de achar que a raça humana é melhor. Somos animais, compostos dos mesmos elementos químicos com o propósito biológico de nos mantermos vivos para passar a herança genetica para nossos filhos, nada mais. O resto é alegoria, inclusive Deus. Tente estudar e ler mais coisas para abrir a cabeça e sair do escuro do misticismo. Tenho fé (e fé é diferente de religião) que nós um dia entenderemos o mundo como uma grande comunidade de seres vivos e não como nosso reino e que tudo está sob nosso controle, ou o que é o pior, sob o controle de um ser imaginário e todo poderoso, fisicamente impossível. A obra de Darwin é comprovada cientificamente baseada numa montanha de evidências, é incotestável. Só a cegueira religiosa nega! sem opinião
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Leandro Alves (15) 19/11/2009 18h51
Leandro Alves (15) 19/11/2009 18h51
Edvaldo, meu gato é bastante inteligente, mas realmente não é capaz nem de entender o que é um rádio (ou talvez eu que não saiba me comunicar na língua dele). Seu raciocínio, aparentemente profundo, não está baseado em nada e este é o ponto.
Não estou aqui para discutir a nossa relação com Deus e nem se ele existe. Mesmo que você esteja certo isso não prova que a teoria de Darwin está errada, o que é o cerne deste fórum.
Por favor, não me venha com metáforas vazias. Me de argumentos reais contra Darwin. Eu adoraria ouvi-los, pois isto seria de grande valor para a ciência e, consequentemente, para a humanidade.
sem opinião
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