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12/05/2002 - 03h55

Americano quer trocar classificação das espécies por sistema de evolução

Reinaldo José Lopes
free-lance para a Folha de S.Paulo

Em sã consciência, poucas pessoas se arriscariam a colocar lado a lado porcos e baleias, como se fossem parentes próximos. Sair chamando galinhas de dinossauros ou cobras, animais rastejantes por excelência, de bichos de quatro patas causaria um grau parecido de estranheza.

Contudo, mudanças como essas, com cara de absurdo, mas fundamentadas pela própria história da vida na Terra, são algumas das consequências mais instigantes do PhyloCode (uma abreviação inglesa para "código filogenético"), um novo sistema para denominar e classificar os seres vivos que promete reconduzir a evolução, de longe a idéia mais importante e unificadora da biologia, de volta a seu devido lugar.

O principal idealizador do PhyloCode é o americano Kevin de Queiroz, um californiano de 45 anos que é, ele próprio, um enigma classificatório. "Sim, o meu sobrenome é português", diz Queiroz, "mas o meu avô era mexicano e se chamava Padilla. Ele mudou de nome várias vezes, volta e meia adotando nomes portugueses. Queiroz é o nome que ele usava quando meu pai nasceu."

Para completar, o especialista em répteis do Museu Nacional de História Natural, em Washington, também tem sangue japonês. "Acho que meus nomes e meu sangue são bem misturados", brinca.

De qualquer maneira, essa confusão genealógica não atrapalhou os traços característicos da personalidade do pesquisador: ordem, lógica, coerência interna. "Eu sou uma pessoa que se esforça muito para ser logicamente consistente. E, além disso, gosto muito de pensar sobre as consequências lógicas das coisas, e isso às vezes leva a idéias novas, como a nomenclatura filogenética."

Apesar de esquisita, essa palavrinha de origem grega tem um significado que não é nem um pouco extravagante: a filogenia consiste em olhar a diversidade das formas de vida como uma grande família, organizando criaturas em grupos de parentesco e descendência.

Tudo muito de acordo com a biologia evolutiva, sem dúvida. Mas acontece que a maneira usada para organizar os seres vivos há quase 250 anos, argumenta Queiroz, não leva esse princípio básico em conta.

De fato, o sistema até hoje usado para designar as formas de vida, conhecido de qualquer um que já tenha usado o indefectível Homo sapiens para incrementar uma redação de colégio, é a nomenclatura lineana.

Seu criador, o botânico sueco Carl von Linné ou Carolus Linaeus (1707-1778), elaborou o conceito de um nome duplo, ou binômio, de origem latina ou grega, cujo primeiro termo (Homo) designava o gênero, um agrupamento mais amplo de organismos, enquanto o segundo (sapiens) era o nome pessoal e intransferível de cada espécie.

As espécies lineanas eram agrupadas em gêneros, depois em famílias, ordens (a da humanidade, até hoje, é a dos primatas), classes e reinos. De qualquer lado que se olhe, a arquitetura teórica de Lineu (como é geralmente chamado em português) foi um avanço mais do que respeitável: para dar uma idéia, naturalistas europeus da era pré-lineana eram obrigados a chamar uma simples roseira silvestre de Rosa sylvestris alba cum rubore, folio glabro.

O binômio de Lineu reduziu ao mínimo necessário essa tagarelice latina e, de quebra, suas categorias ajudaram a impor um pouco de critério científico, como o uso de semelhanças anatômicas, numa época em que os animais eram divididos em selvagens e domésticos, ou terrestres, aquáticos e aéreos.

Rebocado, pintado e ampliado, o edifício lineano continua firme de pé. O grande problema, porém, é que Lineu fixou seu sistema em 1758 -exatos 101 anos antes da publicação de "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, o livro que instala de vez a evolução no trono da biologia.

Para Lineu, as subdivisões da vida eram só um recurso prático, organizacional: "A invariabilidade das espécies é a condição da ordem [na natureza]", proclamava o naturalista, filho de um pastor luterano. É difícil achar algo mais distante do que queria Darwin: "Nossas classificações deverão se tornar, até onde for possível adequá-las, genealogias". A frase, não por acaso, abre o artigo de Queiroz que se tornou o embrião do PhyloCode.

Organizando lagartos
A idéia começou a se formar na cabeça de Queiroz e de seu colega Jacques Gauthier em meados dos anos 80, quando os dois tentavam traçar uma genealogia dos lagartos ("o que inclui as cobras", ressalta o americano, com cuidado para evitar a confusão entre aparência e parentesco evolutivo).

Gauthier propôs que a dupla definisse os grupos de lagartos com base nas espécies vivas hoje, ligando-as à espécie fóssil que fosse seu ancestral comum mais recente. "Eu concordei com ele e nós começamos a falar sobre as vantagens disso quando uma lâmpada acendeu, como nós dizemos em inglês; sem se dar conta disso, ele havia bolado uma forma nova e explicitamente evolutiva de definir o nome de um taxon [grupo de seres vivos"", conta o pesquisador de Washington. "Não quero sugerir que nós tenhamos inventado essa teoria a partir do nada", ressalta Queiroz.

A intenção de tornar a filogenia o conceito central da taxonomia, explica ele, existe desde o trabalho do alemão Willi Hennig, nos anos 50. Hennig foi o primeiro a propor que os grupos de seres vivos só contivessem espécies monofiléticas (trocando em miúdos, as que contêm um ancestral comum e todos os seus descendentes, sem deixar ninguém de fora).

"De certa maneira, essa idéia é o ponto de partida da sistemática moderna", afirma Dalton de Souza Amorim, do Departamento de Biologia da USP de Ribeirão Preto (interior de São Paulo) e especialista em filogenia de insetos.

Hennig e seus sucessores acabaram se tornando a voz dominante na hora de repensar as relações de parentesco entre os seres vivos, que andaram mudando como loucas graças à profusão de novos fósseis e às técnicas cada vez mais refinadas de interpretá-los.

A taxonomia ameaçou até virar cladística -do grego "klados", ramo, forma mais comum tomada pelas novas genealogias da vida. Mas as categorias criadas por Lineu e outras adicionadas posteriormente, sem nenhuma implicação evolutiva, continuavam sendo usadas, dificultando ou confundindo as alterações que a história da evolução sugeria ao sistema.
Para Queiroz e seus colegas, como Gauthier e Phil Cantino, o buraco era mais embaixo: sem uma reformulação completa dos conceitos que fundamentam a teoria lineana, uma mudança adequada nunca ocorreria de verdade.

Mas a idéia de simplesmente criar um novo código, que substituísse os atuais ICZN (Código Internacional de Nomenclatura Zoológica) e ICBN (Código Internacional de Nomenclatura Botânica), demorou para aparecer. "Eu mesmo não queria escrever um novo código", conta Queiroz. "Acho que estava esperando que as pessoas que cuidam dos códigos tradicionais vissem o valor do nosso enfoque e mudassem os códigos existentes. Mas essa era uma idéia muito ingênua. Você precisa ter em mente que fazer isso seria substituir a própria fundação -os pressupostos mais básicos- dos códigos tradicionais", afirma o pesquisador americano.

A mudança espontânea, claro, não aconteceu. Depois de muita argumentação científica durante os anos 90, atraindo companheiros e criando opositores, os defensores da filogenia decidiram sair do embate teórico e organizaram um simpósio em 1998, na Universidade Harvard, que reuniu cerca de 30 cientistas de vários países.

Na pauta estava o desenvolvimento de um código efetivo, passível de ser oficializado no futuro de acordo com o nível de consenso que ele alcançasse. Os que compareceram ao encontro se tornaram uma espécie de conselho informal do código que estava nascendo, e o PhyloCode foi finalmente estabelecido, com suas regras e recomendações, ainda preliminares, publicadas na internet (www.ohiou.edu/phylocode).

Categorias questionadas
As propostas do código já andavam povoando os trabalhos de Queiroz e de outros pesquisadores de orientação filogenética alguns anos antes da publicação do PhyloCode. Um dos pontos principais, talvez o mais bem cotado para conseguir consenso entre os biólogos, é a perda da importância das categorias mais amplas do sistema lineano (praticamente do gênero para cima) em favor de duas unidades básicas: "As categorias taxonômicas importantes são as que eu chamo de ontológicas: espécie e clado", explica Queiroz.

Organizando clados cada vez mais inclusivos (uma vez que, no fim das contas, toda a vida na Terra descende de um só ancestral comum), o agrupamento nesse esquema impediria a camisa-de-força lineana de hoje, que exige a associação de cada nova espécie com todas as categorias, da mais fundamental às maiores.

Essa regra incômoda costuma deixar pesquisadores perplexos na hora de lidar com espécies fósseis, que têm pouco ou nenhum parentesco com animais atuais mas que, mesmo assim, precisam ganhar um nome para sua família ou ordem taxonômica (categorias acima do gênero).

"Sem dúvida tais categorias amplas têm pouco sentido evolutivo. Mas não porque os agrupamentos em si sejam menos "reais" que o gênero ou a espécie, mas porque eles não são equivalentes. Ou seja, uma ordem de insetos não tem a mesma amplitude de uma ordem de mamíferos, tanto em termos evolutivos quanto em biodiversidade", diz o paleontólogo brasileiro Max Langer, especialista em dinossauros. "Nesse ponto, concordo totalmente com o PhyloCode", afirma Langer, que vê algumas fraquezas na proposta de Queiroz.

Baleia com casco
As mudanças mais chocantes do ponto de vista de um leigo devem nascer da firme disposição de não permitir clados parafiléticos. Tradução: se dois grupos hoje separados brotaram de um mesmo ancestral comum, eles têm de estar juntos. "Nós já incluímos as aves dentro dos dinossauros e provavelmente incluiríamos os cetáceos [baleias" dentro dos artiodáctilos [mamíferos com cascos e número par de dedos"", afirma Queiroz.

Essas mudanças, baseadas em reviravoltas mais ou menos recentes do registro fóssil, sublinham o fato de que os animais que hoje têm penas evoluíram não de qualquer grupo réptil, mas a partir de formas não muito diferentes do célebre velociraptor, também cobertas de penas.

Ou que criaturas muito semelhantes aos suínos de hoje, vagando pelas praias de 50 milhões de anos atrás, acabaram colonizando os oceanos da Terra e dando origem a baleias e golfinhos.

No caso de grupos que a humanidade já encara há tempos como unidades naturais, o potencial de transformação da nova proposta pode ser ainda mais radical, sugere Dalton Amorim, da USP: "A partir do momento em que os grupos parafiléticos desaparecem, os que hoje nós chamamos de peixes deixam de ser uma unidade", afirma o pesquisador.

"Aí, nós enxergaríamos a relação muito clara que existe entre os chamados peixes pulmonados e os vertebrados terrestres", diz Amorim.

O velho termo "invertebrados", útil para jogar no mesmo saco animais tão distintos quanto um polvo e uma abelha, também cairia por terra: "Os invertebrados deixariam de existir como grupo e animais como os equinodermos [estrelas-do-mar e ouriços-do-mar" seriam colocados numa posição mais próxima dos próprios vertebrados", afirma Amorim.

Para Queiroz e seus companheiros, todo esse remanejamento um tanto amalucado de criaturas no tecido evolutivo acaba com um mal-disfarçado domínio do arbítrio na taxonomia, no qual critérios morfológicos subjetivos podiam fazer e desfazer grupos de seres vivos ao capricho dos classificadores, quando "alguém decide que dois taxa antes considerados duas famílias distintas apenas "merecem" ser subfamílias, e então junta as duas numa só família", diz o herpetologista.

Por outro lado, as idéias sobre o parentesco entre espécies atuais e extintas podem virar do avesso por causa de um único fóssil, e isso aconteceu mais de uma vez em tempos recentes.

Segundo Langer, essa poderia ser uma fraqueza da obsessão do PhyloCode com a história evolutiva. "Para aqueles que querem ver a nomenclatura filogenética classificando todos os seres vivos de uma forma completa e imutável, isso é um problema." Queiroz, porém, apesar de suas críticas ao que considera a arbitrariedade do sistema lineano, não se deixa abater: "Esse tipo de instabilidade é uma coisa boa. Nós precisamos ser capazes de revisar nossas idéias sobre a composição dos taxa conforme adquirimos informações novas. Como algumas pessoas dizem, "estabilidade é ignorância". O que nós vemos como a vantagem do PhyloCode é que, nesse sistema, mudanças na composição dos taxa só ocorrem se as idéias sobre a filogenia mudarem", afirma o pesquisador.

É tudo invenção
O próprio binômio lineano, até agora sacrossanto nas muitas reformas propostas ao velho sistema, não é exatamente intocável, diz Queiroz. "Nomes binomiais para as espécies podem ou não persistir. Não é algo que nós já tenhamos decidido. Mas, mesmo se eles persistirem, o primeiro nome não seria mais o nome de um gênero; seria apenas a primeira parte de um nome de espécie em duas partes."

Alguém um pouco mais cético e menos enfurnado nas particularidades da teoria evolucionista, de olho no escasso registro fóssil, poderia questionar a validade de um apego tão grande à sucessão de espécies para classificar a vida. Se os buracos nesse contexto nunca serão totalmente preenchidos, parece possível relativizar o critério filogenético. "É preciso ter em mente que filogenias também são construções humanas, de modo que a classificação proveniente delas não é mais real que outras classificações. Uma coisa são as relações filogenéticas entre os organismos, que são ciência empírica, "dura". Outra coisa é o nome que damos aos diferentes grupos, algo que é subjetivo, mas utilitário", diz Langer.

Queiroz, claro, se recusa a aceitar essa relativização. "Na minha opinião, essa é uma visão datada da taxonomia. Os grupos são vistos como classes, que não estão certas ou erradas, mas são apenas mais ou menos úteis. Mas a visão moderna é que a taxonomia pode nunca corresponder exatamente às verdadeiras relações evolutivas, mas ela pode ser testada e avaliada de acordo com padrões científicos, assim como qualquer outra teoria científica", afirma.

Seja como for, Queiroz está disposto a efetivar os princípios do PhyloCode, com a ajuda das opiniões da comunidade científica. "Neste exato momento a coisa está bem controversa, com muitas pessoas apoiando e outras se opondo a nós. Estamos tentando organizar um segundo simpósio para tomar decisões sobre novas modificações sobre o código. Depois dessas revisões e depois que elas forem aprovadas pelo grupo consultivo tentaremos publicar o código e torná-lo oficial", afirma.

Se o reinado lineano finalmente está com os dias contados, Queiroz não tem uma data para essa mudança. "Essas coisas são difíceis de prever. Mas, no meu entendimento, a nomenclatura filogenética representa o estágio mais recente de um processo que eu chamaria de evolucionalização da taxonomia", diz. "Não vejo razão para que esse processo acabe agora."



 

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