Cientistas recriam vírus da pólio usando informações da internet
SALVADOR NOGUEIRAda Folha de S.Paulo
A erradicação completa da varíola vai acontecer quando as últimas amostras do vírus, hoje guardadas em laboratórios de segurança máxima nos EUA e na Rússia, forem destruídas, certo? Pense de novo. Cientistas da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook recriaram o vírus da pólio usando nada mais que os dados de seu genoma - disponíveis publicamente a quem quiser.
O vírus da pólio é um dos mais simples que há. Seu genoma completo é tem cerca de 7.500 bases (letras genéticas). Para recriar a varíola, cujo código genético tem 100 mil bases, a complicação seria muito maior. "Mas nosso trabalho serve como prova de que poderia ser feito", diz o argentino Jeronimo Cello, co-autor do estudo, que saiu hoje na revista "Science" (www.sciencexpress.org).
Para recriar o vírus, os cientistas coletaram a sequência do genoma na internet e a usaram para montar uma molécula de DNA (uma das duas capazes de codificar genes). A partir do DNA (em fita dupla), replicaram uma molécula de RNA (fita simples), a mesma que serve ao vírus da polio (ele não tem DNA). "Tivemos de fazer isso porque RNA é muito instável para criarmos direto", diz Cello.
Pondo esse RNA em um meio de cultura, eles sintetizaram o vírus. Então o injetaram em roedores, confirmando sua eficácia.
Segundo os cientistas, os resultados devem ter implicações para a idéia de erradicação de doenças virais. Já não basta destruir fisicamente um vírus para garantir que ele não vá mais atacar. É preciso excluir também as informações que permitem sua recriação.


